José Ingenieros: Mediocracia

O homem sem ideais faz da arte um ofício, da ciência um comércio, da filosofia um instrumento, da virtude uma empresa, da caridade uma festa, do prazer um sensualismo. A vulgaridade transforma o amor pela vida em excessiva timidez, a prudência em covardia, o orgulho em vaidade, o respeito em servilismo. Leva à ostentação, à avareza, à falsidade, à avidez e a simulações medíocres. (El Hombre Mediocre. Cap. I, VII)

As massas de manobras são bem conhecidas dos marketeiros, especialmente para fins políticos ou consumistas. Em uma distribuição normal, a maioria está distante dos extremos: a pessoa de genialidade ou ideais em um polo, de outro lado, os imbecis. No meio, a massa de pessoas medíocres ganha por seu peso quantitativo e são facilmente manipuláveis. Tais observações, bem registrada no teorema do votante médio, foi brilhantemente descrita em um longo ensaio por José Ingenieros

O pensador argentino José Ingenieros (1877 — 1925), um dos próceres da Reforma Universitária de 1918, esperava um futuro de progresso se a sociedade fosse guiada por idealistas (no sentido de sua tipologia), cuja genialidade rompe o marasmo da mediocridade. Contudo, tem consciência que o homem mediano ou medíocre — fruto passivo das circunstâncias — segue indiferente às injustiças (menos as que lhe fere), sem luz própria, achando-se honesto sem ao menos compreender as consequências de seus atos. Não sem razão, na Carta de uma prisão em Birmingham, Martin Luther King, Jr. aponta que o silêncio dos bons é a maior causa dos danos, não o mal de alguns poucos.

Hoje o admirável gado novo fornece seus dados para consumir ordens sobre como pensar, a quem votar, o que comprar, o que desejar, o que detestar. A economia de plataforma aliada à pós-verdade conectou a esfera da mediocridade e o mundo ficou mais perigoso.

O consumo da informação por memes, por micromensagens, por vídeos rasos nivela homogeneamente uma massa medíocre, mas com certeza dogmática de suas próprias crenças. Agregado, o “cidadão de bem” é capaz das maiores atrocidades.

Ingenieros — médico, filósofo da ciência, criminologista e cientista social — viveu o entusiasmo progressista da virada do século XIX ao XX. Seu livro é um prognóstico dos riscos, concretizados na 1a Guerra Mundial e nos movimentos totalitários, fascistas e populistas que a seguiram, da vilania de uma sociedade de massas alienada.

O culto da verdade entra na penumbra, bem como o afã de admiração, a fé em crenças firmes, a exaltação de ideais, o desinteresse, a abnegação — tudo o que está no caminho da virtude e da dignidade.

Em todos os tempos e sob todos os regimes, houve políticos sem vergonha; mas estes nunca encontram melhor clima do que nas burguesias ideais. Onde todos podem falar, os ilustrados se calam; os enriquecidos preferem ouvir os mais vis falastrões.

(…)

Sempre houve medíocres. Eles são perenes. O que varia é o seu prestígio e a sua influência. Nas épocas de exaltação renovadora, eles se mostram humildes, são tolerados; ninguém os nota, não ousam meter-se em coisa alguma. Quando se enfraquecem os ideais e se substitui a qualidade pela quantidade, começa-se a contar com eles. Apercebem então, o seu numero, reúnem-se em grupos, arrebanham-se em partidos. A sua influência cresce à medida que o clima se tempera; e o sábio é igualado ao analfabeto, o rebelde ao lacaio, o poeta ao prestamista.

A mediocridade se condensa, converte-se em sistema, torna-se incontrastável. Quando o ignorante se crê igual ao estudioso, o malandro ao apóstolo, o bufão ao eloquente, o perverso ao digno, a escala de mérito desaparece numa vergonhosa nivelação de vilania. A mediocridade é isso: os que nada sabem, julgam dizer o que pensam, embora cada um só consiga repetir dogmas ou auspiciar voracidades.

(…)

As ciências convertem-se em mecanismos oficiais, em institutos e academias de onde jamais brota a genialidade e ainda se impede que o talento brilhe. Sua presença humilharia com a força do contraste. As artes tornam-se indústrias patrocinadas pelo Estado, reacionário em seus gostos e adverso a toda previsão de novos ritmos ou de novas formas. A imaginação de artistas e poetas parece que se aguça para descobrir as fissuras no orçamento e atravessá-las.

