Algumas notas sobre Max Weber

 

O trabalho de Max Weber, dotado de uma metodologia rigorosa e uma interpretação profunda, sobreviveu às frenéticas mudanças sociais do longo século XX e mantém-se atual. Nestas notas biográficas também se esboça as principais ideias desse notável jurista, economista e sociólogo.

Vida

Max Weber (1864-1920) nasceu em uma família de classe média alta em Erfurt, Alemanha. Seu pai, o austero Max Sr. era um jurista e político local e sua mãe era uma devota pietista. Seu irmão Alfred também se destacaria como cientista social. Casou-se em 1893 com sua prima distante Marianne Schnitger (1870-1954), uma inteligente autora feminista que mais tarde cuidaria de publicar seus escritos.

Max foi um aluno brilhante. Da admissão à universidade até sua livre-docência levaram apenas nove anos. Estudou direito nas universidades de  Heidelberg, Göttingen e Berlim. Além das disciplinas jurídicas, estudou disciplinas  de teologia, economia e história medieval. Foi admitido ao Referendbar (semelhante à OAB do Brasil) em 1886 e continuou seus estudos doutorando-se em 1889 e adquirindo a  Habilitationsschrift (livre-docência) em 1891, ambos em direito. Como professor lecionou em Heidelberg, Viena e Munique.

Filosoficamente, vemos em Weber influências de Kant e Nietzsche. De Kant, Weber pressupunha que todo humano é dotado do desejo assumir consciência. De Nietzsche veio seu pessimismo em relação ao mundo. O uso de tipos ideais refletem também a influência do idealismo alemão em Weber.

Com seu sociólogo contemporâneo Werner Sombart (1863 – 1941), Weber dividia interesses e teorias, como buscar as origens do capitalismo e sua relação com minorias religiosas. Ambos defendiam o princípio de entendimento (Verstehen ou metodologia compreensiva) nas ciências sociais. Outro colega com quem Weber trocou influências foi o teólogo Ernst Troeltsch (1965-1923), visível na correlação entre a moral puritana e o capitalismo.

Weber viveu em um período de rápida transformação: o estabelecimento de um serviço público nacional, a acelerada industrialização e mudança dos modos de vida tradicionais, a modernização do eficiente exército prussiano refletindo na burocratização da recém-unificada Alemanha. Ciente dessas alterações, conduziu pesquisas pioneiras de economia agrária, aplicando estatística e trabalho de campo.

Pelas experiências anteriores, Weber tornou-se ativista social, participando do Congresso Social Evangélico a partir de 1890 junto a Adolf Harnack, Friedrich Naumann, Adolf  Stoecker e outros líderes do movimento do Evangelho Social na Alemanha. A atividade política de Weber levou-o a tentar fundir sem sucesso os liberais e social-democratas em um único partido em 1912. Embora suas concepções políticas evoluíram durante sua vida, sempre defendeu o fim da influência dos Junkers, a nobreza latifundiária e militar, em benefício da classe média e a inversão do capital em corporações financeiro-industriais ao invés de em terras. Propôs uma reforma agrária nas regiões orientais  do Império Alemão (Prússia, Pomerânia, Silésia) dominada por grandes latifúndios dos Junkers e com pouca população. Nacionalista, usou seus conhecimentos jurídicos e sociológicos para defender a Alemanha no Tratado de Versalhes e na elaboração da Constituição de Weimar.

Difundiu seus trabalhos em forma de artigos além de A ética protestante e o espírito do capitalismo, o único livro publicado em vida.

Morreria em Munique de pneumonia em consequência da gripe espanhola.

A ética protestante e o espírito do capitalismo

Este ensaio, obra resultante de vários artigos escritos entre 1904-1905, é uma resposta econômico-sociológica a uma questão prevalecente no século XIX: por que as nações protestantes eram as mais ricas da época?

Respostas pré-científicas eram enviesadas, inflamando ânimos: os protestantes defendia um providencialismo, Deus os favorecia e protestantismo era visto como progresso. Os católicos viam o sucesso capitalista e industrial protestante como oriundos da avareza.

Em uma leitura de A ética protestante e o espírito do capitalismo, podem-se selecionar quatro tópicos como centrais para explicar o desenvolvimento do capitalismo entre os protestantes, são a ideologia, a rede de relacionamentos, a austeridade e a racionalidade.

Ideologicamente, os protestantes passaram a ver o trabalho como uma benção, cada um deveria perseguir sua vocação. Todo trabalho é digno, não importa se braçal ou intelectual. Enquanto a ética de trabalho católica primava pelo trabalho intelectual enquanto menosprezaria os ofícios mecânicos. O lucro e os juros, tidos como maléficos e injustos no catolicismo romano medieval, passou a ser legítimo com o protestantismo. Esse conjunto de mentalidades e valores seria o que Weber chama de Geist, o espírito do capitalismo.

A rede de relacionamentos (networking) das pequenas seitas protestantes garantiram confiança em épocas turbulentas da Europa. O crédito cresceu, o corporativismo sectário levaria a fundação de grandes companhias comerciais na Holanda e Inglaterra. Um ponto a ser adicionado seria a possibilidade de fazer negócios com correligionários em diversos países, com a crença transcendendo vínculos étnico-nacionalistas.

A austeridade de algumas vertentes protestantes também foi influente na gênese do capitalismo. Weber destaca os puritanos calvinistas, os pietistas, os anabatistas e quakers – levam ao desapego pelo luxo, dando alta valia para a modéstia. Assim, rejeitavam o mundo. As diversões e ostentações seriam vaidades. Deste modo o capital não é consumido, é reinvestido.

