Na narrativa mítica popular a ciência moderna nasceu quando o Ocidente abandonou a magia, a astrologia e a alquimia, trocando o oráculo pelo laboratório e o símbolo pela equação. Essa narrativa, porém, é retrospectiva de uma ficção que simplifica um passado muito mais ambíguo. O problema de delimitação na ciência é antigo. Os mesmos homens que construíram os fundamentos da ciência moderna bebiam, sem contradição aparente, das mesmas fontes que hoje chamamos de ocultismo.
Para muitos dos pensadores que ajudaram a pavimentar esse caminho, entre os séculos XV e XVII, o cosmos era um um texto vivo, saturado de correspondências, influências e sinais. Figuras como Marsilio Ficino, Giovanni Pico della Mirandola, Paracelsus, Tycho Brahe, Giordano Bruno e Isaac Newton galgaram precisamente esse terreno intermediário. Coisa similar ocorreu no renascimento ibérico. Nesse domínio liminar a ciência e misticismo não eram opostos, mas linguagens complementares para descrever uma mesma realidade.
O que hoje chamamos de pseudociência era, para eles, parte de um projeto intelectual coerente: restaurar uma sabedoria antiga (a prisca sapientia) que unificaria filosofia, teologia e natureza.
Bibliotheca Philosophica Hermetica, situada na Embassy of the Free Mind em Amsterdam
O cosmos como organismo simbólico
No Renascimento florentino, Ficino traduziu Platão e os textos herméticos atribuídos a Hermes Trismegisto, convencido de que continham vestígios de uma teologia primordial anterior ao próprio Moisés. Em seu De vita libri tres (1489), obra que permaneceu continuamente impressa até meados do século XVII, ele propôs que a saúde dependia da harmonia entre o corpo humano e as influências celestes, dedicando o terceiro livro, De vita coelitus comparanda, inteiramente à magia astral e ao uso de talismãs, perfumes e músicas capazes de atrair as virtudes dos planetas. A astrologia, nesse contexto, era uma fisiologia cósmica. Para seus adeptos, os astros modulavam humores, temperamentos e disposições espirituais através do spiritus, vapor sutil que ligava o corpo à alma e o homem ao cosmo.
Seu contemporâneo Pico della Mirandola ampliou esse horizonte de modo ainda mais ambicioso. Aos 23 anos, em 1486, ele compilou novecentas teses sobre filosofia, religião, magia e ciências naturais. Este projeto enciclopédico se tornaria o primeiro livro universalmente proibido pela igreja católica. Escreveu para introduzi-las o que ficou conhecido como Oratio de hominis dignitate, o “Manifesto do Renascimento”. Para Pico, os nomes divinos e as estruturas simbólicas da Cabala judaica eram chaves para compreender a arquitetura oculta do mundo, e a magia era uma das ciências mais elevadas, não a sua corrupção. O conhecimento existia sem ser fragmentado em disciplinas, mas concebido como um mosaico de correspondências que, uma vez decifrado, revelaria a unidade profunda de todas as tradições do saber. A máxima hermética “assim no alto como embaixo” era um princípio epistemológico.
Medicina, alquimia e o corpo como microcosmo
Com Paracelsus, essa visão simbólica desceu ao terreno da prática clínica. Rejeitando a autoridade de Galeno e Avicena, ele propôs uma medicina baseada na alquimia, na astrologia e na observação direta da natureza, na qual o corpo humano era um microcosmo que espelhava o macrocosmo e as doenças eram desarmonias entre essas esferas. Minerais, metais e compostos químicos preparados alquimicamente poderiam restaurar o equilíbrio. Não era mera superstição: a iatroquímica paracelsiana inaugurou o uso sistemático de substâncias químicas na terapêutica. A fronteira entre alquimia e química, retrospectivamente nítida, era então inexistente, e o laboratório alquímico foi, em muitos sentidos, o berço da farmacologia moderna. O “divino boticário” de Paracelsus era a própria natureza, e o médico, seu intérprete.
