Amor ao próximo, ódio ao distante

controle remoto letal

Quantas pessoas você tem coragem de matar agora a distância?

Essa questão, por monstruosa que seja, já faz parte do cotidiano.

Antes era um mero exercício de pensamento de alguém tocar uma campainha e lucrar com a morte de um chinês no outro lado do mundo. Hoje, com um mero clique propaga-se informações que levam à morte, com um mero passeio ao shopping propaga-se doenças mortais e com um controle remoto bombardeia-se gente a milhares de quilômetros.

Nesses cenários, é aterrorizante de como um tiozão do pavê, um adolescente sem ter o que fazer ou operador de drone descansam sem se incomodarem com suas consciências.

Essa consciência cauterizada tem dois lados. De um lado os processos letais estão muito distantes para uma pessoa assumir responsabilidade. Quando nunca se vê a cara para a qual cuja morte tenha contribuído, é fácil seguir adiante. De outro lado, há mecanismos socialmente aceitos de expiar a culpa, justificando-se pelas mais cínicas ideologias.

Sem ver cara, sem ter coração

Convenientemente ao alcance dos dedos e distante o suficiente para não parecer real, uma pessoa normal sente-se confortável para disseminar informações dúbias, contaminação viral por contato ou executar um desconhecido.

Informação falsa

Uma informação falsa ou uma meia-verdade podem ser disseminadas tanto por quem acredita nelas quanto por aqueles que se indignam ou as acham ridículas. A receita de batida de couve com “limão alcalino” que promete dissolver toda a gordura, matar o COVID-19, curar câncer ou sarar feiúra pode dar uma falsa segurança, fazer com que se abandonem tratamentos efetivos ou levar pessoas saudáveis a consumirem substâncias em doses perigosas. E basta invocarem o abracadabra “é natural” que a gororoba passa a ser segura e milagrosa.

Piora ainda quando a fake news segue algum interesse político, econômico, ideológico ou religioso. Há um ataque sistemático contra as instituições. Forçam o descrédito do conhecimento científico, do Estado democrático de direito, dos direitos humanos, dos mecanismos transnacionais de cooperação, dos riscos ambientais, da legitimidade das dores dos que sofrem; enfim, de tudo que garanta um mínimo de coexistência social construtiva.

Com um falso verniz de um raciocínio crítico independente, mas não passando de um contrarianismo teimoso feito uma mula, esse público disseminador escolhe quais evidências considerar, negligencia o bom-senso e assassina a lógica. Vivem no autoengano de que pensam por si próprios, mas limitam-se a reproduzirem ideias alheias. Esses carrascos, experts em nada mas prontos a opinarem sobre tudo, alegremente esperam a ordem do dia do influenciador favorito. Fisicamente isolada, a atalaia da morte já emitiu a sentença fatal a um indivíduo ou toda uma categoria populacional. Uma vez recebida a ordem de quem ou o quê odiar, os soldados digitais sem soldo executam os vereditos clicando ou retransmitindo um meme ou link de vídeo. “Repassem para todos seus contatos, a mídia censurou isso!”

A opinião pública movida por linchamentos virtuais efetiva assassinatos. O genocídio dos rohingya foi gestado dessa maneira. O bullying bem como a mistura tóxica de ansiedade e desalento são receitas para o suicídio. Os Dr. Jenkills, que ao vivo são cordiais, nas redes se tornam os brutais e insensíveis Mr. Hydes.

Quem ama e adora a mentira se reúne nos templos das bolhas das redes sociais eletrônicas, verdadeiras caixas de reverberação, para entoar hinos às distorções e à manipulação. Assim, com sacrifícios humanos rendem culto ao Pai das Falsidades.

Epidemia

Uma epidemia é uma forma violenta de relembrar que a existência humana é sobretudo um fenômeno social. Entretanto, a sacralização do indivíduo a partir do Renascimento, da Reforma, do liberalismo, do capitalismo e de sistema jurídico individualista ignorou que sociedade é mais que uma mera soma de indivíduos. Solidariedade passou a ser uma palavra bonita, mas vazia.

Este sistema social terceiriza as responsabilidades morais. O sujeito pode até ser honesto, mas isso é irrelevante, pois é socialmente aceitável obter seu ganho mediante um sistema injusto e manter sua imagem imaculada. Ninguém é mais culpado pelas externalidades. A miséria é um dano colateral. Ninguém tem culpa do mérito de conquistar coisas com seu próprio esforço ou de ter nascido em um berço rico.

Agora a omissão (e atos comitivos) diante da degradação ambiental e das desigualdades cobra seu preço.

