Lendo metáforas como metáforas

Há um erro de leitura que pode acontecer tanto aos bons leitores quanto aos maus. Alguns dos primeiros cometem-no, enquanto alguns dos segundos, não.

Basicamente, supõe-se uma confusão entre a vida e a arte;  inclusive a incapacidade de reconhecer a existência da arte. Sua manifestação mais rude ocorre ridicularizada no velho conto do rústico que vai ao teatro e dispara contra o “malvado”.

Também podemos vê-la no tipo mais inferior de leitor, a quem interessa unicamente a literatura sensacionalista, mas somente aceitando-a se apresentada como “notícia”. Em um nível mais alto, consiste em acreditar que todos os livros bons os são por fundamentalmente proporcionarem conhecimentos, nos ensinar “verdades” sobre  a “vida”. Este tipo de leitor aprecia todos os novelistas e os dramaturgos como se fossem a função deles essencialmente idêntica àquela atribuída aos teólogos e aos filósofos. Assim, não presta atenção às qualidades criativas de suas obras. Como mestres os reverencia, porém é incapaz de valorizá-los como artistas.  C.S. Lewis

Da mesma maneira que C.S.Lewis digressa sobre os leitores que não separam a ficção da realidade, há pessoas que — pelas dificuldades de distinguir entre linguagem literal e figurada — adotam um dogmatismo obscuro como realidade. Essa confusão é um passo para negar a veracidade de coisas complexas. Para essas pessoas, o “creio porque é absurdo” passa a ser substituído pelo “não entendo, portanto não creio” ou pelo “creio ser assim, portanto todos os fatos estão errados”.

São esses os que interpretam mitos como leis da física e da moral. São os mesmos que por não entenderem o que seria a transmissão a rádio não hesitaram em queimar o laboratório do Padre Landell de Moura. Pobres almas que em vão folheiam páginas de ficção atrás de pistas sobre a vida privada do autor –- quiçá algum deslize moral cabeludo. Teria Machado de Assis desconfiado da fidelidade de Carolina Novaes como fazia Bentinho a Capitu? Teria Dostoievski fantasias de matar uma velha agiota? Esconderia atrás das linhas de Ulysses um dia da vida de Joyce? Será difícil conceber que um escritor possa ser simplesmente criativo?

Diria que muito dessas falhas hermenêuticas vêm das dificuldades de compreender metáforas. Como Sheldon Cooper de The Big Bang Theory que é humanamente incapaz de entender sarcasmo, o discurso figurado pode não ser percebido por algumas pessoas. Assim, surgem as más interpretações que não consideram a polissemia nem o contexto ou as transformações semânticas.

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Usando uma metáfora, a realidade pode ser comparada a um território e a metáfora a um mapal. Contudo há muitas formas equivocadas de se usar um mapa. Uma delas é a confusão entre mapa e território, que ocorre de muitas formas:

  • Reificação: confundir conceitos com a realidade. Só pelo fato de a ciência Economia reduzir o rol de fenômenos para ser possível estudá-los não significa que o fenômeno economia não compreenda outros aspectos: religião, política,  direito, artes, dentre outros domínios. Uma mera compra de uma camiseta em uma butique religiosa resume a interação de todos esses domínios. O mesmo exmplo vale para esses outros domínios, ou seja, são distintos as disciplinas de seus fenômenos.
  • Personificação: confudir agência com estrutura. Atribuir personalidade ou ação deliberada a fenômenos, desde figuras nas núvens até culpar uma cabal misteriosaspor todos os grandes eventos da história. Uma fila no metrô é um fenômeno social realizado por seres humanos racionais e que deliberadamente foram à estação. Contudo, o comportamento de fila é em maior parte arraigado no hábito (uma estrutura), consequentemente sendo a fila um fenômeno estrutural emergente. Entretanto, há paranoicos (metaforicamente falando) que acham que alguém em algum local e momento controla todas as filas.
  • Generalização: é acreditar que só um mapa represente toda a realidade ou que exclusivamente um mapa seja válido. Ou ainda, que há uma coincidência entre mapa e território. Mesmo que se entendam metáforas, há ainda quem comete o ato falho de não perceber a ficção. O crítico literário Umberto Eco relata em seu Seis passeios pelo bosque da ficção um caso que um amigo seu escreveu um conto intitulado “Como matei Umberto Eco” e publicou em uma coluna literária no jornal. No dia seguinte, vieram o garçon, o reitor perguntar-lhe se estava bem. Confundiram a realidade com a ficção.

As metáforas são importantes para compreender algo desconhecido ou não tão familiar com informações de alguma coisa mais próximas, mais tangíveis e compreensíveis. Por isso, o raciocínio analógico (por analogias, quer  por metáforas ou por metonímia) devem receber igual rigor que o raciocínio lógico. Isso deve ter em mente que uma analogia pressupõe não uma correspondência total, mas que há margens para diferenças entre as coisas comparadas.

Entretanto, o problema não é a incapacidade de compreender símbolos complexos. O ruim é decretar aquilo que não se sabe como a irrefutável verdade.

SAIBA MAIS

LEWIS, Clive Staples. An experiment in criticism. Cambridge University Press, 2012.

LAKOFF, George; Mark JOHNSON. Metáforas da vida cotidiana. Tradução de Mara Sofia Zanotto. Campinas,São Paulo: Mercado das Letras, Educ, 1980.

THIBODEAU, Paul H.; BORODITSKY, Lera. “Metaphors we think with: The role of metaphor in reasoning.” PloS one 6.2 (2011). https://doi.org/10.1371/journal.pone.0016782

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