
Um mapa de atalhos a não tomar em pesquisa de ciências sociais e humanidades, bem como em abordagens qualitativas de outras disciplinas científicas.
Viés de seleção dos indivíduos, fontes ou dados para a pesquisa. A escolha a dedo da fonte afeta a qualidade da pesquisa. Quase nunca uma seleção aleatória é possível, especialmente em métodos qualitativos. Por isso uma metodologia de análise robusta, como a hermenêutica, análise fenomenológica (IPA), análise do discurso ou outra são imprescindíveis. Um pesquisador que deseja entender a experiência de estudantes universitários com o ensino a distância (EAD) e entrevista apenas alunos que se manifestaram positivamente sobre o tema em fóruns online, ignorando aqueles com dificuldades ou opiniões negativas.
Viés da evidência por anedota: É uma variante do viés de seleção. Experiências próximas ou casos isolados tendem a ser julgados como mais relevantes, representativos ou generalizáveis do que fontes mais estatisticamente significantes ou qualitativamente diversas. Um gestor afirma que um novo software de gestão é excelente porque um colega de outra empresa o elogiou, desconsiderando a necessidade de uma avaliação mais ampla que inclua a opinião de múltiplos usuários com diferentes perfis e necessidades em sua própria organização.
Viés de informação: São vícios na fonte de informação. Muitas variáveis dependem de registros com menor grau de confiabilidade, como a memória humana (que pode ser seletiva ou falha), a veracidade da informação fornecida por terceiros, ou objetos descontextualizados. Em uma pesquisa sobre práticas de saúde de uma comunidade no passado, basear-se apenas em relatos orais de seus membros mais idosos, sem tentar cruzar com registros médicos da época (se existirem) ou outras fontes documentais, pode levar a uma visão distorcida ou incompleta. Um artefato arqueológico identificado fora de uma escavação controlada, perdendo informações cruciais sobre seu contexto original.
Viés de não informação: Amostras ou populações relevantes para o estudo não são encontradas, acessadas ou incluídas, apesar de representarem tipicamente o fenômeno sob investigação.
Exemplo adicional: Um estudo sobre o impacto do trabalho remoto na saúde mental dos trabalhadores que coleta dados apenas através de questionários online pode excluir indivíduos sem acesso fácil à internet ou com baixa literacia digital, que podem justamente ser os mais afetados negativamente. O explorador Abel Tasman, que concluiu que não existia um continente no Pacífico Sul depois de ter cruzado a região sem encontrar a Austrália.
Viés de confirmação: Os interesses, crenças prévias ou a adesão do investigador a um conjunto de hipóteses, pressupostos ou possíveis efeitos da pesquisa levam-no a buscar, interpretar, favorecer e recordar informações de maneira tendenciosa, confirmando suas concepções iniciais. Essa tendência de somente enxergar o que interessa pode ser remediadapor triangulação na coleta, na análise ou na redação do relatório. Um pesquisador que acredita firmemente que o uso excessivo de redes sociais causa ansiedade pode focar sua análise de entrevistas apenas nos trechos em que os participantes associam o uso de redes sociais a sentimentos negativos, subestimando ou ignorando relatos de conexões positivas ou de outros fatores causadores de ansiedade.
Viés da perda do participante ou dos dados incompletos: os dados não coletados poderiam diferir dos dados completos, com tendência de afetar o compreensão total de um fenômeno. É uma espécie do viés de não informação. A triangulação de dados pode evitar isso. Os dados não coletados de participantes que abandonam o estudo (atrito) ou de respostas incompletas poderiam diferir significativamente dos dados completos, com tendência de afetar a compreensão total de um fenômeno. É uma espécie do viés de não informação. A triangulação de dados pode ajudar a mitigar isso. Num estudo longitudinal sobre os efeitos de um programa educacional, se a maioria dos participantes que desistem do programa e do estudo são aqueles com menor desempenho, os resultados finais do programa podem parecer mais positivos do que realmente são para a população-alvo original.