Mesmo confrontando uma pandemia, o egoísmo assassino ainda fala. Em vez de seguir as normas sanitárias correntes, há o indivíduo que sente dotado de direitos absolutos de fazer o que bem entende. Se sente invulnerável, não dá a mínima a outros em risco, se abrigam em chácaras ou iates enquanto forçam seus empregados a se exporem e a ampliarem a pandemia.

Mesmo que não contraia ou contamine alguém, quem fura as regras de isolamento social contribui para a morte de uma pessoa. Isso ocorre principalmente por somar-se em um comportamento de manada que torna legítimo para outros também romperem essas normas. Mascarados em uma coletividade, empurram todos para o precipício.

Na epidemia do coronavírus a estratégia de supressão é a mais realista e com menor custo humano e econômico para maior parte dos países. O isolamento social horizontal como regra dá uma sobrevida aos sistemas de saúde. Obviamente há o custo econômico dessa política prolongada e os riscos de desabastecimento.

Alguns países (Japão, Suécia) estão tentando a estratégia de mitigação, mas contam com fatores que outros países não possuem (população relativamente homogênea, um robusto sistema de saúde, possibilidade de testes em massa, plano de aumento progressivo do isolamento).

Paradoxalmente, países com economias centradas no setor primário e na informalidade dos serviços, com baixos índices de desenvolvimento humano, parecem ser mais propensos de sentir menores efeitos imediatos na economia e a desenvolver imunidade coletiva cedo. Isso se deve ao fato de população não seguir tanto as recomendações de isolamento. A necessidade imediata de se garantir a sobrevivência levaria à população a enfrentar algo que se percebe (a fome) em detrimento de um vírus invisível. O pânico pode se instaurar mais tarde quando a epidemia atingir altos níveis de mortandade. No entanto, não possuem fortes sistemas de saúde, quer privado ou público, tampouco economias formais para contabilizar grandes perdas.

Os bastiões de desigualdade em países em desenvolvimento combinam o pior cenário: interrupção da cadeia econômica, muita gente na rua, alta contaminação, pouco amparo social e crise no sistema de saúde. Esse cenário se repete até mesmo nos EUA onde boa parte da população não tem qualquer forma de seguro-saúde, baixa poupança, está efetivamente excluída da seguridade social e resolve qualquer doença a base de opioides. Hesitações de líderes políticos e da classe empresarial cominando em discursos e práticas ambíguas no caso brasileiro levam o país a juntar-se a esse grupo. Nesses casos, há de se esperar que o impacto do COVID-19 tenda a ser desastroso.

Por ora, quem não quer ser responsável pela morte alheia, fique em casa. E desenvolva atos de graça e solidariedade: perdoe ou amortize dívidas, anime pessoas em quarentena e divida o pão. Depois, nos diversos fóruns e nas eleições cobre por políticas que priorizem um ambiente seguro, mire o fim das desigualdades e que consolidem os sistemas de saúde, de pesquisa científica e de seguridade social.

Uso remoto de armas

Em um condomínio nos arredores de uma cidadezinha um homem de lá seus trinta anos beija a esposa e dá um tchau para os filhos e com sua SUV se dirige ao trabalho. Abastecido de alguns donuts e um café, se acomoda em uma cadeira confortável que faz jus aos melhores gamers profissionais. Recebe a ordem do dia. Checa as imagens das câmeras e os indicadores que demonstram o bom trabalho da equipe de solo. Os drones estão prontos. Direciona o “brinquedo” para as coordenadas geográficas. Despeja uma saraiva inclemente. Precisão cirúrgica. Logo vem a confirmação: alvo eliminado. Seus colegas da sala de apoio o aplaudem. Nenhum sangue aliado derramado. Não liga para quem era o alvo, se civil ou que fez para merecer a sentença. Também não liga se havia outras pessoas nas áreas. Salvar o mundo tem um preço. Toma seu café. Logo retorna ao conforto do lar. E asssim termina mais uma terça-feira.

A distância dos efeitos dos nossos atos é conveniente para separar a ação da moralidade. O executor leva a cabo as ordens sem pestanejar. Não está em risco pessoal. E se um alvo teve uma morte decretada é porque é um terrorista. Simples.

Como o Eichmann em Jerusalém, o retrato que a Hannah Arendt fez do funcionário nazista, não apresenta remorso, mas até orgulho do serviço bem feito de eliminar os indesejáveis. Só está cumprindo ordens.