Em tais épocas, os astros não surgem. Fazem greve. A sociedade não necessita deles; basta-lhes a sua corte de funcionários.

O nível dos governantes desce até marcar zero. A mediocracia é uma conspiração de zeros contra unidades.

(…)

Uma apatia conservadora caracteriza esses períodos. Enfraquece-se a ansiedade das coisas elevadas, prosperando, ao contrário, o esforço de suntuosos formalismos.

Os governantes que não pensam parecem prudentes. Os que nada fazem intitulam-se moderados. Os que não roubam são exemplares. O conceito do mérito se torna negativo. As sombras são preferíveis.

Procura-se o originalmente medíocre ou o mediocrizado pela senilidade. Em vez de heróis, gênios ou santos, reclama-se discretos administradores. Mas o estadista, o filósofo, o poeta, os que realizam, pregam e cantam alguma parte de um ideal estão ausentes. Nada têm a fazer.

(…)

As mediocracias negaram sempre as virtudes, as belezas, as grandezas. Deram veneno a Sócrates; o madeiro a Cristo; o punhal a Cesar; o desterro a Dante; o cárcere a Galileu; o fogo a Bruno. E, enquanto escarneciam desses homens exemplares, esmagando-os com a sua sanha ou armando contra eles algum braço enlouquecido, ofereciam o seu servilismo a governantes imbecis ou davam o seu ombro para sustentar as mais torpes tiranias. A um preço: que estas garantissem às classes fartas a tranquilidade necessária para usufruir de seus privilégios.

Cap. VII, I.

Para quem quer ler mais, selecionei um excerto que descreve o homem medíocre e uma sociedade orientada como uma mediocracia.

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OS ARQUÉTIPOS DA MEDIOCRACIA

Os líderes das mediocracia equidistam-se tanto do bárbaro lendário – Tibério ou Facundo – quanto do gênio transmutador – Marco Aurélio ou Sarmiento.

O gênio cria instituições e o bárbaro as viola: os medíocres as respeitam, impotentes para forjá-las ou destruí-las. Esquivos à glória e rebeldes à infâmia, são reconhecidos por uma circunstância inequívoca: seus companheiros não ousam os chamar gênios por temor ao ridículo e seus adversários não poderiam fazê-los sentar no banquinho dos imbecis sem uma injustiça flagrante.

São perfeitos para seu clima. Vislumbram-se na história à mercê de cem cumplicidades. Conjugam em sua pessoa todos os atributos do ambiente que os repuxa. Amolecem-se por equívocas hierarquias militares, por opacos títulos universitários ou pela amendoada improvisação de nobrezas arrivistas. Forjam no seu espírito as rotinas e os preconceitos nos quais se comprimem as crenças da mediocridade dominante. Têm sempre os passos curtos: sua marcha em momento algum pode ser comparada ao voo do condor nem à reputação de uma serpente.

Todas as massas inflam algum exemplar predestinado a possíveis enaltecimentos. Selecionam o protótipo acabado entre os que compartilham as suas paixões e as suas voracidades, os seus fanatismos ou os seus vícios, as suas prudências ou as suas hipocrisias.

Não são privilégios de tal casta ou de tal partido: sua leviandade surpreendente flutua sobre todos os lamaçais políticos. Pensam com a cabeça de algum rebanho e sentem em seu coração. Produtos de seu clima, são irresponsáveis: ontem, de seu vazio; hoje, de sua proeminência, amanhã, do seu ocaso.

São brinquedos sempre de vontades alheias. Entre eles as repúblicas elegem os seus presidentes, os tiranos procuram os seus favoritos, os reis os seus ministros, os parlamentares escolhem seu gabinete. Sob todos os regimes: nas monarquias absolutas e nas repúblicas oligárquicas. Sempre que desce a temperatura espiritual de uma raça, de um povo ou de uma classe, os obtusos e os senis encontram clima propício.

As mediocracias evitam os picos e os abismos. Intranquilas sob o sol meridiano e timoratas durante a noite, procuram os seus arquétipos na penumbra. Temem a originalidade e a juventude. Adoram os que nunca poderão voar ou os que já têm as azas mofadas.

