O que é positivismo?

positivismo

Positivismo é um termo empregado às várias correntes de pensamento em diferentes áreas, ideologias e mesmo a movimentos políticos. Meio a tantos sentidos ainda há um ponto comum identificável nos positivismos: uma posição que considera possível a apreensão do conhecimento de modo objetivo. E essa apreensão do conhecimento seria possível sem apelar para pressupostos a priori ou fundados em metafísica.

Por vezes, positivismo aparece como epíteto pejorativo. Em razão disso, vale atentar-se às suas diferentes acepções, especialmente na filosofia da ciência, nas ciências sociais, na política e na história das ideias.

Quando alguém fala de positivismo é possível que se refira a coisas distintas, tais como:

  1. A valorização de uma síntese entre racionalismo, empirismo e naturalismo surgida nas fases finais do iluminismo e combinando com várias outras vertentes do pensamento, como o senso comum escocês, as críticas ao katianismo, o utilitarismo ou o pensamento anti-metafísico de Fauerbach.
  2. Suposição de que o conhecimento seria possível em um vácuo ético ou axiológico, ou seja, retirada dos valores que enviesam os fatos compreendidos pelos sujeitos.
  3. A atitude epistêmica de que haveria uma correspondência segura e acurada entre o fato ou dado (realidade externa) e suas percepções pelos sujeitos.
  4. O pensamento filosófico e social de Augusto Comte que buscava conhecer os fenômenos humanos com métodos espelhados nas ciências naturais de sua época.
  5. A religião fundada por Comte ou o movimento político inspirado nele (não necessariamente seus adeptos sejam idênticos).
  6. O empiriocriticismo como filosofia da ciência de Ernst Mach.
  7. O positivismo lógico do Círculo de Viena e seus correlatos (ironias, uma semelhança de família) do empirismo consistente, empirismo lógico, empirismo científico e neo-positivismo lógico.
  8. Alguns aspectos da filosofia analítica depois da 2ª Guerra mundial, especialmente o pensamento de J. Ayer contra todas as formas “inadmissíveis” de atividades reclamando autoridade epistemologicamente fundamentada, como a ética, a metafísica e a teologia.
  9. Cientificismo, a confiança na ciência como a única forma de conhecimento válido, priorizando a aplicabilidade de seus métodos, pressupostos, práticas, atitudes em questões humanas, especialmente em matérias políticas, éticas e sociais.
  10. Algo confuso entre realismo e materialismo em ontologia e metafísica. Ou seja, a realidade é uma totalidade, cuja parte material ou tangível está sujeita a leis causais observáveis.
  11. Naturalismo, a pressuposição de que tudo que há esteja contido na natureza ou mundo físico regido por essas leis próprias.
  12. Pressupostos nomotéticos, novamente, a suposição de que haja leis físicas ou naturais por trás de tudo. Assim, o objetivo da ciência seria explicar e prever fenômenos com base nas condições necessárias e suficientes e estabelecer generalizações na forma de leis científicas.
  13. Reducionismo, retrato do mundo em um conjunto limitado de variáveis mediante um só método.
  14. Mecanicismo, um resultado da junção do naturalismo e do reducionismo, ou seja, tudo que ocorre é possível ser descrito em uma relação mecânica de causa e consequência.
  15. Datismo, uma forma de reducionismo com a priorização dos dados como única fonte confiável de conhecimento.
  16. Matematização, outra forma de reducionismo que a traduz toda a complexidade em modelos matemático, quantitativos ou lógicos. A validação lógico-matemática seria um dos únicos remédios para escapar dos vieses subjetivistas e dos enganos do senso-comum.
  17. Verificacionismo, a restrição de validade do conhecimento fundamentado a somente àquilo que seja dado, evidenciado, experimentado, replicável (e para alguns, falseável). Rejeição de qualquer proposição de verdade que falte de evidências verificáveis para seu apoio ou refutação.
  18. Instrumentalismo é a busca de conhecimento que seja útil e aplicável, visto que o conhecimento pleno dos fenômenos são limitados por falta de dados, imprecisão metodológica ou viéses humanos.
  19. Essencialismo, a representação de um objeto conforme seus atributos essenciais os quais existiriam de modo uniforme e independente de contexto ou contingências.
  20. Nominalismo, ou a crença de somente seres individuais ou particulares existem.
  21. Juspositivismo, no mínimo o termo se refere a quatro coisas distintas. A primeira, a doutrina de que leis e institutos jurídicos dependem exclusivamente da agência humana. A segunda, a doutrina pela qual os elementos do ordenamento jurídico, uma vez positivados pelas instituições dotadas de autoridade, existem independente da moral, do contexto social e da política. Terceiro, a redução do fenômeno do Direito a somente as normas fundamentadas por um processo legiferante, sobretudo, aqueles reconhecidos pelo Estado. Por último, um polo em um espectro de escolas de pensamento jurídico no qual em seu lado oposto está o direito natural.
  22. Fenomenalismo, restrição à inquirição somente do que seja observável, ou seja, fenômenos (não confundir com fenomenologia).
  23. O preconceito de que somente as “hard sciences” sejam científicas.
  24. Oposição ao construtivismo (tanto a crítica epistemológica de que a ciência é produzida por fatos objetivos mediante cientistas isentos, quanto a concepção ontológica de que a a compreensão e transformação da realidade sejam frutos da agência humana).
  25. Oposição ao idealismo, a doutrina de que a realidade existe primordialmente como ideia circunscrita às mentes.
  26. Oposição ao interpretativismo, a concepção de que todo conhecimento seja no final uma atividade interpretativa. Nessa acepção, um fato dado seria possível de ser conhecido “sem interpretação”.
  27. Oposição à “metafísica”, ou seja, tudo que discuta a realidade, mas que não tenha dados positivos para fundamentar seu argumento.
  28. Um conjunto de ideologias seculares, anti-metafísicas e anti-teológicas, voltadas para o progresso humano com base em observação, experiência e uma ética utilitarista.
  29. A crença em um progresso tecnológico, científico e político com base no conhecimento positivado.
  30. O ideal metodológico de que a inquirição, a busca pelo conhecimento, seguiria sempre um modelo ou método, o qual deveria ser uniformemente aplicado por todas as ciências.