Ficou politicamente barato provocar a distância e eliminar os inimigos. Enquanto as armas de destruição em massa ganharam a repulsa pública (ninguém quer enfrentar o risco de armas químicas, atômicas ou biológicas saírem do controle esperado), armas com controle remoto ganham cada vez mais aceitabilidade. Sem freios e contrapesos, essas operações (nota bene, não é guerra) passarão de repressivas para preventivas a qualquer pretexto. E seu uso em terras estrangeiras passarão logo para territórios domésticos. Quem sabe provocar um pequeno caos não dá um fôlego no preço de commodities esta semana? Está na hora de executar uma reintegração de posse contra aqueles indígenas que insistem em ficar nas terras que já perderam. Ainda bem que uma equipe de drones sai bem mais barata que um pelotão de choque ou o salário dos jagunços.

Antes das tecnologias de comunicação e de controle remotos já havia instituições sociais isentando os mandantes e os executores de prestarem contas pelos seus atos. Um burocrata que calcula porcentagem de quanto é aceitável uma parcela da população morrer ou a separação da gestão e da propriedade em sociedades anônimas levam ao predomínio de uma lógica utilitarista. O decisor ou o executor não está inserido na matriz social daqueles que serão afetados. Jamais será confrontado ou enfrentará o ostracismo social por seus atos. A tecnologia somente acelerou a capacidade de matar que já existia.

Clicar em um botão de uma arma remota ou assinar uma ordem eletronicamente são rápidos. Dá tempo para jogar golfe no clube de campo e ainda ir com a família assistir o culto da noite.

“Não, você não pode me culpar de forma alguma”

Na canção Who Killed Davey Moore? (1963) Bob Dylan sintetiza como uma sequência de atores – a audiência e profissionais envolvidos no boxe – se exime das embaraçosas perguntas de quem é a responsabilidade pela morte do boxeador. Cada ator envolvido oferece sua apologia para limpar a barra: é mais um esporte, não há intenção de matar, não diga ‘assassinato’, foi o destino, foi a vontade de Deus.

Qualquer coisa, sentimento, crença, propósitos – ainda que nobres – podem ser instrumentalizados para essa cauterização de consciência.

Os componentes ideológicos são vários. Inclui um maquiavelismo que em nome do bem maior torna aceitável destruir aqueles que sequer opção ou chance de resistir possuem. Outros invocam uma heteronomia religiosa e querem impor a outrem as consequências de suas crenças. São falsos profetas que não usam o nome de Deus em vão: usurpam-no para o mal.

A Bíblia adverte contra o abandono da fé original – que no cristianismo tem na centralidade o amor a Deus e ao próximo – para seguir espíritos enganadores e doutrinas de demônios, ensinamentos provenientes de hipócritas e mentirosos, que têm a consciência cauterizada.  (1 Timóteo 4:1,2).

Essa estrutura ideológica possui vários componentes. Entre eles estão um déficit cognitivo e a normalização da violência mediante a figura do monstro.

Déficit cognitivo

O sentimento de invulnerabilidade é um viés cognitivo, mas algumas pessoas ultrapassam-no quando se acreditam autossuficientes. Como no poema, nenhum homem é uma ilha, mas para muitos falta uma imaginação sociológica para compreenderem que estão inseridas em uma teia de relações sociais e ecológicas. O que afeta um pode afetar a todos. Entretanto, circunscritos em seus próprios mundos e usando uma linguagem eufemística para minimizar ou afastar riscos essas pessoas não conseguem compreender como funciona a realidade de fenômenos emergentes além dos indivíduos.

O novo tribalismo proporcionado por mídias e redes sociais interconectadas não só agregou pessoas que pensam similarmente, mas deu voz, articulação política e confirmação de ideias que antes só existiam entre indivíduos isolados. Não seria de se espantar que nesse processo de conexão de indivíduos, pessoas com dificuldades de compreender coisas complicadas passassem a cooperar e se sentirem qualificadas a opinar desde a geometria dos sólidos até a simbiose nas fossas abissais. E como no dito de W. I. Thomas, as situações socialmente definidas como reais, são reais em suas consequências.

Afetados por esse déficit cognitivo, enxergam uma conspiração em um conjunto de pessoas vinculadas, mas não conseguem entender como um vírus se propaga em um conjunto semelhante de pessoas. Para eles o experimento dos seis graus de separação é imponente para dissipar a certeza de que alguém está tramando e acobertando algo. A “prova” das conexões é a prova da conspiração. No entanto, ignoram os interesses divergentes, os diferentes graus de disponibilidade de recursos e os efeitos imprevistos das ações dos envolvidos. Ignoram também que estamos conectados e que basta um ponto zero para dar a largada de uma epidemia.

