No século XIX, enquanto o vocabulário político da modernidade começava a se consolidar — liberdade, progresso, direitos — uma voz brasileira formulou uma pergunta desconcertante: que valor têm essas palavras se metade da população permanece intelectualmente confinada?
Com essa inquietação, Nísia Floresta Brasileira Augusta (pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto) abriu uma das intervenções mais ousadas do pensamento social brasileiro. Seu livro Opúsculo Humanitário, publicado em 1853 no Rio de Janeiro, vai além de um manifesto pedagógico. O livro faz uma crítica filosófica à própria ideia de civilização quando esta se constrói sobre a exclusão. Composto por 62 ensaios originalmente publicados de forma anônima, a obra testa os limites do liberalismo sob o reinado de Pedro II.

A retórica da civilização incompleta
O ponto de partida da obra é um apelo nacional e urgente. Enquanto movimentos globais proclamavam a emancipação feminina, Nísia dirigia-se aos “povos do Brasil” com um diagnóstico acusatório: o país que se dizia civilizado falhava em entregar o instrumento elementar da cidadania — a educação.
Para a autora, a educação feminina não era um benefício social, mas um indicador de maturidade histórica. Ela argumentava que a modernidade institucional (leis, parlamentos) não se traduzia em modernidade social se o acesso ao conhecimento fosse monopolizado. Ao incluir em suas reflexões a condição de mulheres brancas, negras e indígenas, Nísia revelava uma sensibilidade rara à diversidade da experiência feminina em um Brasil escravocrata e patriarcal.
Nísia utilizou o Opúsculo Humanitário para denunciar a escravidão como um “cancro” que desfigurava a face da civilização nacional. Sua crítica era, acima de tudo, moral e pedagógica: ela argumentava que a instituição servil corrompia tanto o escravizado, privado de sua dignidade e educação, quanto a família senhorial, que crescia em um ambiente de tirania e ociosidade. Nísia demonstrava uma sensibilidade aguçada ao observar a condição das mulheres negras e amas-de-leite, reconhecendo que a verdadeira modernização do Brasil seria impossível enquanto o país permanecesse ancorado em um sistema que negava a humanidade básica e o acesso ao conhecimento a uma parcela tão vasta da população.
Nessa análise, Nísia participa do pensamento social brasileiro. Antecipa as questões acerca de desenvolvimento e desigualdades do país que somente seriam reabordados com rigor metodólogico um século mais tarde.
Biografia como Laboratório Crítico
O pensamento de Nísia não nasceu em abstração, mas de uma trajetória de embates. Nascida em 1810 no sítio Floresta, em Papari — município do Rio Grande do Norte que mais tarde seria renomeado em sua homenagem —, ela era filha de um advogado português de tendências liberais e de uma brasileira. Sua infância coincidiu com o processo de Independência do Brasil, um período de intensas tensões políticas que forçaram sua família a diversas mudanças devido ao sentimento antilusitano da época.
Aos treze anos, Nísia foi submetida a um casamento arranjado com o proprietário de terras Manuel Alexandre Seabra de Melo, união que abandonou poucos meses depois para retornar à casa dos pais. Essa experiência de opressão doméstica foi o embrião de sua consciência feminista. Em 1824, a família estabeleceu-se em Olinda, onde Nísia teve contato com a efervescência intelectual de Pernambuco. Foi nesse ambiente que ela sofreu um golpe traumático: o assassinato de seu pai em uma emboscada em Recife, motivado por questões judiciais. Livre da tutela paterna, mas em meio à instabilidade, ela iniciou uma união com Manuel Augusto de Faria Rocha, com quem se mudou para Porto Alegre em 1832. No Rio Grande do Sul, Nísia vivenciou o início da Revolução Farroupilha e estabeleceu laços com figuras como Anita e Giuseppe Garibaldi, antes de partir para a capital do Império após a morte de seu companheiro.
Ao chegar ao Rio de Janeiro em 1837, Nísia consolidou sua presença no espaço público. Em uma época em que as mulheres de elite eram educadas apenas para a domesticidade e para brilhar em salões sociais, ela fundou o Colégio Augusto. A instituição desafiou a ordem vigente ao oferecer às meninas um currículo idêntico ao masculino, englobando matemática, ciências, história, geografia e línguas estrangeiras.