Astronomia e astrologia: o céu como arquivo de sinais
A astronomia é frequentemente apresentada como o triunfo da observação sobre a superstição. Contudo, nasceu entrelaçada com a astrologia. A arte da divinação nas estrelas parecia esquecida até a tradução do Almagesto de Ptolomeu pela Escola de Tradutores de Toledo no século XII, mas ainda viria a se tornar popular a partir de uma versão latina do século XV. Ou seja, a astrologia renasceu com a astronomia renascentista. E vários astrônomos da época ganhavam seu sustento fazendo horóscopo.
Tycho Brahe, cuja precisão observacional pavimentou o caminho para Kepler, interpretava cometas e supernovas como sinais celestes dotados de significado terrestre. Seu observatório, Uraniborg, erguido por volta de 1580 na ilha de Ven, era simultaneamente um dos mais avançados centros astronômicos da Europa e um laboratório alquímico equipado com dezesseis fornalhas para aquecimento, destilação e produção de cinzas, além de jardins que forneciam ervas para suas preparações medicinais. Análises químicas recentes de fragmentos de vidro e cerâmica recuperados das ruínas de Uraniborg confirmaram a presença de cobre, antimônio, ouro e mercúrio em superfícies do laboratório. Esses fora, exatamente os elementos presentes nos três medicamentos paracelsianos pelos quais Brahe ficou famoso, os Medicamenta tria, que tratavam de tudo, da sarna à epilepsia, e chegaram às mãos do próprio Imperador Rodolfo II.
Brahe acreditava que o Sol, o ouro e o coração eram conectados; a Lua, a prata e o cérebro; Saturno, o chumbo e o baço. Para ele, envolver-se tanto com a astronomia quanto com a alquimia não se contradiziam. Considerava o céu como um espelho simbólico de toda a ordem do universo.
Magia, memória e infinitude
Giordano Bruno levou essa cosmologia simbólica a uma radicalização metafísica. Defensor de um universo infinito e povoado por incontáveis mundos, ele via o cosmos como um organismo animado, permeado por uma alma universal que tornava qualquer coisa dotada de movimento, em certo sentido, viva. Sua prática da ars memoriae — a arte da memória — transformou técnicas mnemônicas herdadas da Antiguidade em uma forma de magia cognitiva: as rodas da memória que Bruno construiu podiam organizar, em camadas sobrepostas de símbolos mitológicos e astronômicos, bibliotecas inteiras de imagens mentais capazes de evocar as forças do cosmos. Para ele, conhecer era participar; organizar imagens equivalia a reorganizar o próprio mundo.
Sua execução, em 1600, frequentemente interpretada como conflito entre ciência e religião, foi também o choque entre cosmovisões irreconciliáveis: de um lado, a Igreja que via o universo como criação delimitada e hierárquica; de outro, Bruno, para quem o cosmos era infinito, vivo e indiferente à distinção entre sagrado e profano.
Newton e o segredo da matéria
O caso de Isaac Newton é talvez o mais desconcertante para a narrativa moderna. O autor dos Principia dedicou mais páginas à alquimia e à exegese bíblica do que à física. Foram mais de um milhão de palavras sobre alquimia, vários milhões sobre teologia, segundo o levantamento feito após o leilão de seus manuscritos em 1936, quando o economista John Maynard Keynes os adquiriu e, ao lê-los, chamou Newton de “o último feiticeiro”. Em seus manuscritos, a busca pela pedra filosofal coexistia com experimentos ópticos; o cálculo diferencial compartilhava espaço com cronologias do Apocalipse; e nos laboratórios de Cambridge, onde Newton costumava trabalhar semanas a fio sem apagar o fogo, ele buscava nas transmutações da matéria as forças ocultas que, segundo ele, mantinham a coesão do universo.
