Equivocação: ambiguidades em síntese

Desde as categorias de Aristóteles nosso raciocínio ficou enviesado pela análise. O ato de dissecar um objeto ajuda compreendê-lo, mas remova-o de seu contexto e a gente esquece das múltiplas funções que uma coisa possa assumir. A síntese ficou reservada aos resumos. E surgiram muitos chatos.

Ilusão do pato-coelho. Publicada em 1892 em uma revista de humor alemã Blätter, foi empregada pelo psicólogo Joseph Jastrow e pelo filósofo Ludwig Wittgenstein para discutir interpretação e percepção.

A síntese também ajuda a compreender as coisas. Ao ligar uma referência com o operador lógico “E/OU” que inclua vários referentes temos, entre outras coisas, o humor.

“Coitado do José, não deu pra manga.”

O José ficou sem a fruta? Sua camisa ficou curta? O escorregador de emergência não funcionou ou está insinuando que ele estava pastando?

Também a ambiguidade é mãe de um erro típico de cognição e argumento falacioso: a equivocação. Esse erro funciona por atribuir referente possível, porém impróprio, a uma referência:

  • P1. Bispos somente andam nas diagonais.
  • P2. O papa Francisco é um bispo.
  • QED. O papa Francisco somente anda nas diagonais.

Outro problema é a falácia referencial. Muitos pensam que uma palavra corresponda exatamente a uma só coisa existente e que o significado das palavras resida nas coisas às quais elas se referem. É típico dos fundamentalismos.

Sabendo usar (e quando deconstruir), a ambiguidade é um conceito frutífero. O crítico literário William Empson no anos 1930 propôs que a ambiguidade permite visões alternativas que possam ser adotadas sem uma leitura totalmente equivocada. Elencou (ironia, em uma análise) sete tipos de ambiguidades a serem utilizadas criativamente na poesia.

Sete tipos de ambiguidades

  1. Metáfora: quando duas coisas são semelhantes, mas com propriedades diferentes. É semelhante aos conceitos da presunção metafísica e do raciocínio por analogia. Um exemplo, “cabeça-dura cura-se com chuva de pedra.”
  2. Dupla metáforas simultâneas. Dois ou mais significados que poderiam ser resolvido em um. Um exemplo de Shakespeare “como quando, à noite e por negligência, o fogo é avistado em cidades populosas”. Tanto a noite quanto um incêndio negligente seria por si só suficiente para fazer-se notar o fogo.
  3. Duas ideias que estão conectadas através do contexto, mas podem ser dadas em uma palavra simultaneamente. São os trocadilhos. Um exemplo, “não sobrou um fiapo da manga.”
  4. Dois ou mais significados que conflitam, mas se combinam para deixar claro um estado de espírito complicado no autor. “A pior coisa que me aconteceu foi você me amar.”
  5. Quando o autor descobre sua ideia no ato de escrever. Empson descreve um símile que fica a meio caminho entre duas declarações feitas pelo autor. “O colega de trabalho era como muita bula para pouco remédio: muito se dizia a respeito para pouco efeito.”
  6. Quando um texto não é nada claro e os leitores são forçados a produzir sentidos próprios. É típico em literatura ergódica ou livros-jogos.
  7. Duas palavras que dentro do contexto são opostas. São os casos de retrônimos do tipo “A banqueta não ajudava a alcançar o bar”. A banqueta era muito baixa ou muito alta?

SAIBA MAIS

Empson, William. Seven types of ambiguity. 1930.

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