Viés de retrospectiva (ou “eu já sabia”): É o anacronismo que ocorre quando, depois de uma série de eventos ter se desenrolado e o resultado ser conhecido, as pessoas tendem a superestimar a capacidade que teriam tido de prever esse resultado. Por um truque e falha da memória, tendemos a ignorar nossa falta de informação pretérita e superestimar nossos prognósticos. Após a eleição de um candidato “azarão”, muitos comentaristas políticos podem afirmar que “os sinais estavam todos lá”, interpretando eventos passados de forma a tornar a vitória inevitável, quando, na verdade, antes da eleição, a incerteza era grande. “Atire a primeira pedra quem nunca foi bem numa prova que não estudou e com o mesmo empenho foi mal na próxima prova.” (Relacionado à superestimação da própria capacidade de previsão ou controle).
Viés de observação ou mensuração:A própria presença do observador pode alterar o comportamento dos observados (conhecido como efeito Hawthorne) . Adicionalmente, os pressupostos, expectativas e a simples forma de medir ou categorizar do observador afetam sua percepção e cognição. Em um estudo sobre hábitos de estudo em uma biblioteca, os estudantes podem se comportar de maneira mais diligente e focada do que o usual simplesmente por saberem que estão sendo observados por um pesquisador com uma prancheta.
Viés cultural: A posição e situação sociocultural do pesquisador (seu “lugar de fala”, cosmovisão, ideologia, valores, parâmetros estéticos, situação socioeconômica, filiação étnica, expressão linguística, status social, identidade, entre outros) afetam sua percepção, interpretação e análise dos dados. Um pesquisador de uma cultura individualista estudando uma sociedade coletivista pode interpretar a forte interdependência entre os membros da família como falta de autonomia individual, em vez de uma expressão de coesão e apoio social valorizada naquela cultura. O raciocínio crítico, o agir comunicativo e a reflexividade, bem como o exercício básico de se informar sobre o Outro remediam a esse viés.
Viés de correspondência (erro fundamental de atribuição): É a tendência de superestimar o impacto de fatores disposicionais ou de personalidade (internos) para explicar o comportamento de outras pessoas e, ao mesmo tempo, subestimar o papel de fatores situacionais (externos). Ao analisar o próprio comportamento ou o de seu grupo, a tendência pode se inverter. Se um motorista nos corta no trânsito, tendemos a pensar “que pessoa egoísta e imprudente!” (atribuição interna). Se nós mesmos cortamos alguém, justificamos com “estou atrasado para uma emergência” ou “o outro carro freou de repente” (atribuição externa). Informantes e pesquisadores de fenômenos políticos tendem a atribuir desonestidade ou inépcia aos oponentes (causas internas), enquanto atribuem fatores limitadores externos para a (in)efetividade de seu lado preferido.
Viés da autoconveniência: É a tendência de atribuir sucessos a fatores internos (habilidade, esforço) e fracassos a fatores externos (azar, dificuldade da tarefa, culpa de outros), preservando a autoestima. É o outro lado do viés de correspondência ao superestimar as motivações e traços internos positivos de si e minimizar esses mesmos fatores quando se pondera sobre os outros em situações de sucesso. É se achar a última bolacha do pacote e todos os demais errados. Um atleta que vence uma competição atribui a vitória ao seu talento e dedicação. Se perde, atribui a derrota a uma arbitragem ruim, dificuldades atípicas para o oponente naquele dia ou a condições climáticas desfavoráveis.
Viés de prevalência: Ocorre quando a dificuldade em determinar a priori quais categorias ou características são mais relevantes para uma pesquisa leva o pesquisador a concentrar-se em uma população específica ou em certos aspectos, excluindo inadvertidamente outros grupos ou variáveis que poderiam ser cruciais. Ao investigar a satisfação com serviços públicos de saúde, focar apenas nos usuários que frequentam grandes hospitais pode excluir a perspectiva de quem utiliza apenas postos de saúde básicos ou de quem não utiliza o sistema por falta de acesso ou desconfiança. Um estudo dos efeitos de um remédio para uma doença, mesmo com grupo de controle, pode excluir os curados (que não precisam mais do remédio), os assintomáticos (que não sabem que têm a doença) ou os mortos (que não podem mais ser estudados, mas são um desfecho importante). Outro exemplo: ao investigar a satisfação com serviços públicos de saúde, focar apenas nos usuários que frequentam grandes hospitais pode excluir a perspectiva de quem utiliza apenas postos de saúde básicos ou de quem não utiliza o sistema por falta de acesso ou desconfiança.