Quanto à racionalidade, seguindo a linha de pensamento de Weber a emergência da cosmovisão protestante levou a rejeição de um providencialismo típico do catolicismo medieval. Os fenômenos teriam causas naturais, as quais poderiam ser compreendidas racionalmente sem apelar para o divino. Dessa forma, a economia passou a ser vista como um ato racional e calculado.

Esse magnífico ensaio de Weber influenciou tanto que muitos interpretam e creem que o próprio João Calvino igualava predestinação com sucesso, sobretudo o financeiro. Mas não. Weber destaca a ética de trabalho protestante, principalmente a calvinista, como uma força atuando de forma não-planejada sobre o desenvolvimento do capitalismo. A busca de segurança psicológica teria feito os calvinistas prosperarem.

A tradução Talcott Parsons (Scribner, 1958) é a mais célebre versão inglesa (embora a escolha de muitos vocábulos fora infeliz, como traduzir o termo alemão Taufer em inglês baptist, enquanto o preferível seria anabaptist), enquanto em português considero a tradução de Antonio Flávio Pierucci  (Companhia das Letras, 2004)  a melhor.

Outras influências

Weber deixou outros legados, como o conceito de “tipos ideais”, como os modelos de dominação: tradicional, carismática e legal-racional. A dominação seria a forma legítima de aceitar imposição coerciva sem contestação.

Também visionou a organização burocrática. A burocracia para Weber baseava-se na eficiência, separando o cargo e a pessoa (impessoalidade), limites das ações pelas normas escritas, valorizando a meritocracia que seria aplicada às empresas quanto ao Estado. Weber possuía uma visão crítica do Estado que, para ele, teria o “monopólio de violência” sobre seu território. O Estado baseado pela autoridade tradicional levaria ao patrimonialismo, no qual os bens públicos se confundem com os bens pessoais. Dessa forma, Weber propôs a burocracia estatal como meio de racionalizar o Estado.

No campo da teoria sociológica, Weber defendeu o antipositivismo metodológico, o Verstehen, buscando o sentido dos fatos sociais ao invés de uma compreensão empirista típica do cientificismo do final do século XIX.

Weber, por defender a isenção do cientista social do ativismo político, permitiu a consolidação do sociólogo como profissional. Antes dele, Marx e Comte só viam a empregabilidade da análise social na transformação da sociedade e assim, indistinguível suas sociologias da ideologia. Weber queria autonomia intelectual, manter-se afastado do controle prussiano e apresentou o sociólogo como neutro, oferecendo seu conhecimento para diferentes aplicações.

O foco da sociologia de Weber era a ação social, atos dotados de significados para seus agentes. Usando sempre alguma tipologia, as ações sociais seriam identificadas pelos seus fins, tradição, valores e afeição. Com o conceito de ação social, Weber tentava explicar as transformações de seu mundo, lançando mão de dados históricos (daí o historicismo) para dar um sentido à modernização do capitalismo industrial. Nessa conjuntura, Max previa um “desencantamento com o mundo” tradicional em benefício de ações cada vez mais racionalizadas.

Pelos exemplos acima, vemos o porquê que a obra e atuação de Weber, diferente dos também notáveis trabalhos de Comte e Marx,  permitiu que as ciências sociais se estabelecessem de forma sólida na academia. Ao invés de buscar leis em fenômenos sócio-humanos, Weber visa a interpretação baseada em pesquisa rigorosa, não baseada na divagação. Obviamente muitos dos conceitos de Weber passaram por críticas e aggiornamento, todavia permanecem merecidamente nos cânones das ciências sociais.

Bibliografia de Weber

WEBER, Max. A situação dos trabalhadores rurais na Alemanha nas províncias do Além-Elba [1892]. In: José  Graziano da Silva e Verena Stolcke (org.). A Questão Agrária – Weber, Engels, Lenin, Kautsky, Chayanov, Stalin. São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 13-57.

WEBER, Max. Max Weber: sociologia (Gabriel Cohn org.). São Paulo: Ática, 1982.

WEBER, Max. Ciência e política, duas vocações. São Paulo: Cultrix, 1972.

WEBER, Max. Economia e Sociedade: Fundamentos da Sociologia Compreensiva. Brasília, DF: Editora da Universidade de Brasília, 2004.

WEBER, Max. Rejeições religiosas do mundo e suas direções [1915]. In: Ensaios de Sociologia (H.H. Gerth e C. Wright Mills org.). Rio de Janeiro: Guanabara, 1982.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo [1905]. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

WEBER, Max. Ensaios de sociologia e outros escritos. São Paulo: Abril Cultural, 1974. (Os pensadores, 37).

WEBER, Max. La Russie en marche vers la pseudo-démocratie [1917]. Revue Française de Sociologie, XXX, 3/4, 1989, p.621-637.

WEBER, Max. Basic concepts in Sociology.  Westport,  USA: Greenwood Press, 1962.

WEBER, Marianne. Biografia de Max Weber. México, DF: Fondo de Cultura Economica, 1995

Introduções sobre Max Weber

ARON, RAYMOND. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Martins Fontes. 2002.

BENDIX, Reinhard.  Max Weber: An intellectual portrait.  Garden City, New York: Doubleday, 1960.

QUINTANEIRO, Tânia; BARBOSA, M. L. de O. OLIVEIRA, M. Um toque de clássicos. Marx. Durkheim. Weber. Belo Horizonte, Editora da UFMG, 2003.

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