Isso não é um gif

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E isso não é Magritte.

Peixe-boi não é peixe nem é boi. A confusão entre o objeto e sua representação — quer verbal, pictórica ou conceitual — é chamado de falácia referencial pelo semiótico Umberto Eco (2003) ou, em sua variante em diversas ciências sociais e humanidades, reificação.

Em termos simples, na falácia referencial há a crença que em um signo o significado é determinado pelo conjunto de referentes ou reside em um referente. Por vezes, o referente é interpretado como um objeto “real” no mundo (daí a postura dos realistas na questão dos universais). Contudo, nem tudo em sistema semiótico possui referentes, como o caso de preposições ou conjunção (quem já viu um “e” ou a ladainha “a, ante, até, após, com, contra, de, desde” passeando no parquinho da escola?). Ou seja, um signo pode existir sem representar objetos ou ideias podem ser válidas como conceitos sem referentes materiais. Essa confusão entre a conotação e denotação é típica na relação metonímia e metáfora.

Enquanto da falácia referencial pode-se dizer que é uma superinterpretação do modelo semiótico de Peirce em detrimento ao modelo de Saussure, o polímata polaco-americano Alfred Korzybski (1879 – 1950) analisou a relação mapa-território. Para Korzybski (1931) mapa não é território, mas se o mapa representa o objeto com acuracidade, então possui estrutura similar. Dessa similaridade estrutural, um mapa pode ser validado como acurado ou não pela sua utilidade em representar o mundo.

Pensem em vários mapas representando um mesmo território: pode ser uma carta política contendo as divisões socialmente convencionadas, pode ser um mapa físico com altimetria e corpos d’água, pode ser um mapa epidemológico traçando a densidade de prevalência de uma determinada doença em diferentes regiões populacionais. São todos representações potencialmente acuradas do mesmo território, mas todos são diferentes entre si. No entanto, entanto nem todas as representações são igualmente válidas: um livro de astronomia representa melhor o sistema solar que um tratado de astrologia.

Parece bobo, mas metaforicamente falando há gente que pensa que no mundo mapeado é real. Desse modo, haveria hachuras, linhas vermelhas, riscos azuis e verdes cobrindo árvores, calçadas, telhados e lagos. Analogicamente, seria argumentar que a Terra é plana porque se chama planeta e não globeta”.

Os construtos, teorias, conceitos, paradigmas são por vezes interpretados como fenômenos em si. Nas ciências sociais e humanidades esse equívoco é a reificação. Um objeto frequentemente reificado é o conceito de cultura. Da boca de políticos nacional-populistas saem diatribes xenófobos contra os estrangeiros como sendo uma ameaça à “cultura nacional” ou “cultura romano-cristã-ocidental”. O problema dessa acepção é que considera a cultura como um conjunto de elementos fixos, com limites discretos e em existência somente em referência a um objeto: a nação ou a civilização. Contrário dessa apropriação política, o termo cultura em seu sentido antropológico é complexo, sendo mais um construto explicativo de um processo agregado que um objeto tangível.

A consciência da distinção entre reificação e o referente é importante. O conhecimento construído pelas ciências sociais e as humanidades se difere das teorias das conspirações nisso. Nas humanidades e nas ciências sociais o conhecimento válido é dotado de coerência lógica, de distinção entre correlação e causa, além de avaliação crítica e sistemática de todas as evidências disponíveis em oposição à escolha conveniente de fontes (“cherry-picking”). Além desses traços, o manuseio apropriado de construtos distingue o conhecimento humanístico e científico de idealizações conspiratórias.

SAIBA MAIS

ECO, Umberto. Tratado geral de semiótica. Tradução de Antônio de Pádua Danesi e Gilson Cesar Cardoso de Souza. São Paulo: Perspectiva, 2003.

KORZYBSKI, Alfred. A non-Aristotelian system and its necessity for rigour in mathematics and physics. Apresentação oral dada na reunião da American Association for the Advancement of Science em New Orleans, Louisiana em 28 dez. 1931.

A falácia genética ou etimológica

Verbete: Reificação @ blogdosociofilo.com

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