Viés de exposição: é o inverso do viés de prevalência. No problema da indução, o uso exclusivo de categorias a posteriori pode levar às falsas analogias, associação, correlação ou causalidade. É comum a superinterpretação de dados. Outro problema é a inclusão de populações com perfis diferentes em um estudo comparativo. Por exemplo, em um estudo controlado, ao invés de comparar pessoas expostas a uma doença tropical, comparar residentes da Groenlândia e da Amazônia. Outro exemplo é a correlação espúria, ou seja observar que cidades com maior número de igrejas também têm maior número de bares e concluir que um causa o outro, quando na verdade uma terceira variável (tamanho da população da cidade) influencia ambos.
Viés de sobrevivência: É considerar apenas os dados, indivíduos ou casos que “sobreviveram” a um determinado processo seletivo, ignorando aqueles que foram eliminados ou não tiveram sucesso. Está relacionado com os dois vieses anteriores. É um problema comum na tendência de somente resultados positivos ou significativos serem publicados (viés de publicação). Estudar apenas as biografias de empreendedores bilionários para identificar “segredos do sucesso”, ignorando a maioria dos que tentaram e falharam, mesmo seguindo caminhos semelhantes. As causas do fracasso, que poderiam ser igualmente instrutivas, são negligenciadas.
Viés de conformidade coletiva: fenômeno observado por Solomon Asch na psicologia (influência da maioria sobre o julgamento individual) e por Stanley Fish em estudos literários (comunidades interpretativas). A comunidade (acadêmica, social, cultural) em que estamos inseridos afeta nossa cognição, percepção e julgamento. Ainda, tendemos a valorizar mais o conhecimento e os sujeitos de nossa própria comunidade (in-group bias). Um pesquisador júnior pode evitar apresentar dados que contradigam uma teoria dominante em seu departamento, temendo ser visto como problemático ou incompetente, mesmo que seus achados sejam robustos, alinhando-se assim ao consenso do grupo.
Viés de atitude: O pessimismo ou o otimismo, tanto dos informantes quanto dos pesquisadores, podem afetar a forma como os dados são fornecidos, percebidos, interpretados e relatados (“ver o copo meio vazio ou meio cheio”). Caso o estudo não tenha enfoque justamente na percepção de valores, sentimentos e atitudes, essa é uma tendenciosidade a ser discutida. A axiologia (sistema de valores) dos informantes e do investigado afeta os resultados. Em uma pesquisa sobre o futuro da economia local, um empresário que recentemente teve perdas financeiras (pessimista) pode fornecer projeções muito mais negativas do que um empresário que acabou de fechar um grande contrato (otimista), mesmo que ambos tenham acesso a informações macroeconômicas semelhantes. A revisão por pares, o debate das descobertas preliminares e a reflexividade mitigam esse viés.
Viés de temporalidade: As circunstâncias contextuais mudam com o tempo, e essas mudanças podem afetar os resultados da pesquisa, mesmo que o perfil dos informantes ou a questão de pesquisa se mantenham aparentemente constantes. Esse é um dilema central para o historiador. Um estudo sobre valores juvenis realizado na década de 1980 pode não ser diretamente comparável a um estudo com a mesma faixa etária hoje, devido a mudanças sociais, tecnológicas e culturais profundas (internet, redes sociais, globalização). Um mesmo rol de informantes poderia dar respostas radicalmente diferentes no início da pandemia e depois da fase de vacinação massiva.