Sua noção de atração gravitacional — uma ação à distância sem substrato mecânico visível — não estava tão distante, conceitualmente, da ideia alquímica de simpatias naturais. Newton acreditava que uma sabedoria primordial, corrompida ao longo das eras, continha as chaves para compreender a ordem do cosmos, e que a filosofia natural era, em certo sentido, uma arqueologia dessa sabedoria perdida. A ciência newtoniana não emergiu apesar da alquimia, mas no mesmo terreno intelectual que a tornava plausível.
O erro do anacronismo
Classificar essas práticas como “pseudociência” é impor uma fronteira que ainda não existia. A distinção moderna entre ciência e misticismo é produto da racionalidade europeia do século XIX, não do Renascimento ou do século XVII. Isso é resultado de um processo de profissionalização e especialização disciplinar que esses pensadores não poderiam ter previsto e que, de fato, em certos aspectos, foi construído contra a herança que eles deixaram. Para Ficino, Pico, Brahe e Newton, o mundo era simultaneamente material e simbólico. As causas físicas e significados espirituais coexistiam sem contradição porque pertenciam ao mesmo tecido do real.
O que mudou foi uma concepção de verdade. A ciência moderna passou a privilegiar explicações mecanicistas, replicáveis e matematicamente formalizáveis, relegando as correspondências simbólicas ao domínio da metáfora ou da fé. Mas essa separação custou algo. Ao expulsar o simbolismo do estudo da natureza, a modernidade ganhou precisão e perdeu uma linguagem para falar do sentido.
O trânsito hesitante entre ciência e misticismo nesses pensadores revela um momento em que o mundo ainda não havia sido completamente desencantado. Pressupunham que o cosmos era inteligível porque obedecia a leis e carrega significado. Desse modo, a natureza podia ser ao mesmo tempo medida e contemplada, calculada e interpretada. O laboratório moderno emergiu do ateliê alquímico; a astronomia, dos horóscopos; a química, das tentativas de transmutação dos metais. A modernidade começou com uma hesitação, um longo crepúsculo em que antigos símbolos e novos instrumentos coexistiram nas mesmas mãos e nas mesmas páginas.
A medicina, fronteiras e virtudes ocultas nas novas terras ibéricas
A historiografia da ciência renascentista tardou a reconhecer que o mundo ibérico, frequentemente lido apenas sob o signo da Inquisição e da contrarreforma, produziu sua própria versão do nexo entre empirismo e conhecimento oculto. O caso lusitano é especialmente revelador porque a expansão ultramarina colocou os portugueses em contato com matérias médicas, cosmologias e tradições farmacológicas para as quais os sistemas europeus de classificação simplesmente não tinham categorias. E foi precisamente nessa tensão entre o inadequado e o novo que alguns de seus pensadores mais originais trabalharam.
García de Orta (c. 1501–1568) é o exemplo dessa encruzilhada. Médico filho de judeus refugiados da expulsão de 1492) formou-se nas universidades castelhanas de Salamanca e Alcalá de Henares antes de embarcar para a Índia em 1534 como médico-chefe da frota de Martim Afonso de Sousa. Instalado em Goa, onde viveu quase trinta anos e exerceu medicina tanto para os vice-reis portugueses quanto para o sultão Burhan Nizam Shah I de Ahmadnagar, ele publicou em 1563 os Colóquios dos Simples e Drogas da Índia. Seria um dos primeiros cinco livros impressos na Índia e o mais importante tratado europeu de botânica e matéria médica asiática do século XVI. A obra, redigida em português e não em latim, estruturada como um diálogo entre o próprio Orta e um médico espanhol recém-chegado chamado Ruano, cobria mais de oitenta drogas, especiarias, minerais e preparações, muitas delas inteiramente desconhecidas da Europa. Inclui a primeira descrição europeia dos sintomas da cólera, baseada em autopsia realizada pelo próprio Orta, a primeira registrada na Índia.