Matilhas forasteiras de medíocres, vinculados pelas correias de apetites comuns, ousam chamar-se partidos. Ruminam um credo, fingem um ideal, arreiam fantasmas consulares, e recrutam uma hoste de lacaios. Isto basta para disputar arregaçando as garras nas prebendas governamentais.

Cada gado elabora a sua mentira, erigindo-a a dogma infalível. Os tunantes somam os seus esforços, para enaltecer a hombridade do seu fantasma: chama-se lirismo a sua inaptidão; decoro na sua vaidade; ponderação a sua preguiça; prudência a sua pusilanimidade; fé o seu fanatismo; equanimidade a sua impotência; distração aos seus vícios; liberalidade a sua aragem; razão a seu emurchecer. A hora os favorece: as sombras se alongam à medida que o crepúsculo avança. Em certo momento, a ilusão cega muitos, calando toda dissidência voraz.

A irresponsabilidade coletiva apaga a quota individual do erro: ninguém se enrubesce quando todas as faces podem reclamar a sua parte na soma de vergonha comum.

Dessas barafundas, emergem uns ou outros arquétipos, embora não sejam sempre os menos imprestáveis.

Vivem durante anos à espreita, esconde-se em rancores políticos ou em prestígios mundanos, lançando-os como graça aos olhos dos inexperientes. Enquanto estão letárgicos por inaptidões irremediáveis, simulam-se proscritos por misteriosos méritos. Clamam contra os abusos do poder, aspirando a cometê-los em benefício próprio. Nos maus tempos, os facciosos continuam ludibriando-se mutuamente, sem que a resignação ao jejum diminua a magnitude dos seus apetites. Esperam pelo seu turno, mansos, sob o torniquete.

Repetem a máxima de De Maistre: “saber esperar é o grande meio de se chegar”.

A expectativa paciente converge para o enaltecimento dos menos inquietantes. Raras vezes um homem superior os arrebanha com pulso vigoroso, convertendo-os em comparsas a prosperar à sua sombra. Quando lhes falta esse dominador absoluto, saem da órbita, como asteroides, de um sistema planetário cujo sol se extingue. Todos confabulam, então, em tácitas transações, prestando o seu ombro, aos que podem aguentar mais elogios, em equivalência de méritos ambíguos. O grupo os infla com solidariedade paroquial. Cada cúmplice se converte em um fio da teia de aranha lançada para captar o governo.

Compreende-se a seleção voraz das facções oligárquicas e o pomposo inchaço do medíocre que elas consagram. Seus comendadores, determinados em purificá-lo de toda mancha pecaminosa, tentam obstruir a verdade, chamando romantismo à sua reiterada incompetência para todos os empreendimentos. Outros denominam orgulho à sua vaidade e idealismo à sua acídia. Porém, o tempo dissipa o equívoco, devolvendo o seu nome a esses dois vícios originários em um mesmo tronco: o orgulho é compatível com o idealismo, mas o primeiro é a antítese da vaidade e o segundo é a antítese da acídia.

Repuxados os líderes de suas latarias, seus cúmplices acabam por moldá-los. Suas cicatrizes chegam a parecer coqueteria, como as rugas das cortesãs. Guiando-os à categoria de árbitros da ordem e da virtude, declaram proscritas as suas velhas pústulas: incondicionalismos para com os regimes mais turvos, paixões fraudulentas de jogador, ridículos infortúnios de “donjuanismo” epigramático.

Os lábios dos aduladores se embeberam naquela água do rio Lete, que apaga a memória do passado. Não advertem que, depois de passar uma vida inteira no vício, todo puritanismo cheira a benzina, como as luvas que passam pelo tintureiro.

Onde prosperam oligarquias, sob disfarces democráticos, prosperam esses pavões reais empolados, tesos pela vaidade: um garoto travesso os esvaziaria se o espetasse ao passar, descubrindo o nada absoluto que estofa seu interior. Vácuo não significa leve.

