A A Rebelião das Massas, de José Ortega y Gasset (1883–1955), apresenta um diagnóstico da modernidade centrado na tensão entre individualidade e massificação. A pergunta sobre até que ponto o sujeito permanece singular ou se dissolve em um “nós” anônimo encontra, nessa obra, uma formulação rigorosa. O texto nasce de artigos publicados no jornal El Sol entre 1929 e 1930 e se consolida em livro no mesmo ano, em um contexto marcado pela crise das democracias liberais e pela ascensão de regimes totalitários.
Ortega parte de uma constatação empírica simples. As cidades se enchem. Espaços antes reservados a minorias passam a ser ocupados por multidões. Esse fato visível encobre uma transformação histórica mais enraizada. As massas alcançam protagonismo social pleno. O filósofo define esse fenômeno em termos psicológicos, não econômicos. O “homem-massa” pode surgir em qualquer classe. Trata-se de um indivíduo que não se exige, que se satisfaz com a própria mediania e que recusa padrões externos de excelência. Ele se reconhece como semelhante aos demais e transforma essa condição em princípio normativo.
A estrutura da obra organiza esse diagnóstico e suas consequências. Na primeira parte, Ortega descreve a psicologia do homem-massa. Ele observa a passagem da multidão do fundo da cena social para o centro. A expansão das “possibilidades vitais” amplia o horizonte do homem comum, que passa a viver em um mundo mais complexo do que sua capacidade de orientação. Surge uma atitude de autossuficiência que rejeita autoridade, tradição e disciplina. A distinção entre vida nobre e vida comum se define pela relação com a exigência. O homem nobre se submete a um padrão superior e entende essa submissão como forma de realização. O homem-massa vive na inércia e na autossatisfação.
Essa disposição se manifesta também na forma de intervenção pública. O homem-massa impõe opiniões sem mediação argumentativa e recorre à ação direta como mecanismo de afirmação. Há, nesse movimento, uma regressão histórica. Ao rejeitar o legado cultural acumulado, ele tende a reiniciar a vida social a partir de um ponto zero imaginário. O capítulo dedicado ao especialismo aprofunda essa crítica. O especialista domina um campo restrito, ignora o restante e supõe possuir autoridade universal. Forma-se, assim, uma figura tecnicamente competente e culturalmente limitada.
O problema político se torna evidente quando o filósofo analisa o papel do Estado. A expansão estatal aparece como instrumento de homogeneização. Ao absorver funções sociais, o Estado reduz a iniciativa individual e transforma a sociedade em uma massa passiva. Na segunda parte da obra, Ortega examina quem governa nesse cenário. A massa, incapaz de autogoverno, abre espaço para formas concentradas de poder. A resposta proposta não assume a forma de programa fechado. O autor defende uma política de integração e retoma o liberalismo como prática que garante às minorias espaço de atuação.
A base filosófica dessa análise fundamenta-se no que Ortega denomina razão vital. Rejeita tanto o primado do objeto quanto o primado do sujeito abstrato. A realidade fundamental é a vida concreta, entendida como relação entre indivíduo e circunstância. O ser humano se define como projeto em curso. A história se apresenta como ciência dessa vida em movimento. Nesse quadro, a superação da massificação depende da formação cultural. Educação e cultivo do espírito funcionam como meios de elevar o nível médio sem suprimir a pluralidade.
A recepção da obra revela tensões. Setores conservadores acolhem a crítica à massificação e à perda de excelência. Setores progressistas valorizam a análise do populismo e a defesa da autonomia individual. Ambos, em momentos distintos, apontam o risco de elitismo presente na ideia de uma aristocracia do espírito. A posição de Ortega se mantém ambígua. Ele sustenta princípios liberais, critica o reacionarismo e preserva distância de programas políticos rígidos.
A relação entre o eu e o coletivo continua a estruturar a experiência contemporânea. A obra propõe que a vida humana exige forma, disciplina e responsabilidade. Sem esses elementos, a expansão das massas tende a reduzir a complexidade cultural a um plano uniforme. Com eles, torna-se possível articular individualidade e convivência em um mesmo horizonte histórico.
SAIBA MAIS
Ortega y Gasset, José. Misión de la universidad. [1930] Obras, vol. 4. Madrid, 1957.
Atualizado em 15 de abril de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Ortega y Gasset: A rebelião das massas. Ensaios e Notas, 2010. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2010/05/11/ortega-y-gasset-a-rebeliao-das-massas/. Acesso em: 15 abr. 2026.

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