Viés de progresso e declinío: Tendência de fazer juízos de valor sobre fenômenos sociais ou históricos conforme um parâmetro amplo de melhoria ou piora contínua, muitas vezes implícito. A fé em que as coisas estão sempre melhorando (progresso linear) ou piorando desde um “ponto X” (declínio), ou a idealização de uma “era de ouro” passada, acarreta na seleção e expressão de dados e em sua interpretação. Um pesquisador analisando a educação contemporânea pode interpretá-la como estando em constante “declínio” em relação a um passado idealizado de ” ensino de qualidade”, focando apenas em problemas atuais e desconsiderando avanços em inclusão, acesso ou novas metodologias.
Viés da equivocação: é confundir termos e conceitos, quer dos informantes, quer dos teóricos, quer de si mesmo. Tipicamente segue essa lógica: “o bispo anda somente nas diagonais. O papa é um bispo. Portanto, o papa Francisco só anda na diagonal”. Um domínio bem robusto de semântica ajuda muito, especialmente para pesquisadores metodologias naturalísticas não acostumados com nuances conceituais. Numa pesquisa sobre “democracia”, se o pesquisador entende o termo primariamente como “processos eleitorais livres” e o informante o entende como “justiça social e igualdade de oportunidades”, as respostas podem ser mal interpretadas, levando a conclusões baseadas em diferentes concepções do objeto central.
Viés de confusão: Resulta de um raciocínio analógico errôneo ou de categorias conceituais mal aplicadas. São comuns as confusões entre mapa e território, (o modelo e a realidade), processo e produto, agência com estrutura (capacidade de ação individual) e estrutura (condicionantes sociais), ou a clássica “confundir alhos com bugalhos” (falsa analogia) Atribuir o desemprego de um indivíduo unicamente à sua “falta de esforço” (agência), ignorando fatores estruturais como crises econômicas, falta de oportunidades na região ou discriminação no mercado de trabalho (estrutura). Triangulações téoricas e metodológicas são bons amigos para superar esse viés.
Viés de incompletude analítica e ilogicidade: São problemas no processamento lógico da informação e na argumentação. Esse viés inclui análises superficiais ou incompletas, conclusões que não decorrem logicamente das premissas apresentadas (non sequiturs), raciocínio tautológico (afirmar o óbvio de forma circular) e muitas outras falácias lógicas formais. Examine esses exemplos. Este programa de intervenção social é eficaz porque produz os resultados positivos para os quais foi desenhado. (A afirmação não explica como ou por que é eficaz, apenas reafirma sua suposta eficácia). Este programa de intervenção social é eficaz porque produz os resultados positivos para os quais foi desenhado.” (A afirmação não explica como ou por que é eficaz, apenas reafirma sua suposta eficácia).
Viés de romantização ou efeito halo: A tendência de ver aquilo que é focado na pesquisa (uma pessoa, grupo, teoria, fenômeno) com uma carga emocional, geralmente positiva, que influencia a objetividade. O “efeito halo” ocorre quando uma característica positiva de algo ou alguém influencia a percepção de outras características não relacionadas. Um pesquisador entrevistando um cientista renomado e carismático pode inconscientemente dar mais crédito às suas opiniões, mesmo sobre temas fora de sua especialidade, devido à admiração que sente pela sua figura. Reflexividade e distanciamento são técnicas que remediam tal viés. Estudos intensivos com pessoas com comportamentos socialmente reprováveis podem gerar simpatias que pesarão na balança. Ser empático e humano é diferente da advocacia. Um investigador pode ficar do lado do criminoso e negligenciar a vítima.
Viés da aquiescência ou da amabilidade: Os informantes tendem a concordar com as afirmações ou a comunicar aquilo que imaginam que o investigador queira ouvir, seja para agradar, evitar conflito, ou por respeito à autoridade percebida do pesquisador. É, de certa forma, o “viés da romantização” vindo do outro lado da pesquisa. Em entrevistas sobre um novo produto da empresa onde trabalham, funcionários podem dar feedback predominantemente positivo se o entrevistador for um superior hierárquico ou alguém ligado à diretoria, temendo represálias ou querendo demonstrar lealdade. Anotar o contexto e impressões não verbais são importantes.
