Cor/raça? A paleta humana

cor da pele

Quando antropólogos dizem que não existem raças humanas biologicamente falando, sempre tem alguma alma ressabiada que questiona com honestidade: “mas como explicar as cores tão diferentes das pessoas?”

Os problemas de usar cores e tons da pele para classificá-las em raças são dois. Primeiro, a pigmentação epitelial é muito instável para servir como parâmetro. Vários fatores – idade, intensidade da exposição aos raios solares, alimentação (sim, cenoura e outros alimentos ricos em betacaroteno alteram os tons da pele), contato com agentes químicos ou abrasivos e mesmo patologias – podem afetar a combinação de eumelanina e feomelanina em um indivíduo. Esses pigmentos são responsáveis pela coloração da pele, junto de fatores de vascularização sanguínea. Além disso, a cor da pele difere em partes diversas do corpo. Para aumentar a complexidade, em uma dada população homogênea, mesmo de ancestralidade comum, ocorrem variações em uma amplitude tão díspar de tom de pele entre seus indivíduos. Isso leva ao segundo problema desse critério. Não há somente as “raças/cores” branca, preta, amarela, parda ou indígena (qual cor seria?) utilizadas pelo IBGE. Mas há uma pletora de matizes. Se utilizarmos os trabalhos dos artistas Pierre David e Angelica Dass citados abaixo, deveríamos adotar no mínimo umas 40 cores ou raças.

No século XVII a prestigiosa Royal Society londrina propôs estudos de cor de pele para compreender a diversidade humana. Em resposta, o naturalista e químico Robert Boyle propôs uma teoria que correlacionava fatores geográficos com a cor da pele e atributos inerentes aos diversos povos. A ideia pareceu tão ridícula às mentes esclarecidas de Margaret Cavendish e Jonathan Swift os quais escreveram sátiras a respeito[1]. Todavia, ficou ainda enraizado na mentalidade colonialista um pressuposto de racismo científico que ainda hoje é difícil extirpar do senso comum.

Cientes das limitações de usar critérios de cor de pele para classificar a diversidade humana, no século XIX outra instituição científica britânica, o Royal Anthropological Institute, listou outros traços fenotípicos em seu guia-questionário Notes & Queries. Medidas craniais e formas ósseas junto de características capilares e narizes (?!) somavam como fatores determinantes para a antropometria. A partir disso, teóricos do racismo científico como Arthur de Gobineau, Paul Broca, Francis Galton, Samuel George Morton e Louis Agassiz passaram a falar categoricamente em existências de raças com características fixas e hereditárias. A distorção de fatos da antropologia física foi tanta que entre suas consequências temos a criminologia de Cesare Lombroso (e Nina Rodrigues no Brasil); as leis raciais nazistas, Jim Crow e do Apartheid; a racialização dos tutsis e hutus na África Central por agentes coloniais, com resultados genocidas.

A nascente antropologia logo partiu para desmentir essa ideologia. Em uma época quando fé em um cientificismo positivista conclamava em medir tudo, o médico e antropólogo austríaco Felix von Luschan criou a Escala Cromática de von Luschan. Criada para ter uma maior precisão da cor da pele, as 36 plaquetas de vidro dessa escala só serviram provar que medir tom de pele para determinar etnicidade ou raça era inútil e impreciso. Frequentemente, a mesma pessoa examinada resultava em outro número diferente de cor.

Hoje, os antropólogos físicos falam em gradação clinal de aspectos de fenotipia. Um “pacote” de características comuns se concentra em dadas regiões  ou populações, mas sem serem exclusivas ou essenciais a elas, variando internamente e divergindo à medida que se distancia mais do centro clinal.

Como a ideia de cor ou raça ainda persiste, as artes contribuem para desfazer muito dessas falsas concepções. Em 2009, o fotógrafo francês Pierre David  fez fotografia bem próxima da pele das costas de quarenta homens em Salvador e criou uma escala de pele, a Nuancier. Outra artista fotográfica, Angelica Dass criou o Projeto Humanae, com retratos de pessoas classificadas pela afamada escala Pantone®. São obras que merecem ser difundidas para reduzir preconceitos ingênuos ou maliciosos.


 

[1] MALCOLMSON,Cristina. Studies of Skin Color in the Early Royal Society: Boyle, Cavendish, Swift. Farnham: Ashgate, 2013.

 

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