A inutilidade das contendas

ponto de vista 6 9

A sinistra figura que nas vilas medievais conclamava os aldeões à caça dos judeus, das bruxas e dos albigenses ganhou poder com a mídia de massa. Gutemberg sequer imaginaria que seu invento em menos de um século resultaria na panfletagem que propagaram as cruéis guerras religiosas dos séculos XVI e XVII. Sequer imaginaria que a panfletagem agora deu lugar aos vídeos em redes sociais virtuais do pundit que meneia a cabeça segurando a câmera trêmula falando com uma assertividade impressionante de coisas que dificilmente compreende. E intima o oponente – real ou espantalho – ao debate.

Como no chavão, em uma guerra a primeira vítima sempre é a verdade.

Chamo de discussão sisifosiana aquela não vale a pena entrar, pois o argumento é tão esdrúxulo que seria pretensioso educar o debatedor da pré-escola à universidade em poucos minutos. Nessas discussões as premissas, as operações lógicas e as conclusões – sempre apresentadas sob a aura de fatos – são tão fantasiosas que pertencem ao mundo de Alice.

Entrar em discussões acaloradas em cada controvérsia que pululam a todo minuto é insano a qualquer um que tenha razão.

O primeiro motivo é a provocação infundada. A retórica do polemista geralmente é pobre: antes baseada no canal e no “é verdade porque eu quero” que em uma avaliação crítica de fatos. Para substanciar seu ponto de vista apresenta contra-argumentos: se a Terra é redonda, por que não andamos inclinados visto que somente no polo norte estaríamos em pé sobre o planeta? A cena de fundo – uma multidão em uma manifestação política, uma estante cheia de livros ou bens luxuosos – serve para vindicar a verdade do proponente. A mensagem que ele quer passar é “não discordem de mim, pois tenho apoio das massas, tenho leitura ou tenho grana e você nada disso tem”.

Outro motivo é o desinteresse pela verdade. A preocupação maior é desacreditar o oponente, mesmo que o outro tenha razão.

Infelizmente são poucos os seres que honestamente estão abertos ao convencimento em seu sentido etimológico. Convencer significa vencer junto. Volta e meia esses polêmicos adoram trocar uns beliscões entre si, inflando assim o número de seguidores. Por sua vez, os seguidores gabam-se de seu abestalhado favorito dizendo “oh, fulano humilhou sicrano nesse vídeo. Vixe! Esse meme refutou beltrano”. Mas hipocritamente silenciam quando a resposta contundente os atinge.

O número crescente de sicofantas é necessário tanto para aplaudir o controversista quanto para ser a infantaria de ataque a quem pensa ou se comporta diferentemente. Para eles, o mundo só tem duas categorias: os que pensam iguais a eles e os que não. Chamam de isentões quem percebe a complexidade além do preto no branco, classificando-os como inimigos enquanto louvam mutuamente sua turminha, mesmo quando suas teses são equívocas. Seguem marchando firme em um perigoso pântano da certeza infundada.

Ataques ad hominem alimentam essa disputa. Não basta a ideia alheia estar errada, é necessário apresentar os podres (reais, imaginários, diminutos ou grandes) da pessoa. As acusações recíprocas crescem em uma escalada autodestrutiva. (Como se o erro alheio os fizessem certos). É necessário inflamar os ânimos para destruir os outros – sempre apresentados de forma caricatural e animalesca.

A incapacidade de compreender o próximo também é somada à incapacidade de compreender fenômenos complexos. Platão, conforme a lenda, proibia quem não soubesse geometria de estudar em sua escola, talvez para evitar picuinhas com quem não tem a mínima noção de um método (a matemática e a geometria) para reduzir a complexidade em modelos e linguagens inteligíveis as quais são essas disciplinas. Que se dirá do pessoal de humanas incapaz de operar uma planilha de cálculo, mas arrisca afirmar certezas categóricas? Há quem argumente que seu método é qualitativo e não precisa de ‘positivismos’, mas se perde ao fazer uma simples análise FOFA. Por que não há debatedores de internet se exaltando para calcular a carga de uma ponte?