Viés do questionamento ou petição de princípio na pergunta: Formular perguntas de maneira que já embutem a resposta desejada, direcionam o informante ou pressupõem algo que ainda não foi estabelecido. Perguntar a um cidadão: “Dado o fracasso da política econômica atual, você não acha que precisamos de uma mudança radical?”, em vez de perguntar de forma neutra: “Qual sua avaliação sobre a política econômica atual e que rumos você sugere?”. É o detetive antiético e incompetente que interroga o suspeito sem evidências de autoria: “Por que você fez isso?”. Testar questionários quando possível e fazer perguntas secundárias reformulando a fraseologia em entrevistas abertas permitem que o ponto a ser investigado tenha maior representatividade.
Viés de submestimar o informante (ou, inversamente, superestimar a própria compreensão): Ocorre quando o pesquisador parte do pressuposto de que o informante não tem conhecimento técnico ou profundo sobre o tema, ou, por outro lado, quando o informante possui um conhecimento técnico maior e mais específico que o próprio pesquisador, o que pode invalidar aspectos do desenho da pesquisa se não for reconhecido. Um antropólogo estudando técnicas agrícolas tradicionais pode, inicialmente, subestimar a complexidade e a base científica (empírica) do conhecimento dos agricultores locais, formulando perguntas simplistas ou interpretando suas práticas de forma superficial, perdendo nuances importantes. A reflexividade e atitude de relação simétrica e colaborativa entre pesquisador e informante são os ideais para lidar com esse viés.
Viés de sequenciação: A ordem em que as perguntas são feitas em um questionário ou entrevista, ou a ordem em que os dados são analisados, pode influenciar as respostas e os resultados. Se, em uma pesquisa de satisfação, perguntas sobre problemas e dificuldades com um serviço precederem as perguntas sobre os pontos positivos, a avaliação geral do serviço pode ser mais negativa do que se a ordem fosse invertida, pois as primeiras perguntas ativam memórias e sentimentos negativos. Variação randomizada em questionários, mudanças nas ordens de entrevistas semi-estruturadas, bem como diferentes técnicas de análise auxiliam em calibrar essa tendenciosidade.
Viés da fadiga ou da saturação: Tanto o informante quanto o pesquisador podem cansar-se física ou mentalmente durante o processo de coleta ou análise de dados, ou estar em um momento pessoal indisposto, o que pode comprometer a qualidade das informações ou da interpretação. Um pesquisador, após analisar dezenas de entrevistas transcritas sobre um tema, pode começar a identificar padrões de forma menos atenta nas últimas análises devido ao cansaço, ou tender a encaixar os dados em categorias já estabelecidas sem a devida reflexão crítica (saturação cognitiva). Um equilíbrio entre atividades e mesmo vida pessoal e trabalho ajudam. Poupar o tempo do entrevistado também ajuda.
Viés da heurística da disponibilidade: A tendência que temos de superestimar a probabilidade de eventos ou a importância de informações que são mais facilmente lembradas ou que vêm à mente com mais rapidez, muitas vezes por serem recentes, vívidas ou emocionalmente carregadas. Ao analisar os riscos de diferentes tipos de investimento, um pesquisador pode dar um peso desproporcional a um tipo de crise financeira que ocorreu recentemente e teve grande cobertura da mídia, mesmo que outros riscos, historicamente mais frequentes mas menos “disponíveis” na memória, sejam mais relevantes a longo prazo.
Viés do datismo: : A crença de que ter mais dados levará automaticamente a uma melhor compreensão ou a decisões mais acertadas, podendo levar à coleta excessiva e não direcionada de informações. Inclui também a falácia de exigir um rigor excessivo (como experimentos controlados e randomizados) em contextos onde isso é eticamente questionável, metodologicamente inviável ou desnecessário para responder à questão de pesquisa. O mini-ensaio de Borges “Sobre o rigor da ciência” reflete isso. Ocorre nas falácias de mover as traves ou demandar um rigor excessivo quando eticamente ou metologicamente inviáveis, por exemplo, exigir experimentos com grupo de controle para uma doença letal quando se há remédios com potenciais de cura disponíveis. É muito comum em empresas que coletam uma quantidade massiva de dados sobre seus clientes, mas sem uma estratégia clara de análise ou perguntas de pesquisa bem definidas, resultando em relatórios cheios de gráficos e números que não geram insights acionáveis ou compreensão real do comportamento do consumidor. Um bom planejamento e uma análise sensata de pesquisa auxiliam nisso.
