O problema da delimitação e o teste de Gardner

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“Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”, com esses termos, Riobaldo, o protagonista sábio de O Grande Sertão Veredas, expressava uma humildade hoje vital em meio ao dilúvio da informação. Raciocínio crítico, um ceticismo possibilista e familiaridade com as lacunas do desconhecido.

A facilidade de publicação das ideias hoje transformou antes uma figura excêntrica — o solitário e autoproclamado inventor/cientista/pensador — em algo convencional e, por vezes, com centenas de milhões de adeptos.

Essa figura ilustra o problema da delimitação em ciência. Há um espectro de boas práticas e métodos reconhecidos de se produzir o conhecimento científico. De um lado, o processo sistemático de informações com inferências logicamente articuladas sob a constante revisão por pares. De outro, o tal “gênio” isolado. No meio, um monte de gente com credenciais acadêmicas, éticas dúbias de pesquisa, congressos fakes e jornais predatórios. Nesse miolo, um monte de teoria válida ainda por provar circula junto de pseudociência.

Nessa zona nebulosa intermediária aparecem figuras simpáticas como o Linus Pauling. Ninguém duvida da capacidade científica de uma pessoa que ganhou mais de um prêmio Nobel e com mais de mil publicações. No entanto, seu treinamento em química e bioquímica não o qualifica para fazer campanha pela terapia megavitamínica — a ingestão cavalar de vitamina C praticamente servindo como panaceia. A máxima latina Sutor, ne supra crepidam (sapateiro, não vá além dos calçados) é um alerta perene. O fato de ser bem informado em bioquímica levou Pauling a fazer conclusões sem suporte pela fisiologia ou medicina, matérias nas quais ele era um amador.

Há sempre as reclamações de que novidades em ciência levam tempo para serem aceitas devido às resistências em abandonar velhos paradigmas. Esse válido alerta de Thomas Kuhn, porém, não se restringe às ideias que circulam no centro nebuloso de aceitação científica. Em mais de um século de pesquisa empírica de economia por psicólogos e antropólogos econômicos gerou um corpus de conhecimento cientificamente demonstrado ainda desdenhado como “heterodoxo” por muitos economistas neoclássicos. No entanto, em tempos de negacionismos quanto à mudança climática, eficácia da vacina, formato da Terra e muitos revisionismos históricos infundados, o problema da delimitação tornou-se questão de vida ou morte, como aponta o divulgador científico e neurocientista Steven Novella (2018).

O elenco de traços do cientista maluco (“cranks”) proposta por Martin Gardner (1914 – 2010), um divulgador de matemática e ciência, poderia ser atualizado para lidar com o problema da delimitação.

Gardner (1957) elaborou essa check-list do pseudocientista solitário:

  1. O pseudocientista/acadêmico se considera um gênio. Discurso como “na escola sabia mais que o professor” é típico.
  2. O pseudocientista/acadêmico considera outros pesquisadores como burros, desonestos ou ambos;
  3. O pseudocientista/acadêmico acredita que há uma campanha contra suas ideias comparável à perseguição contra Galileu ou Pasteur. Frequentemente essa campanha tem termos de teorias de conspiração ou entraves do “sistema” da Academia.
  4. Predileção por atacar figuras ou teorias científicas com amplo reconhecimento. Gardner apontou o quanto esses pseudocientistas atacavam Einstein, então o cientista mais popular no pós-guerra.
  5. Tendência de inventar um jargão próprio e desconhecido pelos não iniciados (e frequentemente, trocando só 6 por VI para soar mais sábio).

E um círculo vicioso contribui para a paranóia do pseudocientista. A privação relativa para compreender fenômenos fora da esfera de domínio de uma pessoa choca-se com a necessidade humana de desfecho. No entanto, falhas na comunicação popular da ciência e atitude esnobe na academia levam essas figuras — autoproclamados cientistas, filósofos, teólogos, terapeutas ou outro título fantasioso — às penumbras. E nessas margens ganham vozes, apoio, admiração e muitos acabam sendo influenciadores mais conhecidos que os próprios cientistas. Por fim, forma-se uma comunidade de apoio, na qual obviamente pessoas com credenciais acadêmicas eventualmente farão parte.

O Sokal affair — quando em 1996 o matemático Alan Sokal enviou para um jornal chinfrim um artigo totalmente absurdo, mas consoante com jargão e ideologia daquela comunidade — revela a institucionalização desse miolo nebuloso. Em comum, pessoas dentro de instituições acadêmicas passam a ser movidas mais por ideologias que por reflexão ou conhecimento científico. É preocupante quando isso ocorre em meios que deveriam fazer uma rigorosa crítica política, social, ideológica como nas ciências sociais e nas humanidades.

