Livros intrigantes: jogos narrativos para quebrar a cabeça

Para quem está entediado com leituras mamão-com-açúcar, há alguns livros cuja estrutura ou design são desafiadores. São obras com narrativas não lineares, possuem elementos extratextuais (muitos deles objetos físico), prosa pós-moderna, alusões de hiperficção com outras mídias, gerando múltiplos níveis narrativos. Pelo caráter interativo entre obra e leitor são chamados de ciberficção ou leituras ergóticas.

Não bastam ler linha a linha e virar a página. Há de ser pró-ativo nesta leitura detetivesca. Além de obras intrigantes, são também peças de arte para integrar coleções. Por isso, vai aqui uma wishlist, uma seleção de livros legais para provocar a imaginação e o raciocínio.

O livro do desassossego de Fernando Pessoa, edição inglesa de Tim Hopkins, The Book of Disquiet

Encontrado entre os papéis póstumos de seu autor, um conjunto desordenado de anotações revelam uma prosa críptica. Não sei se estou falando de Fernando Pessoa que teve O livro do desassossego publicado quase meio século depois de sua morte ou de Bernardo Soares, um quase heterônimo do mestre do Chiado.

Esta poesia em prosa são ensaios que cronicam as observações de um guarda-livros, o Bernardo Soares. Mas a edição que o britânico Tim Hopkins fez, com os textos escritos em objetos como carta de baralho, mapa, um lápis, fotografias, envelopes, peças de quebra-cabeça, dentre outros (são 60 objetos) dão a sensação de desvendar a caixa real legada por Pessoa/Soares.

Dado o caráter artesanal da edição, foram feitos poucos exemplares, já esgotados à época de seu lançamento em 2017.

Mas vale a pena acompanhar o blog do editor: https://thebookofdisquiet.wordpress.com/

Hippolyte’s Island: An Illustrated Novel de Barbara Hodgson

Um escritor comissionado para investigar a existência de algumas ilhas literalmente perdidas: só com esse enredo a história já promete. Mas, considerando que a autora possui formações em arqueologia e design gráfico, além de trabalhar como designer de livro, o resultado foi arrebatador.

Na história o idealista Hippolyte Webb sai em busca das ilhas Auroras, no Atlântico Sul, arquipélago do qual não há mais notícias por dois séculos. Mapas, anotações, ilustrações de instrumentos náuticos ou de ornitologia, suplementados pelas marginálias compõem a narrativa. O livro é publicado em San Francisco pela Chronicle Books (2001).

hyppolites island

Outros livros da autora, no meio veio de diários de viagens e ilustrações, são:

  •  Lives of Shadows (2004) ambientada em uma Damasco destruída pela guerra em 1914 (tristemente fato repetido), o romance contém plantas e outros gráficos;
  • The Sensualist (1998) com desenhos anatômicos que lembram os esboços de Da Vinci ou de Andreas Vesalius em seu De humani corporis fabrica (1543), tema de investigação da protagonista Helen Martin, uma iconógrafa cada vez mais perdida de seus próprios sentidos.
  • The Tattooed Map (1995), nele a protagonista Lydia acorda com um mapa tatuado no pulso. A tatuagem misteriosa começa a crescer e indica um lugar no norte da África. Ela parte com um ex-namorado buscar no Marrocos a solução para esse enigma enquanto registra a jornada em seu diário.

Yabu no Naka (No Bosque e Dentro de um Bosque, No Matagal) de Ryūnosuke Akutagawa

O conto policial contém os depoimentos contraditórios de um lenhador, um monge budista, um caçador de recompensas, um criminoso notório, a jovem decidida Masago recém enviuvada e o espírito do marido assassinado. O conto inspirou um filme de Kurosawa. Publicado em 1922, a versão em português aparece em uma coletânea (Kappa e o Levante Imaginário: Coletânea de Contos) da Estação Liberdade, de 2010.

Filme noturno de Marisha Pessl

Um jornalista investigativo, junto de uma jovem atriz e um traficantezinho, procura pistas sobre o suposto suicídio de Ashley Cordova, a filha de um diretor cinematográfico muito reservado quanto estranho. Bilhetes, recortes de jornais, páginas da internet dão suspense e ação. No Brasil é publicado pela Intrínseca e o Nigth Film deve vir às telas.

filme noturno

Fogo pálido de Vladimir Nabukov

O literato Charles Kinbote presta homenagem à obra póstuma do amigo, o poeta John Francis Shade, fazendo uma edição crítica do poema de 999 versos. A parte em prosa, principalmente nos elementos pré-textuais e nos comentários é a linha (se é que pode se falar em linha) condutora da narrativa.