A tolice nunca foi esquadria de santidade. Sem sangue de hienas, que é necessário aos tiranos, também não possui sangue de águia, próprio dos iluminados. Corre em suas veias uma linfa tonteante, peculiar da estirpe de pavões, requintada na dos reais, ave simbólica, que reúne, candidamente, a tolice e a fatuidade. São termômetros morais de certas épocas: quando a mediocracia incuba frangos, os filhotes de águia não têm atmosfera propícia.

A resignada passividade explica certos enaltecimentos: o porvir de alguns arquétipos se estriba em serem eles admirados contra outros. Fogem para se fazer grandes. Com muitos lustros de andar em confusão, não cancelam as suas culpas. À sua passagem, descobrem-se uma inveterada pusilanimidade que não quer escaramuças com inimigos que os humilharam até sangrar.

Não pode haver virtude sem bravura. Não a demonstra quem se esquiva, com trêmulos afastamentos, à batalha por tantos anos, oferecida à sua dignidade. Essa perda de ânimo não é, por certo, o clássico valor gaúcho dos coronéis americanos.Nem se parece ao gesto do leão, encolhido para dar maior impulso ao salto. Eles vagabundeiam com o “dom de espera do batráquio otimista” de que fala Ramos Mejía.

O homem digno pode emudecer-se quando recebe uma ferida, temendo, porventura, que o seu desdém exceda a ofensa. Todavia, a sua sentença chega com estilo nunca usado para adular nem para pedir, mais ferino do que cem espadas. Cada verbo é uma flecha cujo alcance está na potência de elasticidade do arco. Eis a tensão moral da dignidade. E o tempo não apaga uma sílaba daquilo que assim se diz.

Os arquétipos frequentemente interrompem seus humilhados silêncios com inócuas pirotécnicas verbais. De longe em longe, os cúmplices apregoam alguma lucubração misteriosa, balbuciada ou não, diante de assembleias que, certamente, não a ouviram. Eles não conseguem sustentar a reputação com a qual são expulsos: eles abandonam o parlamento no mesmo dia em que são eleitos, como se temessem ser descobertos, comprometendo os empresários da sua fama.

Completa-se a inflação destes balões, confiando-lhes subalternas diplomacias de festival, em cuja aparatosidade suntuosa pavoneiam as suas ocas vaidades. Seus cúmplices advinham neles algum talento diplomático ou perspicácias internacionalistas, até complicá-los em lustrosas sinecuras, onde se apagam em tíbias penumbras junto ao resplendor dos seus colaboradores mais contíguos.

Nunca desalentadas, as oligarquias continuam mimando esses produtos espúrios, com a esperança de que acertarão um golpe no cravo, depois de dar cem na ferradura. Ungidos emissários junto a uma nação-irmã, a sua casuística de sacristia envenena profundos afetos, como se, por parte de encantamento, germinassem cizânias inextinguíveis nos corações dos povos.

Arquivistas e amanuenses se confabulam para ocultar o fervor dos ingênuos e captar a confiança da rotina. Plutarquinhos, gozando de boa renda, transformam em mel a sua resina, requintado em elogios os seus vinagres mais crônicos, como se hipotecassem o seu engenho, descontando prebendas futuras. Enchem, com inúteis artigos encomiásticos, o vazio do tolo, sem pensar na insuficiência da tramoia. O pavão não parece águia, como a mula não parece corcel: são reconhecidos ao passar, quando mostram a sua crista erétil ou quando fazem ouvir o estalar da sua ferradura.

Sua gravitação negativa seduz os caracteres domesticados: não pensam, não roubam, não oprimem, não sonham, não assassinam, não faltam à missa — que mais?

Quando as facções forjam o Fénix, enaltecem-no como um símbolo perfeito. Possuem cosmético para as suas fisionomias enrugadas: a grandíloqua rançosa dos programas, em cujo fim buscaríamos, imediatamente, a firma de Bertholdo, se os vastos delíquios não traduzissem as prudentes reticências de Tartufo. [Quanto aos programas políticos] É preferível que estejam coalhados de vulgaridades e escritos em péssimo estilo: agradam mais à clientela. Um programa abstrato é perfeito: parece idealista e não lastima as ideias que cada cúmplice julga possuir. De cada cem, noventa e nove mentem da mesma forma: a grandeza do país, os sagrados princípios democráticos, os interesses do povo, os direitos do cidadão, a moralidade administrativa. Tudo isto, se não é falta de vergonha consuetudinária, é de uma tolice enternecedora. Simula dizer muito e não significa coisa alguma. O medo das ideias concretas oculta-se sob o disfarce das vaguezas cívicas.