Viés da clivagem ou da falsa dicotomia: reduzir um fenômeno complexo a duas alternativas opostas e autoexcludentes. Esse “oito ou oitenta” é bem mais comum do que muitos pesquisadores gostam de admitir. O “preto ou branco” leva a ignorar nuances, continuidades, ou terceiras vias. Devido sua dimensão cognitiva, uma triangulação teórica repara muito disso. Numa análise sobre o impacto da tecnologia na educação, apresentar as opções como sendo apenas “tecnologia é a salvação da educação” versus “tecnologia destrói a capacidade de aprendizado”, desconsiderando os múltiplos usos, contextos e abordagens pedagógicas que podem levar a resultados diversos.
Viés da ancoragem: É a tendência de dar um peso desproporcional à primeira informação recebida (a “âncora”) ao tomar decisões ou fazer julgamentos, utilizando essa informação inicial como ponto de referência para avaliar todas as informações subsequentes. Esse viés dificulta a aceitar novas informações que contradigam ou refutem a primeira informação. Uma variação é o apego à autoridade, quer de acadêmicos renomados, quer do consenso científico, quer da escola de pensamento na qual se foi treinado. Um pesquisador lê um primeiro artigo que apresenta uma teoria de forma muito convincente. Mesmo que encontre outros artigos com críticas robustas ou teorias alternativas, ele pode ter dificuldade em se desvencilhar da primeira impressão e continuar a interpretar todos os novos dados à luz daquela “âncora” inicial. Uma abertura crítica, honesta e cética é bem-vida. Um raciocínio e inferência bayesiana contrabalanceia isso.
Viés do focalismo ou efeito do foco: é concentrar em uma parte de um todo. Como não conseguimos processar muita informação, tendemos a concentrar em um subconjunto que pode ser representativo ou não. Muitos confudem a amostra com microcosmo. É tentar imaginar o quebra-cabeça somente por uma peça. Ao planejar uma mudança de cidade para um local com clima mais quente, uma pessoa pode focar excessivamente no benefício do “bom tempo” (a praia, atividades ao ar livre), subestimando outros fatores importantes como custo de vida, oportunidades de emprego, qualidade dos serviços públicos ou distância da família.
Viés de falsos parâmetros: Ocorre quando, a partir de um conjunto de dados, emergem diversos padrões ou correlações aparentes (como o Teorema de Ramsey sugere que pode acontecer em sistemas suficientemente grandes e desordenados), mas nem todos esses “parâmetros” encontrados são significativos, válidos ou causalmente relevantes para o fenômeno estudado. Por isso, qualquer tese robusta requer triangulações e falseabilidade.Um analista de marketing encontra em seus dados que clientes que compram mais produtos orgânicos também tendem a possuir carros de uma determinada cor. Sem uma teoria plausível que conecte esses dois fatos e sem testar outras variáveis, esse “parâmetro” pode ser uma coincidência espúria, e basear uma campanha de marketing nisso seria ineficaz.
Viés de recorte: conhecido como cherry picking ou dicta probantia, é o uso de dados selecionados, intencionalmente ou não, em um suporte a uma tese. Pode ser por uma combinação dos vieses acima. É comum em pesquisa bibliográfica. Para remediar é preciso de uma leitura crítica e sistemática além de uma mera citação superficial. Um político, em um debate sobre seu mandato, apresenta apenas os indicadores socioeconômicos que melhoraram durante sua gestão, omitindo aqueles que pioraram ou estagnaram, para criar uma imagem mais favorável de seu governo.