Nesse miolo nebuloso do contínuo ciência e pseudociência aplico o teste de Gardner com algumas modificações para essa dimensão coletiva.

  1. Os pseudocientistas/acadêmicos isolam-se do mundo por marcadores ideológicos que distinguem entre “nós e os outros” e não recebem bem a revisão crítica tanto interna ou externa à comunidade deles;
  2. Os pseudocientistas/acadêmicos ocupam-se em denunciar os entraves ideológicos do sistema, mas não produzem nada com uma abertura franca de suas situações dentro de sistemas e perspectivas, vieses, interesses e preferências de pensamento.
  3. Os pseudocientistas/acadêmicos veem o mundo somente sob a lente de sua teoria, “disciplina” ou ideologia. Interdisciplinaridade ou multidisciplinaridade são, nas melhores hipóteses, enfeites; normalmente, estorvos.
  4. Confiança exacerbada em sua teoria, sem considerar outras possibilidades ou modelos interpretativos alternativos.
  5. O círculo de autoelogio em que vivem os pseudocientistas/acadêmicos serve para dar um sentimento de legitimidade. A ideia é evitar interagir fora da bolha.
  6. Exigência de lealdade e fidelidade exclusivas. A ojeriza por métodos mistos, reinterpretação ou triangulação de dados por um conjunto de abordagens fora da “escola de pensamento” é um alerta.
  7. Responsabilização de qualquer intriga ou políticas nos laboratórios e nos departamentos à postura de “lobo solitário” do pseudocientista/acadêmico, vítima de constante perseguição pelas suas ideias de vanguarda.
  8. Os pseudocientistas/acadêmicos são movidos por suas conclusões, não por questões abertas.
  9. Inexistência de diálogos entre dimensões “puras” e “aplicadas” das produções dos pseudocientistas/acadêmicos. Ou seja, suas teorias não valem para o mundo real e suas soluções não têm fundamentos teóricos.
  10. Apesar de denunciar o poder do establishment, os pseudocientistas/acadêmicos constantemente disputam espaços públicos institucionais. A inserção de pseudoteorias anti-evolucionistas nas escolas públicas, a campanha para mostrar os “dois lados” na mídia de massa, as ganas de formar sociedades “científicas”, a busca de fomentos para soluções mirabolantes quando há alternativas reconhecidas, lançar produtos milagrosos no mercado com o aval do “Dr. Pardal” são exemplos dessa disputa.

Esse elenco de características serve para uma reflexão crítica. Se meu nicho, escola de pensamento ou campo constitui uma comunidade insular, alguma coisa está errada. Como essa lista não é exaustiva nem resultado de uma pesquisa sistemática, melhor ser os riobaldos da vida.

Não nego que haja gênios solitários e autodidatas. Ludwig Wittgenstein é um exemplo. No entanto, o conhecimento produzido por essas aves raras foi refinado, escrutinado e digerido pela própria academia. Já a pseudociência ou pseudofilosofia não tem progresso. Sequer há algo honesto como a autorrevisão crítica que Wittgenstein fez seu pensamento inicial. Não é zetético, mas uma repetição circular dos mesmos argumentos e “fatos” que não aprimoram seus modelos de pensamento, mas só reforçam a mesma coisa infundada.

Também não nego que haja figuras solitárias que façam contribuições válidas. Até mesmo o ponteiro de um relógio quebrado duas vezes ao dia indica a hora correta — mas seu mecanismo não funciona, lembremos. Um exemplo disso foi o brilhante Alfred Korzybski, um matemático e polímata cuja modelo de relação mapa-território corrige muitos erros teóricos, inclusive científicos. No entanto, sua teoria unificada de “Semântica Geral” classifica-se totalmente como pseudociência.

Um dos efeitos colaterais da pandemia foi conhecer a base científica de muitos profissionais. Deu para constatar que tem médicos que sabe menos que um estudante de ensino médio ao recomendar antibiótico para combater o vírus. Deu para compreender que a pseudociência é uma ameaça quando atinge dimensões públicas.

Em razão do exposto, um engajamento crítico com a população é necessário. O cientista ou acadêmico de humanidades deveria abrir blogs (como este!), perfis em redes sociais, redigir eles próprios releases para mídia e fazer um acompanhamento da recepção de suas ideias. Nesses diálogos há oportunidades de refinar a própria pesquisa e correção de ideias infundadas. Quem sabe a pseudociência passe a ser algo excêntrico e uma curiosidade inofensiva.

SAIBA MAIS

Gardner, Martin. Fads and Fallacies in the Name of Science. Courier Corporation, 1957.

Novella, Steven. The Skeptics’ Guide to the Universe: How to Know What’s Really Real in a World Increasingly Full of Fake. Grand Central Publishing, 2018.

2 respostas para ‘O problema da delimitação e o teste de Gardner

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