Como mencionado, matérias expressas pela linguagem matemática são relativamente simples. Engenheiros conseguem debater cálculos, melhores meios e viabilidade de seus projetos sem a interferência de seus objetos de estudos. Já fenômenos humanos -– a política, a economia, a religião, a cultura, o direito e o convívio social -– são mais intricados de se analisar. Afinal, qualquer ser humano tem seu direito à opinião. Os sujeitos desses fenômenos possuem motivações virtualmente infinitas. E eles replicam às observações dos investigadores sociais. Apesar dessa complexidade, há caminhões de ‘especialistas’ dispostos a darem a última palavra acerca desses fenômenos.

Se com os educados, por vezes, é difícil entabular uma discussão produtiva, imagine discutir com quem utiliza a mesma fórmula monocausal para explicar desde o 7×1 até a guerra na Síria.

Espero que conceitos básicos de biologia, da matemática e dos fenômenos sociais sejam internalizados na mentalidade geral em um tempo próximo. Enquanto isso, serão discussões sisifosianas de arrancar cabelos temas como evolução das espécies, políticas econômicas ou direitos humanos com quem não consiga reconhecer as organelas de uma célula, esboçar um gráfico de elasticidade ou diferenciar igualdade, equidade e isonomia.

Embora creia ser vital a disseminação popular da ciência e das humanidades (razão suficiente para blogar), pois muito dos frutos de séculos de estudos ainda não chegaram à vida cotidiana, passei a admitir que não seja pernóstico o refúgio de pesquisadores em torres de marfim. Certa vez, perguntei a um pesquisador –-  autoridade líder a respeito de um eminente pensador medieval -– sobre uma questão histórica das ideias do tal escolástico. Educadamente respondeu que essa não era a área dele, pois estudava o aspecto formal das ideias do pensador. Ofereceu-me emprestado uma tese de um colega que abordava essa perspectiva histórica. Esse silêncio elegante contrapõe-se ao barulho incômodo das panelas precipitadas dos amantes da polêmica.

A serenidade diante da provocação de modo algum indica inépcia para sustentar um argumento. O ponderado pode simplesmente ter conhecimento o bastante para não considerar sério o apelo desinformado do provocador.

As vezes o polemista tem sim alguma boa base, mas a apresenta de forma circense mais para entreter que ilustrar seu público. O célebre conceito de Isaiah Berlin do porco-espinho — o especialista que vê tudo sob a ótica de uma grande ideia — e da raposa — o multifacetado conhecedor que não vê pareidolias nas coisas — é empregado pelo psicólogo Daniel Kahneman para criticar os excessos dos debates dos porcos-espinhos.

Porcos-espinhos “sabem uma grande verdade” e têm uma teoria sobre o mundo; eles explicam eventos particulares dentre de uma estrutura coerente, ficam eriçados de impaciência com quem não enxerga as coisas da mesma maneira que eles e são confiantes em seus prognósticos. Também se mostram especialmente relutantes em admitir um erro (…). São cheios de opiniões e segurança, e esse é exatamente o motivo pelo qual os produtores de TV adoram vê-los em seus programas. Dois porcos espinhos em lados diferentes de uma questão, um atacando as ideias imbecis do outro, dão uma boa mesa redonda.

Por esses motivos é bom policiar-se e evitar contendas infindáveis. Debater somente com interlocutores inteligentes, pacíficos e humildes seria o ideal, porém vivemos em um mundo dominado por uma urgência. A denúncia de Martin Luther King, Jr. de que o silêncio dos justos alimenta a maldade dos ímpios é cada vez mais premente. Diante disso, a quem não quer o desgaste de uma acirrada batalha de insultos, instrua.

SAIBA MAIS

BESTMAN,  Catherine; GUSTERSON,  Hugh (eds.). Why America’s Top Pundits Are Wrong:  Anthropologists Talk Back.  Berkeley: UCPress, 2005.

GOTTLIEB, Alma. Is History Over? How Can Power be Soft? Ask Ulf Hannerz.

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar: duas formas de pensar. Tradução Cássio de Arantes Leite. Rio de. Janeiro: Objetiva, 2012.

LISBOA, Victor. Você é uma raposa ou um porco-espinho? Ano-Zero. Ensaio que demonstra a serenidade de ser ‘raposa’ frente aos conflitos dos ‘porcos-espinhos’, os quais precisam de seus antagonistas para terem voz.

 

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