Não se envergonham de escalar o poder, indo escarranchados sobre ignomínias. Obtemperam a toda vilania para que convenham com o seu objetivo: quando falam de civismo, o seu alento empresta o pântano originário. Sua moral encobre o vício, pelo simples fato de desfrutar. Impelidos por caminhos tortuosos, continuam semeando nos mesmos sulcos. Para aproveitar os indignos, tiveram que se humilhar diante deles, mansamente. As honrarias que não são conquistadas, são pagas com rebaixamentos.

“Não pode ser virtuoso aquele que foi gerado em um ventre impuro” — dizem as Escrituras. Os que sobem fechando os olhos e emaranhando-se em artimanhas de estercorários, sofrendo as apalpadelas dos grosseiros, mentindo a si próprios, para fartar os apetites de toda uma vida, não podem redimir-se do pecado original. Embora, como Faustos insubordinados, pretendam escapar ao malefício dos seus Mefistófeles.

O povo ignora-os: está separado deles pelo zelo das facções. Para se prevenirem contra os achaques indiscretos, retiram-se da circulação: como se de perto não resistissem à revista dos curiosos. Mantêm-se alheios a todos os estremecimentos da raça. Em certas horas, as turbas podem ser seus cúmplices: o povo nunca. Não o consente, porque não existe, sendo substituído por certos que prosperam.

Depositários da alma das nações, os povos são entidades espirituais inconfundíveis com os partidos. Não basta ser multidão para ser povo; não o seria a unanimidade dos servis.

O povo encarna a própria consciência dos destinos futuros de uma nação ou de uma raça. Aparece nos países que um ideal converte em nações e reside na convergência moral daqueles que sentem a pátria mais alta do que as oligarquias e do que as seitas. O povo — antítese de todos os partidos — não se conta por números. Está onde um só homem não se complica no acanalhamento comum: em face das hostes domesticadas ou fanáticas, esse único homem livre, ele somente, é tudo: Povo, Nação, Raça e Humanidade.

Os arquétipos da mediocracia passam pela história com a pompa superficial de fugitivas sombras chinesas. Jamais chega aos seus ouvidos um insulto ou um louvor. Nunca se lhes diz “heróis” ou “tiranos”. Na fantasia popular despertam um eco uniforme, que em todas as partes se repete: “o pavão!”, numa síntese mais definitiva do que uma lápide. O seu trinômio psicológico é simples: vaidade, impotência e favoritismo.

Vivem de exclamações exageradas que só dizem respeitado às formas. A austera sobriedade do gesto é atributo dos homens: a suntuosidade das aparências é prêmio das sombras. Depois de incubar suas ansiedades, trêmulos de humildade diante dos seus cúmplices, enublam-se com fumaças, empavesam-se com fatuidades. Esquecem-se que, orgulhar-se de uma posição, é confessar-se inferior a ela. Acumulam rumores artifícios para alucinar as imaginações domesticadas. Rodeiam-se de lacaios, adotam pleonásticas nomenclaturas, centuplicam os expedientes, pavoneiam-se em trens luxuosos, navegam em complicados mergulhos, sonham com recepções além dos oceanos. Oferecem os dois flancos à ironia risonha dos burlões, pondo, em tudo, certa magnificência da segunda mão, que recorda as cortes e os senhorios de opereta. A sua ênfase melodramática estaria bem em personagens de Victor Hugo e faria cócegas ao egoísmo voltariano de Stendhal.

No seu “adonismo” contemplativo, não cabe a ambição, que é um enérgico esforço, no sentido de acrescentar, em obras, os próprios méritos. O ambicioso quer subir, até onde as suas próprias azas o podem levantar. O vaidoso julga encontrar-se já nas alturas supremas cobiçadas pelos outros.

A ambição é bela entre todas as paixões, enquanto a vaidade não a reabaixe. Por isso, é respeitável nos gênios e ridícula nos tolos.

