Livros e conselhos sobre leituras

 A leitura faz um homem completo; a discussão um homem pronto; a escrita um homem exato. Portanto, se alguém escreve pouco;  precisa ter uma  memória boa, se alguém discute pouco, precisa ter uma perspicácia atual; se alguém lê pouco, precisa ter muita astúcia para fingir saber o que não sabe. Francis Bacon, Sobre os estudos.

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Infelizmente, o ensino de técnicas de leitura termina nos primeiros anos das séries primárias, logo após o estudante aprender a decodificar palavras e inferir sentidos nas frases. Todavia, leitura é uma atividade complexa. Tanto que há disciplinas, como a hermenêutica, dedicada inteiramente à leitura de textos especiais. Em decorrência disso, há leituras equivocadas de textos cruciais, principalmente textos não lineares e cheios de alusões.

Mesmo obras abertas possuem seus limites interpretativos. Uma das maiores vítimas de leituras impossíveis é Bíblia, às vezes lida como um código “de faça ou não faça”, às vezes lida como um tratado histórico ou biológico.

Como uma introdução à formação intelectual, esse conjunto de livros curtos contém dicas valiosas para o bom aproveitamento da leitura. Reúnem desde técnicas de leituras, anedotas de outros leitores, listas com sugestão de quais obras percorrer, como compilar notas até como escrever uma tese.

Uma das mais populares obras de como se ler é o Como ler livros. Os norte-americanos Mortimer J. Adler (1902-2001) e Charles Van Doren (n.1926) dedicaram suas vidas à propagação da leitura do cânone ocidental. Adler, editor da Encyclopædia Britannica, foi o célebre organizador da coleção  Great Books of the Western World. Escreveu How to Read a Book: The Art of Getting a Liberal Education [Como ler um livro: a arte de adquirir uma educação liberal] (1940) que seria reescrito em conjunto com Van Doren, traduzia ao português como A arte de Ler (Rio de Janeiro: Editora Agir, 1974). O método proposto por Adler e Van Doren consiste em leituras em várias fases, começando com uma inspeção rápida e geral do livro, uma leitura analítica com fichamentos e sintópica, cotejando a obra com outra de mesmo assunto. Um importante conselho é de não iniciar a crítica (concordar ou discordar dos argumentos) até que realmente tenha lido, anotado e, sobretudo, entendido a ideia do autor.

Além desses autores americanos, três autores franceses incrementaram a tradição de cultivo intelectual. Antonin-Gilbert (ou Antonin-Dalmace) Sertillanges (1863 –1948), um dominicano filósofo neotomista e especializado em Bergson, estava convicto de que a vida intelectual integrava-se ao corpo. Tal integração refletia no trabalho, por isso Sertillanges em seu breve livro La vie intellectuelle: son esprit, ses conditions [A vida intelectual: seu espírito e suas condições] (1921) aconselha, com tons de reflexão teológica, a busca pessoal pela verdade. Depois dessas reflexões, Sertillanges dá várias orientações desde gerir o tempo até a elaborar notas de leitura.

Outro autor francês, Jean Guitton (1901-1999) publicou Le Travail intellectuel: Conseils à ceux qui étudient et à ceux qui écrivent [O trabalho intelectual: conselhos àqueles que estudam e àqueles que escrevem] (1951) (em inglês  A Student’s Guide to Intellectual Work. South Bend, Indiana: University of Notre Dame: 1966 e em português O trabalho intelectual. Lisboa: Editorial Logos, 1969). Professor da Sorbonne e membro da Academia Francesa, Guitton providencia táticas de otimizar a leitura, estudos e a escrita. Tem bons macetes para organizar o pensamento, fazer fichamentos e melhorar a estilística.

O último autor francês que, com sarcasmo, o professor de literatura Pierre Bayard (n.1954) se apresenta como um charlatão, um enchedor de linguiças e um não leitor profissional. Em tempos de tsundoku[1], seu Comment parler des livres que l’on n’a pas lus? [Como falar dos livros que não lemos] (2007) classifica os livros em obras que desconheço, obras que meramente folheei, livros que nunca ouvi a respeito, livros que lera mas esqueci e livros que nunca abri. O humor cínico esconde uma genuína apreciação pela leitura e o desafio de sermos mais abertos (e menos pedantes) com os livros.

Uma vez já discorrido sobre a leitura, passemos à escrita. Umberto Eco com seu Come si fa una tesi di laurea [Como se faz uma tese em Ciências Humanas. São Paulo: Presença, 2007] (1977) ensina de modo irreverente como escolher um tópico, redigir com um registro acadêmico aceitável e expor suas ideias. Ainda que as tecnologias se transformaram profundamente desde que o livro fora escrito, (por exemplo, utilizar máquina de escrever para fazer as notas), a obra continua atual.

Esses autores – editores, escritores, professores, filósofos – conheciam as técnicas de estudos e leitura mediante o contato com a prática intensiva. Embora não fossem fundados em conhecimentos oriundos das ciências da educação ou cognitivas, acumularam um conhecimento empírico apreciável que refletiram em outras áreas, prova da eficácia de suas dicas.

Alguns pontos de ponderação e para desfazer alguns preconceitos.

Houve tempos que achava só se deviam ler obras no original (ler Goethe com um dicionário ampliou meu vocabulário, mas não entendi bulhufas de Fausto até aceitar uma boa tradução). O exercício de tradução passa conceitos de uma cultura a outra. Apreciar os esforços do tradutor (quer enfocado na língua fonte ou no público alvo) é em si um exercício intelectual.

Outro preconceito pernóstico é a insistência de ler somente textos integrais. A menos que seja para uma completa exegese de uma obra ou pela apreciação estética de livro de capa a capa, não há porque recriminar em leituras de versões resumidas, os digests, paráfrases, resenhas e mesmo em quadrinhos. As formas resumidas são gêneros próprios. O já citado Umberto Eco recontou Os noivos de Alessandro Manzoni tão bem que estimula a ler o original. Por outro lado, a Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica de Isaac Newton foi tão mal escrita e prolixa que seus argumentos (dentre eles, as três leis de Newton) são mais bem representados em versões resumidas. Nesse sentido, Bacon no mesmo ensaio citado na epígrafe aconselha:

Alguns livros devem ser degustados, outros engolidos, só alguns poucos devem ser mastigados e digeridos. Ou seja, alguns livros devem ser lidos apenas em partes, outros para serem lidos mas não por mera curiosidade. Enquanto alguns poucos devem ser lidos integralmente e com diligência e atenção. Alguns livros também podem ser lidos por resumos e excertos feitos por outros. Mas isso seria apenas para os assuntos menos importantes  e do tipo mais barato de livros, pois os livros destilados são como as águas destiladas comuns, faltam substância.

 

[1] tsundoku, termo em japonês para o hábito de acumular livros que não se lê.

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