Sua posição epistêmica é tanto modern oquando aderente ao pensamento mágico. Por um lado, Orta desafia abertamente as autoridades clássicas: “Se eu estivesse na Espanha”, escreve, “não me atreveria a dizer nada contra Galeno e os gregos”; longe do centro, a periferia permitia ousar. Por outro lado, os Colóquios incorporam a busca pelas virtudes ocultas das substâncias. Investiga pedras preciosas e suas propriedades medicinais, a eficácia de preparações que não se explicavam pelos humores galênicos. Eram uma preocupação compartilhada com a alquimia e a magia natural renascentistas. Quando os métodos europeus falhavam, ele recorria aos curandeiros bramânicos ou às tradições yunani e ayurvédica, articulando em sua própria prática aquilo que os textos herméticos proclamavam como princípio: a sabedoria não tem origem única.
Orta não viveu para ver sua condenação. Morreu em Goa em 1568; doze anos depois, em 1580, seu corpo foi exumado e queimado em efígie num auto-da-fé da Inquisição de Goa, após sua irmã Catarina ter sido queimada em 1569 por judaísmo secreto. Carolus Clusius traduziu os Colóquios para o latim em 1567, assegurando sua circulação europeia em sucessivas edições até 1605, e a obra tornou-se referência padrão nos gabinetes de curiosidades e nas boticas de toda a Europa. A sabedoria do converso periferia, uma vez absorvida pela res publica literaria europeia, perdeu o seu nome mas não o seu conteúdo.
Seu contemporâneo Amato Lusitano (João Rodrigues de Castelo Branco, 1511–1568) percorreu trajetória análoga. Médico português de origem judaica, formado também em Salamanca, publicou suas Curationum Medicinalium Centuriae Septem — sete centúrias de casos clínicos — em diversas cidades europeias ao longo de décadas de exílio. Perambulou de Antuérpia a Ferrara, de Dubrovnik a Salônica, onde morreu durante uma epidemia de peste. O uso da “raiz da China” (Smilax china) para o tratamento da sífilis, descrito nas Centuriae, exemplifica a mesma abordagem iatroquímica que Paracelsus propugnava no norte europeu: uma terapêutica baseada em substâncias vegetais e minerais exóticos cujas virtudes operavam segundo lógicas que o galenismo clássico não conseguia encaixar. A diáspora sefardita, ao conectar médicos lusoespanhóis às redes comerciais mediterrâneas, ao Oriente Próximo e à Índia, criou uma infraestrutura de transmissão de conhecimento médico-alquímico que antecipou, em muitos aspectos, a respublica medica do século XVII.
João de Castro (1500–1548), navegador, humanista e vice-rei da Índia portuguesa, representa outra faceta desse nexo ibérico. Seus Roteiros eram minuciosos diários de navegação redigidos nas décadas de 1530 e 1540 que continham além dados de pilotagem. Registram observações sistemáticas sobre a declinação magnética em diferentes pontos do globo, desafiando a física aristotélica ao demonstrar que a agulha se comportava de modo irredutível ao modelo das esferas celestes. Aluno de Pedro Nunes em Lisboa, Castro operava dentro da tradição portuguesa de cosmografia. Esta ciência de fronteira fundia astronomia, matemática e astrologia numa forma de saber prático voltado à navegação. Seus escritos revelam um pensador para quem o céu era ao mesmo tempo calculável e significativo, objeto de medição e de interpretação. O mesmo cosmos que o navegador media com o astrolábio era, para ele, um texto cujas correlações precisavam ser decifradas.
