Voltaire: Cândido ou o Otimismo

Cândido ou o otimismo (2)

Quis matar-me uma centena de vezes, mas ainda amava a vida. Essa fraqueza ridícula talvez seja uma das nossas inclinações mais funestas. Pois há algo mais imbecil do que querer carregar continuamente um fardo que sempre queremos jogar ao chão?– A velha, a Princesa de Palestrina. Cândido, Capítulo 12

VOLTAIRE. Cândido. Clássicos  Abril coleções v 27. Tradução Marcos Araújo Bagno. São Paulo: Abril, 2010 [1759].

A novela satírica de Voltaire é uma sucessão de desgraças. Ainda assim, é o melhor dos mundos possíveis.

A curta obra picaresca vale-se da técnica narrativa do manuscrito encontrado. O sucinto frontispício contém o aviso: “traduzido do alemão, de autoria do sr. Dr. Ralph, com os adendos que se encontraram no bolso do doutor quando morreu em Minden, no ano da graça de 1759”.  Minden, na Vestfália, foi palco da derrota dos franceses pelos prussianos nesse ano. Mais que um recurso literário para dar uma áurea verossímil ao texto, atribuir a autoria a um finado autor era uma malandragem do filósofo iluminista francês para evadir-se da censura. E François Marie Arouet jamais admitiria ser o criador da novela.

A lenda diz que Voltaire escreveu a novela em três dias enquanto esteve em Schwetzingen, na Prússia. Mas uma análise ponderada demonstra que a obra não foi feita às pressas. Publicada por Gabriel Cramer em Genebra, foi um sucesso logo traduzido e plagiado. Antecedendo as fan-fictions, uma dúzia de sequências não autorizadas aparecerem no mercado nos próximos cinquenta anos.

Em resumo, o livro conta os infortúnios de Cândido (trocadilho para puro, inocente e ingênuo) depois da expulsão do palácio por tentar beijar sua amada Cunegundes. Com o otimismo irrenunciável de seu professor, Dr. Pangloss, claramente uma ridicularização da teodiceia de Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). Ridiculariza também as religiões estabelecidas, a ganância por riquezas, a aristocracia ciosa por status, as guerras imbecis (a guerra dos Sete Anos estava em curso) e as tramas políticas absolutistas.

Com uma linha narrativa quase bíblica, Voltaire conta como desde a queda do paraíso, Cândido morre e ressuscita várias vezes. Em 30 curtos capítulos envolve-se em batalhas, viaja para o reino do Eldorado, enfrenta o terremoto de Lisboa, torna-se peão na mão dos poderosos, por fim, reencontra sua amada escravizada no Império Otomano. Dedica-se a uma vida pacata e pragmática com o mote “temos de cultivar nosso jardim”.

SAIBA MAIS

Versão em áudio (francês)

Versão em português

Candide ou l’optimisme

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