Lançado nos EUA em 1962, no Brasil é publicado pela Companhia das Letras. O livro serviu de exemplo e teste para o hipertexto, antecendo a leitura da world wide web.

fogo pálido

House of Leaves de Mark Z. Danielewski

Quando Johnny Truant descobre os papéis deixados pelo antigo inquilino de seu apartamento Zampanò sua vida muda. O empregado de um estúdio de tatuagem começa a editar o texto do falecido cego com compulsão em escrever: uma monografia acadêmica sobre um documentário que ele não sabe se realmente existiu. Já o documentário fictício The Navidson Record (e as agruras de Johnny Truant) contém elementos de terror.

O estilo dossiê faz do livro um quebra-cabeças, ainda mais com o editor-narrador não confiável. As diferentes fontes tipológicas e uma diagramação que lembra o Talmud auxiliam a navegação do livro.

A obra foi publicada 2000. Apesar de seu sucesso e tradução para várias línguas, não está disponível em português. É publicado pela Turtleback Books.

house of leaves

The Unfortunates de B.S. Johnson

Um repórter esportivo vai a uma cidadezinha cobrir uma partida de futebol. Embora nunca estivera lá, sua memória parece trazer lembranças do lugar. Começam surgir evidências que já tinha estado na cidade.

Fragmentário como a memória do repórter, o livro consiste de 27 capítulos não encadernados. Somente o primeiro e o último são indicados. A ordem da leitura do desenvolvimento do livro fica a gosto do leitor. Publicado em 1969, foi relançado em 2008, mas ainda sem verão em português.

the unfortunates

Dicionário Khazar: Romance-Enciclopédia em 100.000 palavras de Milorad Pavic

É um romance não linear: escrito como verbetes de uma enciclopédia, conta uma história fictícia desse povo turco que converteu ao judaísmo no final do primeiro milênio. A diversidade das fontes cristãs e muçulmanas ainda aumentam a complexidade dos pontos de vista contraditórios, havendo duas versões, uma masculina e outra feminina, que diferem em um só parágrafo. Originalmente publicado na Iuguslávia em 1984 é uma alegoria da fragmentação nacional dos Bálcãs. Em português foi publicado pela Don Quixote em 1990.

The Selected Works of T. S. Spivet de Reif Larsen

Um prodígio cartógrafo de doze anos ilustra as margens do seu relato de viagem com gráficos, tabelas e mapas. Seu destino é pegar carona para deixar a idílica Montana rumo à Washington, D.C., para receber um prêmio. A obra virou filme dirigido por Jean-Pierre Jeunet (2013).

spivet

Building Stories de Chris Ware

Uma graphic novel composta por 14 tipos de impressos, desde tirinhas, panfletos até um modelo em papel do edifício. Não há uma história única, mas o retrato do cotidiano dos moradores.

building

Destrua este diário de Keri Smith

Se possui (como eu) o sentimento de que livros são objetos sacrossantos que não devem ser marcados, dobrados ou arrancadas as suas páginas, este livro é uma profanidade.

Sua “leitura” consiste em seguir vários comandos que incluem desde amassar até arranhar o pobre coitado.

Wreck This Journal Keri Smith

 S — O navio de Teseu de J.J.Abrams e Doug Dorst

O livro quebra-cabeças fruto da imaginação do cineasta J.J. Abrams (das tramas intrincadas de Lost) é um sucesso. Contém várias narrativas como o livro do evasivo escritor Straka, os objetos que contam a investigação de seu paradeiro, a fofa conversa nas margens do livro de um casal. A popularidade da obra trouxe novamente à tona esse gênero de livros enigmáticos.


Além desses livros, outras obras “sérias” de Jorge Luis Borges, Umberto Eco, Juan Rulfo, Julio Cortázar, Italo Calvino, o Codex Seraphini. O episódio Bandersnatch de BlackMirror é centrado em um livro homônimo, com múltiplas leituras, realizadas pelas escolhas do leitor em diversos pontos decisórios. O RPG também não deixa de ser uma variante desse tipo de leitura.

A atenção ao canal quanto à mensagem é típico da poesia, mas nesse tipo de literatura-jogo a comunicação ganha uma amplitude que vai além da mensagem contida no texto principal. Demonstram a importância do contexto para a criação do sentido.

SAIBA MAIS

https://culture.pl/en/article/poland-and-scandinavia-revive-liberature

AARSETH, Espen J. Cybertext: perspectives on ergodic literature. JHU Press, 1997.

 

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