Viés de Desejabilidade Social (Social Desirability Bias): Os participantes da pesquisa tendem a responder ou se comportar de maneiras que acreditam ser socialmente aceitáveis ou vistas favoravelmente por outros, em vez de expressar suas opiniões ou comportamentos verdadeiros. Isso é especialmente comum em perguntas sobre temas sensíveis (comportamento sexual, uso de drogas, preconceitos, etc.). Embora relacionado ao “viés da aquiescência” (querer agradar o pesquisador), o viés de desejabilidade social foca mais em se conformar com normas sociais percebidas, independentemente da presença ou das expectativas diretas do pesquisador.
Viés do Experimentador ou de Expectativa do Pesquisador: As expectativas, crenças ou hipóteses do pesquisador podem influenciar sutil e inconscientemente o comportamento dos participantes ou a interpretação dos dados, de forma a confirmar essas expectativas. É um tipo específico de viés de confirmação, mas com ênfase na influência direta (muitas vezes não intencional) do pesquisador sobre o estudo em andamento. O efeito Pigmaleão (ou Rosenthal) é um exemplo clássico.
Viés do Patrocinador ou de Financiamento: Refere-se à tendência de os resultados de uma pesquisa apoiarem os interesses do seu patrocinador financeiro. Isso pode ocorrer por diversos mecanismos, desde a seleção de questões de pesquisa que favoreçam certos resultados até a pressão para publicar ou omitir certos achados. É crucial para a avaliação crítica da pesquisa, especialmente em áreas onde há grandes interesses comerciais ou políticos (farmacêutica, indústria de alimentos, políticas públicas).
Falácia Ecológica: Ocorre quando se fazem inferências sobre as características de indivíduos com base em dados agregados de um grupo ao qual esses indivíduos pertencem. O que é verdade para o grupo como um todo não é necessariamente verdade para cada indivíduo dentro dele. Se um estudo mostra que bairros com maior renda média têm taxas de criminalidade mais baixas, comete-se uma falácia ecológica ao concluir que indivíduos ricos nesses bairros são menos propensos a cometer crimes do que indivíduos pobres em bairros de baixa renda (a relação pode ser mais complexa e envolver outros fatores).
Viés de Regressão à Média:Um fenômeno estatístico onde, se uma variável apresenta um valor extremo em uma primeira medição, ela tenderá a apresentar um valor mais próximo da média em medições subsequentes. Isso pode ser erroneamente interpretado como o efeito de uma intervenção. Um grupo de alunos com notas excepcionalmente baixas em um teste (extremo inferior) recebe um programa de reforço. Em um teste subsequente, suas notas melhoram. Parte dessa melhora pode ser devida à regressão à média, e não apenas ao programa.
Viés do Presentismo: Uma forma de anacronismo. Especialmente relevante em história e humanidades, ocorre quando se interpreta eventos, figuras ou ideias do passado utilizando as lentes, valores, conhecimentos e perspectivas do presente, levando a anacronismos e incompreensões do contexto original. Julgar as ações de uma figura histórica do século XVII com base nos padrões atuais de direitos humanos ou democracia, sem considerar as normas e o entendimento da época.
Viés do Teto ou do Chão (Ceiling or Floor Effects): Ocorre quando um instrumento de medida não tem sensibilidade suficiente para registrar variações nos extremos da escala. No “efeito teto”, muitos participantes atingem a pontuação máxima, impedindo de observar melhorias. No “efeito chão”, muitos atingem a pontuação mínima, impedindo de observar pioras ou discriminar entre os níveis mais baixos. Aplicar um teste de matemática muito fácil para avaliar o progresso de alunos já avançados (efeito teto – todos tiram nota máxima, não se vê quem progrediu mais) ou um teste muito difícil para alunos com dificuldades (efeito chão – todos tiram nota zero, não se vê quem sabe um pouco mais).
Viés da Novidade (Novelty Effect): Os participantes de um estudo podem apresentar uma melhora inicial no desempenho ou maior interesse em uma intervenção simplesmente porque ela é nova e diferente, e não necessariamente devido à eficácia intrínseca da intervenção. Esse efeito tende a diminuir com o tempo. Alunos demonstram grande engajamento com uma nova tecnologia educacional nas primeiras semanas, mas o interesse pode diminuir à medida que a novidade passa.

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