Wittgenstein: jogos de linguagem e semelhança de família

 

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Semelhança de família: os Habsburgos (e o queixo)

Uma das grandes tiradas filosóficas do século XX foi baseada em algo trivial: sabe quando uma família tem todos algo em comum, mas nenhum traço essencial que os identifique? Uns têm o queixo igual, outros os olhos, somente alguns os lábios semelhantes. Ao conjunto de características compartilhadas (não necessariamente as mesmas características para todos) dá-se o nome de semelhanças de famílias.

O responsável por este conceito foi o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889 —  1951). Dizia ele:

Considere, por exemplo, os processos que chamamos de “jogos”. Refiro-me a jogos de tabuleiro, de cartas, de bola, torneios esportivos etc. O que é comum a todos eles? […], se você os contempla, não verá na verdade algo que fosse comum a todos, mas verá semelhanças, parentescos, e até toda uma série deles. […] Considere, por exemplo, os jogos de tabuleiro, com seus múltiplos parentescos. Agora passe para os jogos de cartas: […] mas muitos traços comuns desaparecem e outros surgem. Se passarmos agora aos jogos de bola, muita coisa comum se conserva, mas muitas se perdem. – São todos ‘recreativos’? Compare o xadrez com o jogo de amarelinha. Ou há em todos um ganhar e um perder, ou uma concorrência entre os jogadores? Pense nas paciências. Nos jogos de bola há um ganhar e um perder; mas se uma criança atira a bola na parede e a apanha outra vez, este traço desapareceu. Veja que papéis desempenham a habilidade e a sorte. E como é diferente a habilidade no xadrez e no tênis. Pense agora nos brinquedos de roda: o elemento de divertimento está presente, mas quantos dos outros traços característicos desapareceram! E assim podemos percorrer muitos, muitos outros grupos de jogos e ver semelhanças surgirem e desaparecerem.

E tal é o resultado desta consideração: vemos uma rede complicada de semelhanças, que se envolvem e se cruzam mutuamente. Semelhanças de conjunto e de pormenor (Investigações Filosóficas, § 66).

Não posso caracterizar melhor essas semelhanças do que com a expressão “semelhanças de família”; pois assim se envolvem e se cruzam as diferentes semelhanças que existem entre os membros de uma família: estatura, traços fisionômicos, cor dos olhos, o andar, o temperamento etc., etc. — E digo: os “jogos” formam uma família. (Investigações Filosóficas, § 67).

O prodígio Wittgenstein teria já entrado para a história quando escreveu nas trincheiras da 1a Guerra Mundial seu Tractatus Logico Philosophicus [1921]. Influenciado por Gottlob Frege, Bertrand Russell e Alfred Whithead, nessa obra enfocou a importância de uma precisão na lógica formal para processar o conhecimento com acuracidade matemática. Buscava ter para cada conceito um termo inequívoco demonstrado logicamente. Tal robusteza formal de seu atomismo lógico influenciou os neo-positivistas (ou adeptos do positivismo lógico) do Círculo de Viena, o qual se formou para examinar o livro de Wittgenstein.

O enigmático Wittgenstein mudaria sua ideia e passaria o resto da vida tentando refutar o Tractatus Logico Philosophicus. Nunca publicaria um livro com rigor sistemático de sua primeira obra, mas em sua póstuma Investigações Filosóficas [1953] abandona a pretensão de que uma lógica formal rigorosa processaria com certeza o conhecimento. Tanto a matemática e a ciência funcionam mecanicamente, pois são jogos arbitrários de palavras. Os significados das palavras são ambíguos e arbitrários e muito das discussões filosóficas na verdade são problemas terminológicos.

Wittgenstein apresenta seu argumento com a teoria da denotação de Agostinho. O teólogo de Hipona argumentava que se aprendiam as palavras ao associá-las aos objetos indicados. Ou seja, uma palavra = um objeto. Porém, Wittgenstein percebeu que muitos termos são polissêmicos. Assim, como defini-los?

Definições essencialistas ou reducionistas são muito restritivas para comportar as exceções. É o caso de conceitos como religião, direito, identidades ou democracia. Tomemos o exemplo da religião, como defini-la. A proposição A “religião é a crença em seres espirituais” (por sinal, parafraseando E.B.Tylor) excluiria religiões não teístas ou imamentistas. A proposição B “religião consiste em rituais sagrados” excluiria religiões sem rituais discerníveis das atividades cotidianas. Mas uma concepção que definisse “Religião é o conjunto das proposições A, B, C…” dentro de um rol limitado abarcaria todas as nuances possíveis do conjunto reconhecido como religião.

Não são somente conceitos nas humanidades e ciências sociais que se beneficiam dessa teoria de Wittgenstein. Na lógica contemporânea, nos algoritmos, no machine learning e na inteligência artificial é possível transcender com as semelhanças de família as limitações da lógica clássica.

SAIBA MAIS

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Trad. Luiz Henrique dos Santos. São Paulo: Edusp, 1993.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. Trad. José Carlos Bruni. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999. Versão online em inglês

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