Este é o rol das acepções atribuídas ao termo “positivismo” que encontrei. Ironias das ironias, parece-me que os aderentes atuais de muitas dessas formas de positivismos contrariam alguns de seus pressupostos mais caros: os positivismos compartilham com a filosofia desde Platão e Aristóteles a busca pelo conhecimento fundamentado, a episteme e não a doxa. Entretanto, esses aderentes mal examinam seus próprios preconceitos sem fundamentos. Como dizia (o tão frequentemente acusado de positivismo) Mario Bunge:

Positivismo: A família de doutrinas que exigem apenas fatos “positivos” (experiências) e que afirmam que as teorias se resumem a dados e nos economizam pensamento. Embora os positivistas preguem cientificismo, eles possuem apenas uma epistemologia centrada no sujeito e cortam as asas da investigação científica por exigir que se atente aos dados. Também evitam a metafísica, mas na verdade, ratificam o fenomenismo, que é uma metafísica subjetivista. Os principais expoentes desta tendência são: Ptolomeu, D’Alembert, Comte, Mill, Spencer, Mach e os positivistas lógicos. Atualmente, está na moda punir o positivismo, em parte porque se opõe ao obscurantismo e porque muitas vezes é confundido com realismo e materialismo. No entanto, não existem positivistas na comunidade filosófica; os únicos positivistas que estão em prática se encontram nos ramos atrasados das ciências naturais e sociais, onde a principal ocupação permanece sendo a caça e coleta de dados (datismo). BUNGE. Mario. Diccionário de Filosofia.

Há muitas críticas ao positivismo. Uma delas é que não resiste a seus próprios critérios de validação. Contudo, há boa ciência produzida sob um paradigma positivista. Portanto, antes de desconsiderar algo como “positivista” esmiúce o que esteja recebendo tal designação e avalie criticamente seus argumentos.

SAIBA MAIS

BUNGE, Mario. Diccionario de filosofía. Siglo XXI, 2001.

DELANTY, Gerard; STRYDOM, Piet . Philosophies of social science: The classic and contemporary readings. Maidenhead: Open University Press, 2003.

NASH, Ronald H. Life’s Ultimate Questions: An Introduction to Philosophy. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1999.

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