Embandeiram-se com permanentes grandiloquências. Fingem que existem ideais e se fingem seus sustentáculos: incorrem sempre nos que estão mais em conformidade com a moral de sua mediocracia. Fingem a verdade, às vezes, porque ela entra em todas as partes, sendo mais sutil do que a adulação: mas a mutilam, atenuam-na, corrompem-na com acomodações, com muletas, com remendos que a disfarçam.

Em certos casos, a verdade pode mais do que eles. Ela vem, apesar deles, à luz, e é o seu castigo. Paramentam-se de boas intenções, quando menos forças vão tendo para convertê-las em atos. A tolice inata se revela em seus palavreados puritanos. Torna-se cômica a sua inaptidão em seu disfarce de idealismo: são labéus, os vagos princípios que aplicam, ao compasso de conveniências oportunistas. O tempo descobre os que têm a moral em pedaços para a mostrar: embora do seu pano jamais seja suficiente no corte de um traje para cobrir a sua mediocridade.

São tributários do sétimo pecado capital: na sua impotência está a preguiça. Renunciam à autoridade e conservam a pompa. Aquela poderia polir o mérito, esta adorna a vaidade. Gostam de folgar. Desistem de fazer o muito pouco que poderiam. Evitam todo o labor firme. Apartam-se de qualquer combate, declarando-se espectadores. Podem praticar o mal por inércia e o bem por equívoco. Entregam-se aos acontecimentos por incapacidade de orientá-los.

“Os preguiçosos — dizia Voltaire — não são mais que gentes medíocres, de qualquer gênero que seja”.

Por detestáveis que sejam os governantes, nunca são piores do que quando não governam. O mal que os tiranos fazem é um inimigo visível. A inércia dos poltrões, ao contrário, implica um misterioso abandono da função pelo órgão, a acefalia da morte da autoridade por uma caquexia inacessível aos remédios.

Grande inconsciência é governar povos, quando a enfermidade ou a velhice privam o homem do governo de si mesmo.

A falta de inspirações intrínsecas torna-os sensíveis à coerção dos conspiradores, às pressões dos partidários, às intimidações dos jornalistas, às influências das sacristias. Sua conduta revela a sua debilidade diante de quantos os assaltam e não basta, para dissimular tal fraqueza ou investir-se contra moinhos de vento. Quando chegam ao poder, renunciam-no de fato, convencidos de sua impotência para usá-lo, entregam-se ao curso da corrente, como os nadadores insipientes. Ginetes de potros cujo voltear ignoram, fecham os olhos, e abandonam as rédeas: essa inaptidão para agarrá-las com suas mãos inexperientes, denominam-na “submissão à democracia”.

O favoritismo é uma escravidão diante da centena de interesses que os acossam. Ignoram o sentimento da justiça e o respeito ao mérito. O verdadeiro justo resiste à tentação de o não ser, quando disso lhe advém benefícios. O medíocre cede sempre. Professa uma abstrata equidade nos casos que não ferem a validez dos seus cúmplices; mas se complica, de fato, em todas as suas adulações.

Nunca, absolutamente, pode haver justiça em preferir o lacaio ao digno, o oblíquo ao reto, o ignorante ao estudioso, o intrigante ao cavalheiro, o medroso ao valente. É essa a corruptela moral das mediocracias: antepor o valimento ao mérito.

No favoritismo, atolam-se os que pisam firme e os que rastejam suavemente: como nos medos. Quando o mérito torna público os erros dos arquétipos, estes respondem humildemente que não são infalíveis: mas a sua vileza está em sublinhar a desculpa com oferecimentos tentadores, acostumados como estão a negociar com a honra.

Não pode ser juiz aquele que confunde o diamante com a fanfarrice. Quando se aceita a responsabilidade de governar, “equivocar-se é culpa”, como sentenciou Epíteto. Nas mediocracias, ignora-se que a dignidade nunca chega de joelhos aos pódios dos que mandam.