A Espanha de Felipe II (1527–1598) retra um dos quadros mais complexos e paradoxais dessa história. O monarca que encarnava a ortodoxia católica contrarreformista, que mandou construir no Escorial um mosteiro-palácio-mausoléu como monumento à sua fé, era também o mecenas de uma das mais ambiciosas empresas alquímicas da Europa do século XVI. Nos jardins reais de Aranjuez, Madri e El Escorial, ele instalou três laboratórios de destilação com destiladores contratados nos Países Baixos e na Itália, encarregados de preparar drogas químicas, essências medicinais, quintessências e licores segundo os princípios da tradição luliana. Essa alquimia espiritual derivada de Ramon Llull, que prometia uma quinta essentia capaz de curar o corpo e elevar a alma. Em 1567, autorizou pessoalmente experimentos secretos de transmutação na casa de seu secretário Pedro de Hoyo, tentando converter chumbo, prata, cobre e salitre em ouro, e anotou à margem de uma proposta particularmente fantasiosa de um frade destilador: “deixai estar, parece-me coisa de ar”.
O ceticismo pontual não contradizia o comprometimento geral: Felipe II era um colecionador voraz de segredos naturais, um patrono que via na alquimia uma ciência legítima das forças ocultas da matéria, não uma superstição. Em 1593, o irlandês Richard Stanyhurst foi contratado para operar o laboratório do Escorial. Este filólogo, tradutor de Virgílio e alquimista, exilado católico que havia trabalhado nos Países Baixos espanhóis preparou águas destiladas e essências segundo os princípios que exporia nesse mesmo ano em seu El toque de alquimia. O manual foi dedicado ao próprio monarca, no qual citava Paracelsus, Ramon Llull e o inglês George Ripley como autoridades da arte. O laboratório do Escorial empregava simultaneamente destiladores flamengos, apotecários espanhóis e filósofos naturais de várias nações; seus trabalhos eram confidenciais, considerados assunto de Estado, e pouca documentação sobreviveu. O conjunto de El Escorial pode ser, com justiça, considerado o contraparente ibérico do laboratório de Uraniborg de Brahe e dos ateliers alquímicos da corte de Rodolfo II em Praga.
Jerónimo Muñoz (c. 1520–1591), o mais importante astrônomo espanhol do século XVI, retrata a coexistência de ciência e misticismo no universo ibérico. Formado na Universidade de Valência, onde estudou com Gemma Frisius em Leuven e com Oronce Finé na Sorbonne, ele lecionou simultaneamente hebraico, matemática e, depois, astrologia em Valência e em Salamanca. Era o paralelo exato de Tycho Brahe, que calculava paralaxes e interpretava cometas como sinais celestes. Quando a supernova de 1572 explodiu em Cassiopeia e iluminou os céus europeus por meses a uma magnitude comparável à de Vênus, Muñoz a observou a partir de Valência na noite de 2 de dezembro e publicou no ano seguinte, a pedido do próprio Felipe II, o Libro del nuevo cometa. Esta obra começava com uma refutação sistemática da cosmologia aristotélica, argumentando que o fenômeno era supralunar e portanto impossível dentro do modelo das esferas imutáveis. Suas medições de paralaxe diurna foram independentemente confirmadas por Tycho Brahe, que elogiou sua precisão, e mais tarde utilizadas por Galileu no Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo. A nova estrela, contudo, Muñoz a classificou como um cometa estelar. Isto é, seria um corpo que se aproximava e se afastava porque sua decomposição de brilho não se encaixava no modelo de uma estrela fixa. A fronteira entre o preciso e o simbólico permanecia porosa.
Sua trajetória tem uma ironia melancólica que o texto ibérico partilha com o europeu. Depois do Libro del nuevo cometa, Muñoz praticamente abandonou a publicação. Sentiu-se insultado pela recepção de sua obra na corte, e escreveu numa carta que a Espanha “não observa as estrelas, nem se ocupa de matemática, apenas de mercancia”. Seus demais escritos incluíam comentários sobre Plínio, sobre Euclides, tratados de trigonometria plana, traduções latinas de Teão, anotações astrológicas. eles permaneceram manuscritos e se dispersaram por bibliotecas europeias, invisíveis durante séculos para a história da ciência. O mesmo impulso que levava Orta a publicar em português na periferia do império, e não em latim no centro, e que condenava Stanyhurst ao sigilo dos laboratórios régios, operava também sobre Muñoz: a ciência ibérica do ocultismo-e-natureza produzia conhecimento que o regime de verdade nascente não sabia ainda onde arquivar.