Sua atuação pedagógica era indissociável de sua produção intelectual. Sob o pseudônimo de “Brasileira Augusta” — uma afirmação de nacionalismo e uma homenagem ao seu falecido companheiro —, ela publicou ensaios em importantes jornais como o Diário do Rio de Janeiro e O Liberal. O anonimato inicial de seus escritos não era apenas um detalhe editorial, mas um sintoma estrutural de uma sociedade que não reconhecia a autoridade intelectual feminina. Foi nessa fase que ela amadureceu as teses do Opúsculo Humanitário, argumentando que a modernidade institucional brasileira era uma fachada enquanto a educação fosse monopolizada por um único gênero.
Em 1849, desgastada pelas críticas conservadoras que acusavam seu colégio de “masculinizar” as mulheres e impulsionada por um desejo de expansão intelectual, Nísia partiu para a Europa. Essa jornada não foi uma fuga, mas a adoção de um procedimento comparativo raro no pensamento brasileiro do período. Residindo em países como França, Itália, Portugal, Inglaterra, Bélgica e Alemanha, ela estudou as instituições e o status jurídico das mulheres em diferentes culturas.
Em Paris, tornou-se amiga e discípula de Auguste Comte, cujas ideias positivistas sobre o papel social da mulher influenciariam profundamente sua obra tardia. Suas viagens permitiram-lhe concluir que a desigualdade de gênero não era um destino universal ou biológico, mas um arranjo cultural variável e, portanto, passível de transformação. O Opúsculo Humanitário é, em grande parte, o resultado desse olhar transnacional, que confrontava o atraso educacional brasileiro com as correntes de emancipação que cruzavam o Atlântico. Nísia Floresta faleceria na França em 1885.
Educação como tecnologia de cidadania
A convicção de Nísia materializou-se no Colégio Augusto, fundado no Rio de Janeiro. Enquanto as escolas da Corte focavam em “futilidades” e etiquetas para salões, o currículo de Nísia era revolucionário. O plano de ensino de Flores incluia matemática, ciências, línguas e história — disciplinas então reservadas aos homens.
Essa proposta era ontológica: se as mulheres podiam dominar o raciocínio abstrato, a inferioridade feminina deixava de ser um fato natural e passava a ser uma construção social. A reação conservadora foi feroz; a escola foi atacada por “masculinizar” as alunas. O que incomodava a elite não era a falta de qualidade, mas a redefinição do papel da mulher na pólis.
Influenciada por Mary Wollstonecraft e pelo positivismo de Auguste Comte, Nísia utilizou a viagem e o estudo comparativo como método crítico. Em suas passagens por França, Itália, Grécia e Inglaterra, ela observou que a desigualdade de gênero era variável e histórica, não universal.
É interessante considerar seu já mencionado pseudônimo. Com a sigla “B.A.” (Brasileira Augusta), ela expôs o “anonimato político”: uma mulher podia analisar a sociedade, mas raramente podia reivindicar a autoridade intelectual para fazê-lo publicamente. Seu primeiro livro, Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens (1832), já antecipava esse combate ao ser a primeira obra nacional a defender explicitamente a igualdade intelectual.
Um diagnóstico ainda inquietante
O Opúsculo Humanitário redefine o conceito de civilização. Para Nísia, uma nação não se mede por sua estabilidade política, mas pela distribuição do conhecimento. Se a educação é negada a uma parte do povo, a desigualdade torna-se epistemológica, e o liberalismo torna-se uma fachada.
A pergunta que encerra sua obra continua a incomodar: pode existir cidadania sem formação intelectual equivalente? Ao colocar a educação no centro da construção nacional, Nísia Floresta fundou o feminismo brasileiro. Como um diagnóstico social, ainda formulou uma teoria da modernidade incompleta que ainda hoje desafia o Brasil a cumprir suas promessas de progresso e inclusão.
SAIBA MAIS
ARAÚJO, Raquel Martins Borges Carvalho. Mary Wollstonecraft e Nísia Floresta: diálogos feministas. [S. l.]: Revista Água Viva, 2010. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/aguaviva. Acesso em: 15 fev. 2026.
CAMPOI, Isabela Candeloro. O livro “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” de Nísia Floresta: literatura, mulheres e o Brasil do século XIX. História, [s. l.], v. 30, n. 2, p. 196-213, 2011.
FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. 4. ed. São Paulo: Cortez, 1989.
FLORESTA, Nísia. Fragmentos de uma obra inédita: notas biográficas. Brasília, DF: Editora da UnB, 2001.
FLORESTA, Nísia. Opúsculo Humanitário. Reedição fac-similar. São Paulo: Cortez, 1989.
LIMA DUARTE, Constância (org.). Nísia Floresta: a primeira feminista do Brasil. Florianópolis: Mulheres, 2005.
MELO, Veríssimo de. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: Editora Universitária da UFRN, 1982.