Repetem, com frequência, o legendário juízo de Midas. Pã ousou comparar a sua flauta de sete caniços com a lira de Apolo. Propôs uma competição ao deus da harmonia, sendo árbitro o velho rei frígio. Ressoaram os acordes rústicos de Pã e Apolo cantou ao compasso das suas melopeias divinas. Todos se decidiram que a flauta era incomparável à lira, todos unanimemente menos o rei, que reclamou a vitória para Pã. Imediatamente cresceram sob os seus cabelos, duas milagrosas orelhas. Apolo ficou vingado, e Pã se refugiou na sombra. O juiz, confuso, quis ocultar as orelhas debaixo da sua coroa. Um camareiro as descobriu; correu a um vale longínquo; cavou um poço e contou ali o seu segredo. Mas a verdade não se enterra: floresceram rosais que, agitados pelas brisas, repetem eternamente que Midas teve orelhas de asno.

A história castiga com tanta severidade como a lenda: uma página de crônica dura mais do que um roseiral. Ninguém pergunta se os crucificadores de Cristo, os queimadores de Brunos e os burladores de Colombo foram velhacos ou amolecidos. A sua condenação é a mesma e irrevogável. A justiça é o respeito ao mérito.

Um Marco Aurélio sabe que, em cada geração, há dez ou vinte espíritos privilegiados, e seu gênio consiste em estimulá-los, a todos. Já um Panza os exclui da sua ilha, fazendo uso somente daqueles que se domesticam, isto é, dos piores como caráter e como moralidade.

São sempre injustos aqueles que escutam o servil, sem interrogar o digno. Os que merecem justiça, nunca pedem favor. Nem o aceitam. Acham natural o fato de os parvos darem preferência aos seus iguais. É exato que a “torpeza do burguês, mortificado pela soberba natural da superioridade, procura consagrar o seu igual, cujo acesso lhe é fácil, e em cuja psicologia encontra meios de ser satisfeito e compreendido”.

Sempre chega a hora em que as injustiças dos governantes se pagam com formidáveis juros compostos, irremissivelmente. Feitas a um só, mas ameaçam a todos. Deixá-las impunes significa ser cúmplice. Cedo ou tarde, saldam-se os seus balanços, embora seus erros nunca sejam reparados. Os arquétipos de mediocracias aprendem em carne própria que por um cravo perde-se uma ferradura.

Como fez a Midas o divino Apolo, os dignos castigam os sem vergonha com a perenidade da sua palavra. Podem errar porque é humano; mas, se dizem verdade, ela permanece no tempo. Essa é a sua espada; porém, raras vezes a desembainham, pois se gasta logo uma arma que se seca com frequência. Quando o fazem, vai direta ao coração, como a do romance famoso.

E o rancor dos lacaios evidencia a segurança da ponta que toca o amo.

Para serem completos são sensíveis a todos os fanatismos. A maioria reza com os mesmos lábios que usa para mentir, como Tartufo. Sendo inseguros de suportar na terra a sanção dos dignos, os medíocres desejariam postergá-la para o céu.

Se estivesse em seu poder, cortariam a língua dos sofistas e as mãos dos escritores. Fechariam as bibliotecas para que nelas não conspirassem engenhos originais. Preferem a adulação do ignorante ao conselho do sábio. Submetem-se a todos os dogmas. Se são coronéis usam escapulários ao invés de espada. Se são políticos consultam o adivinho para interpretar as cartas magnas das nações.

Sob o seu império, a hipocrisia — mais funesta do que a própria falta de vergonha — torna-se sistema. Nesse combate incessante, renovado em tantos dramas ibsenianos, os amorfos se convertem em colunas da sociedade. E o que despe uma sombra parece um sedicioso, inimigo do povo. Todos os avisados golpeiam o próprio peito para prosperar. As hostes de sacristia crescem e crescem, absorvendo, minando, fartando-se com os herpes morais que se intumescem em silêncio, até murchar ignominiosamente a fisionomia de toda uma época.

As mediocracias negam aos seus arquétipos o direito de eleger a sua oportunidade. Amarram-no ao governo quando o seu organismo vacila e o seu cérebro se apaga. Querem o inútil ou o obtuso.

Homens repudiados na juventude, são consagrados na velhice. nessa idade, em que as boas intenções são um cansaço dos maus costumes. Elegem os que se habituaram a ser escravos do seu ventre, comendo até fartar-se e bebendo até se aturdir. Devastam a sua saúde em noites brancas, rebaixando a sua dignidade na insolvência dos tapetes verdes, tornando-se impróprios para todo esforço continuado e fecundo, preparando essas decrepitudes nas quais os rins se fossilizam e o fígado se açucara. Essa é a melhor garantia para o rebanho rotineiro: seu ódio à originalidade o impele na direção dos homens que começam a se mumificar em vida.