Se no norte europeu o ateliê alquímico e o observatório coexistiam nas mesmas mãos (Brahe em Uraniborg, Newton em Cambridge), no mundo ibérico essa coexistência se distribuía por redes mais amplas e mais perigosas. Circulavam pelos consultórios dos conversos que operavam nas fronteiras do império, pelos laboratórios régios mantidos em segredo de Estado, pelas celas dos frades destiladores que prometiam quintessências e pelas mesas dos cosmógrafos que mediam as estrelas para guiar as frotas ao mesmo tempo em que calculavam as influências planetárias sobre os ventos e as marés. O mundo ibérico gerou uma ciência do império que tentava absorver, classificar e, quando necessário, domesticar a sabedoria oculta de três continentes.
No extremo dessa empresa colonial do conhecimento oculto, dois casos sintetizam a vertigem do encontro: Bernardino de Sahagún e Inca Garcilaso de la Vega. Sahagún, o franciscano que passou décadas documentando a cosmologia, a medicina, a astrologia e o calendário ritual asteca no Códice Florentino. E fez isso enquanto condenava teologicamente as mesmas práticas que registrava com precisão etnográfica. Distinguia entre astrologia “natural” e aceitável, pois se ocupava dos movimentos dos planetas, e o tōnalpōhualli, o calendário de 260 dias dos augúrios astecas, que classificava como idolatria. Contudo, descrevia o tōnalpōhualli com tal riqueza de detalhe que seus manuscritos se tornaram a mais completa fonte primária sobre a astronomia nahuatl. O mesmo gesto que na Europa produzia Ficino de preservar textos grecorromanos ao preço de afirmar a primazia cristã produzia em Nova Espanha Sahagún. ou seja, buscavam condenar ao mesmo tempo em que documentar, numa ambivalência que é ela própria uma forma de conhecimento.
Inca Garcilaso de la Vega (1539–1616) levou essa tensão ao extremo da síntese pessoal. Filho ilegítimo de um conquistador espanhol e de uma princesa inca neta de Huayna Capac, nascido em Cusco em 1539 e emigrado para a Espanha em 1560, ele passou o resto da vida em Montilla e Córdoba escrevendo crônicas que eram simultaneamente história incaica e filosofia hermética europeia. Seu primeiro livro publicado foi, em 1590, uma tradução castelhana dos Dialoghi d’amore de Leão Hebreu. Este texto neoplatônico sefardita sintetizava aristotelismo, mística árabe, astrologia, Cabala e teologia cristã numa única cosmologia do amor universal. A escolha era deliberada. Para Garcilaso, os Diálogos ofereciam um modelo de como reconciliar tradições díspares sob o princípio de uma harmonia oculta que as precedia a todas. Era o mesmo projeto de Ficino com o hermetismo, de Pico com a Cabala, de Bruno com o animismo cósmico. Nos Comentarios Reales de los Incas (1609), ele identificou Pachacámac, o deus criador andino cujo nome significa “animador do mundo”, com o Deus cristão oculto para além das formas sensíveis, e interpretou a religião solar dos Incas como uma teologia natural imperfeita mas genuína, uma espécie de paganismo filosófico comparável ao dos gregos. A síntese era a do próprio corpo: o mesmo homem que havia nascido falando quechua e aprendido o latim na Espanha tentava, na linguagem do hermetismo renascentista, costurar dois mundos que o império havia rasgado.
SAIBA MAIS
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Atualizado em 30 de abril de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar.
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Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Ciência e misticismo na alvorada da modernidade. Ensaios e Notas, 2022. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2022/05/02/ciencia-e-misticismo-na-alvorada-da-modernidade/. Acesso em: 30 abr. 2026.


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