Berger e Luckmann: A construção social da realidade

Se você está lendo essa postagem significa que o mundo acabou e você encontrou resquícios da civilização, rs. Não, ao contrário disso, se você consegue ler esse texto é porque há um mundo socialmente construído: você foi alfabetizado, ensinaram-lhe uma língua, trabalhadores produziram o suporte no qual você lê, eu escrevi e publiquei o texto e (espero) essas ideias farão parte do conhecimento que você portará consigo.

O processo acima descrito ilustra a tese de Peter Berger (1929-2017) e Thomas Luckmann (1927-2016). Para esses dois sociólogos austro-americanos, a sociedade resulta da construção social da realidade. Em miúdos, o modo cotidiano pelo qual o indivíduo define a sociedade e percebe as ações humana e se interage socialmente constrói o mundo social. Assim, a percepção dos sentidos é moldada pelos sentidos subjetivos atribuídos a uma experiência objetivamente vivida.

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Escher. Mãos desenhado. Litogravura. 1948.

Para fundamentar seu argumento, Berger e Luckmann propõe alguns conceitos:

  • Externalização: pensamentos, sentimentos, ideias que ganham formas.
  • Objetificação ou reificação:  a transformação dos pensamentos pela linguagem e comportamento dentro de parâmetros sociais e sua institucionalização nas artes, nas normas e nos hábitos.
  • Internalização: com os parâmetros dos artefatos ou objetos socialmente aceitos, o indivíduo tem consciência e interpreta o mundo. Reflexivamente, externaliza seus pensamento com base nesses parâmetros.
  • Habitualização: ações repetidas se tornam um parâmetro que serão aceitos por outros que vierem depois.
  • Institucionalização: o processo de implantar uma convenção ou norma na sociedade. Isso acontece quando os hábitos se tornam normais ou realidade.
  • Realidade: uma qualidade inerente ao fenômeno a qual reconhecemos que essa qualidade é associada ao fenômeno independentemente de nossa vontade.
  • Conhecimento: certeza que os fenômenos são reais e que possuem características específicas.

Como as sociedades são diferentes, o que é considerado ser real em uma cultura pode não ser em outra. Por exemplo, os 40 variedades de tons de pele foram agrupadas em grupos discretos, criando-se “raças” e tornaram-se reais em suas consequências, para citar outro sociólogo, o pioneiro W.I. Thomas. Quem é Afro-American nos Estados Unidos (como o ator Wentworth Miller) não pode ser assim reconhecido como negro/preto no Brasil enquanto a própria concepção de negritude pode ser a coisa mais sem sentido na Nigéria, onde alguém é hauçá, tiv ou iorubá.

construção social da realidade

Falando assim, esse modelo parece óbvio, mas é fruto da reflexão de Berger e Luckmann. Essa obviedade deve-se à popularização da obra, escrita com um estilo prosaico e ensaístico que a faz interessante até para leitores não iniciados nas ciências sociais. Na redação de essa obra teórica, os autores tomaram o cuidado de evitar a ladainha de nomes de autores e conceitos teóricos, relegando-os às notas, nas quais tecem suas análises críticas.

O que hoje é lugar comum foi uma novidade nos anos 1960. Na época, a teoria dos sistemas, o giro quantitativo na sociologia, as abordagens “materialistas” na antropologia, o funcionalismo-estruturalista parsoniano (além das grandes narrativas marxistas, estruturalistas e psicanalíticas) davam um tom determinista às atividades humanas. Nesse ambiente intelectual, demandavam-se a questão de como o ser humano se comportava e se imaginava segundo um parâmetro coletivo e ainda retinha sua individualidade.

Contrariando o propósito dos autores de não falar em nomes de teóricos, é interessante traçar como o conceito de “construção social da realidade” dos próprios autores depende da habitualização de conceitos prévios. Os autores incorporaram de Durkheim a ideia de que o fenômeno social é uma realidade objetiva, não uma mera soma de indivíduos. Já a concepção dinâmica da sociedade deve-se à Marx. O papel das ações sociais dos indivíduos para moldar a vida e na conceptualização de uma visão de mundo é uma ideia devida a Max Weber. A preocupação em compreender como funciona o processo do conhecimento entre o social e o mental origina-se com Karl Mannheim e Werner Stark. Já a abordagem a essa mesma questão é visivelmente fenomenológica, na tradição de Max Scheler e Alfred Schütz. Os autores inverteram o modelo de sistema social de Talcott Parsons, então em voga, para minimizar o papel individual e considerar a história como contingencial, não determinada pelos sistemas individual, cultural e social proposto por Parsons. Ao internalizarem essas ideias, os autores externalizaram seu próprio conceito de construção social de realidade. Assim, essa teoria torna-se real no sentido de se conceber o mundo dessa forma.

Embora os autores tenham proposto uma sociologia do conhecimento, a obra é lida mais como uma ontologia social. O livro não é geralmente visto como uma tentativa de explicar como o indivíduo se comporta como um ser cognoscente ao meio das informações socialmente produzidas. Normalmente a obra é referenciada como uma explicação de como os hábitos se tornam instituições e sua aceitação se torna a realidade. Por fim, essa realidade é conhecida e aceita como natural.

Berger, que além de sociólogo era teólogo e cientista da religião, iria notavelmente aplicar sua tese nas teorias do dossel sagrado e da secularização (e mais tarde do pluralismo pós-secular). Para Berger, o dossel sagrado da religião como instituição seria uma emergência desse processo de construir socialmente a realidade. Consequentemente, a religião – independente de discutir a realidade do seu conteúdo de crença – é real e afeta o sistema de construção de sentidos do mundo.

Falando no natural, fundadas na ideologia do naturalismo, há pessoas que gostam de problematizar que isso ou aquilo é uma “construção social”, ou seja, com menos legitimidade. Trata-se de uma interpretação que minimiza (e contraria o aspecto de agência humana) da obra de Berger e Luckmann. Sem se ater à ao juízo de valor de que o “natural é o melhor; o artificial, pior”, o problema de querer invalidar um traço cultural ou uma instituição social como menos importante ou sujeita às mudanças por mera volição é ignorar que a construção social é real. Isto é, como as coisas reais externas à nós são construídas socialmente, mas não dependem do livre-arbítrio das pessoas. Há sim a agência humana para modificar a realidade, que ocorre no cotidiano do indivíduo, mas não depende do poder, iniciativa e vontade — consciente ou não — desse indivíduo para realizar uma modificação total da sociedade. Essa transformação depende da interação recíproca, dialética, entre indivíduos e entre o indivíduo e sociedade. Outras abordagens, como as teorias da estruturação e da práxis, explicam como essas transformações ocorrem e, apesar das diferenças, concordam que as mudanças sociais não processos individuais que resultam em mudanças drásticas de uma hora para outra.

SAIBA MAIS

BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. The Social Construction of Reality: A Treatise in the Sociology of Knowledge. Garden City, NY: Doubleday, 1966. No Brasil: A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Tradução de Floriano de Souza Fernandes. Petrópolis: Vozes, 2014.

 

 

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