Enquanto a velhice vai apagando os últimos rasgos pessoais dos arquétipos seus cúmplices confabulam para ocultar o seu progressivo amolecimento, eximindo-se de toda tarefa e lhes ministrando ingênuas ficções. Pouco a pouco, a carcaça foge de suas residências naturais e se isola. Evita as ocasiões de se mostrar em plena luz, exibindo-se em reduzido número de mostradores, onde os pavões reais podem ostentar, de longe, os cem olhos da Argos postos em sua cauda. Incertos até para pensar necessitam mais do que nunca e do que ninguém dos elogios dos incensadores. A adulação acaba cobrindo-os de lubrificantes. As apologias recrudescem à medida que eles vão desaparecendo com o cérebro minado por vergonhosas enfermidades contraídas no trato de lupanar com as cortesãs.

O crepúsculo sobrevém implacável a fogo lento, gota a gota. É como se o destino quisesse desnudar a sua vaidade: peça por peça, mostrando-a aos outros empeçados, aos que poderiam duvidar, se morressem de repente, sem essa pausada descoloração.

São sombras ao serviço de suas hostes contíguas. Embora não vivam para si próprias, têm de viver para elas. Vivem a mostrar-se de longe, para garantir que existem e evitar até o sopro do ar que poderia dobrá-los, como a folha de um catálogo abandonado às intempéries.

Mesmo que desfaleçam não podem abandonar a carga. Inutilmente o remorso repetirá aos seus ouvidos as clássicas palavras de Propércio:

“É vergonhoso carregar a cabeça com um fardo que não pode levar: cedo se dobram os joelhos, esquivos ao peso”. (III, IX, 5).

Os arquétipos sentem a sua escravidão. Entretanto, devem morrer nela, custodiados pelos cúmplices que alimentaram a sua vaidade.

As casas de governo podem ser um féretro. As facções sabem disto e disputam seus “vices” que ficam à espreita. Seus nomes ficam enumerados nas cronologias, mas desaparecem da história. Seus descendentes e beneficiários se esforçam em vão para dilatar a sua sombra e dela viver.

Basta que um homem livre os denuncie para que a posteridade os amortalhe. Sobra uma só palavra — se é virtuosa, estoica, incorruptível, determinada a sacrificar-se sem olhar para trás, contanto que seja leal à sua dignidade — sobra uma só palavra para apagar as adulações dos palacianos, inutilmente concordando na hora do funeral. Alguns fartos comensais, não podendo lazer referências ao que foram, atrevem-se a elogiar o que poderiam ter sido… julgam que morre uma esperança, como se esta fosse possível em organismos minados pela decadência da juventude e pelo peso da velhice.

É natural que morra com cada um deles a sua turba: revezam-se muitas em cada era de melancolia. A mediocracia tira-as como velhos naipes, cujas cartas já estão marcadas pelos espertalhões, passando a cortar com outros novos, nem melhores, nem piores.

Os dignos alheios às práticas, cujas ciladas ignoram, apartam-se de todas as camarilhas que prosperam à sombra da pátria. Cultivam os seus ideais e deles acendem uma faísca como podem, esperando outro clima moral e preparando-o. E não mancham os seus lábios, proferindo o nome dos arquétipos: seria, portanto, imortalizá-los.


O excerto acima, do capítulo VI, parte 4 , descreve o típico homem medíocre sobre o qual Ingenieros constrói seu argumento.

O original em espanhol, proferido como palestras acerca da psicologia
do caráter na Faculdade de Filosofia em Buenos Aires em 1910, foi um best-seller quando lançado em Madrid em 1913, com tiragem rapidamente esgotada de dez mil exemplares.

A Ícone Editora publica uma tradução de Lycurgo de Castro Santos.

Esta versão coteja a tradução de Miguel Lobato Duclós com o original em espanhol.

Para outra crítica, igualmente contundente, contra o comportamento de manada de pessoas medianas, leiam o clássico A Rebelião das Massas de José Ortega y Gasset.

Uma resposta para “José Ingenieros: Mediocracia

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