O comportamento de manada gerou uma mediocracia na qual predomina o efeito Dunning Kruger. A educação pode mitigar esse problema; mas em bom português, burrice parece não ter cura.

Normalização e patologia

A fuga da responsabilidade com o semelhante subverte a regra áurea. O “amar o próximo” tem agora uma ressalva: “e odiar o distante”. Essa normalização da indiferença é possível porque há uma ideologia que cria uma dicotomia: há gentes normais e há monstros.

O monstro não é humano, é um doente, é um psicopata, não é normal. Só figuras abjetas assim são capazes dos mais odiosos atos.

Para haver alguém normal, necessariamente o comportamento desviante do outro deve ser anormal, patológico.

Não há problema algum para a “gente de bem” ter desprezo pelos velhos ou doentes meio a uma pandemia, pela população de rua no cotidiano, pelos favelados irremediavelmente destinados ao crime, pois inevitavelmente todos vão morrer mesmo.

Pobres, estrangeiros, gente de “cor” vivem uma vida difícil porque querem. Se viram bandidos, ou era natural que assim os tornassem ou porque fizeram escolhas livres e informada. Já o filho traficante da colega de tênis é um dependente químico, coitado. Aquela tia que pega coisas em butiques e esquece de pagar acabou de se internar em um spa para tratar a cleptomania. Ler A causa secreta de Machado de Assis ou jogar videogames violentos são perigosos, pois está claro que são as causas que levaram o anjinho a fazer maldade com os priminhos. O médico celebridade que abusa de suas pacientes não pode ser normal. Aquele executivo que tem impulsos por menores precisa de compaixão e tratamento, não cadeia.

A patologização da responsabilidade e do caráter é ideológica. Assim como a drapetomania, a existência de sociopatia ou psicopatia é contestada, mas permanece em diversos manuais (mais jurídicos que psicopatológicos, por sinal). Uma razão disso é porque funciona como uma etiqueta conveniente para colar naqueles indesejáveis que cometem atos hediondos, mas que são inconvenientemente similares a nós.

Contraditoriamente, há um consenso de se admitir fatores biológicos ou estruturais para o comportamento. O medo de um possível determinismo torna a etologia um tabu. Contudo, a arbitrariedade de se atribuir razões patológicas para excluir o monstro de seu círculo social demonstra o quanto estamos dispostos a aceitar teorias deterministas para enquadrar aqueles que, de alguma forma, nos são próximos ou amamos.

Sobrevivência em um mundo plural

O mundo passou a viver com um processo de estruturação social descentralizado. Há uma complexa rede logística servindo uma arquitetura de consumo e, consequentemente, uma construção social distribuída envolvendo uma população globalmente íntima. Com isso, cada indivíduo passa ter a agência de afetar a vida alheia. Tal como nas antigas sociedades “off lines”, não há de esperar que todos vivam sem violar os preceitos morais de boa vizinhança. Portanto, devemos aprender a conviver com um pluralismo, mesmo que nesse pluralismo haja pessoas “normais” dispostas e até alegres de cometer as maiores monstruosidades. Entretanto, esses comportamentos desviantes não devem ser tolerados.

Há sim remédios que coibiriam pessoas de tocar a campainha mortal.

Um desses remédios é o reforço de valores comuns. A dignidade da pessoa humana é um desses valores comuns que serve para pautar essa nova sociabilidade.

Deve-se tornar senso comum a empregadores, sócios em potencial ou outros selecionadores que uma pessoa disposta a furar quarentena não seria alguém mais leal à organização. Trata-se de gente disposta a ferrar com todos por seus interesses mesquinhos.

Como nas peças A assembleia das mulheres e Lisístrata de Aristófanes, é bom-senso não se envolver afetivamente com gente que alimenta guerras. O sistema de valores de quem apoia a violência, ainda que sempre com algum pretexto “justificável”, será o mesmo a orientar abusos em um relacionamento.

Dar ouvido, credibilidade ou mesmo um pouco de seu tempo a quem propaga coisas perniciosas corrói sua alma. Melhor coisa é nem se indignar, mas os ignorar.

A quem se arrependa de todo o mal perpetrado remotamente, há medidas simples para viver sem pecar mais. Antes de propagar alguma informação ou avalizar opiniões nas redes sociais, cheque-as em ao menos duas fontes fiáveis fora de sua bolha. Pense em sua saúde, pense na saúde dos outros, fique em casa e siga as recomendações dos que estão na linha de frente em uma epidemia. Não seja um carrasco cego e aperte botões que afetam negativamente a vida alheia, mas demande responsabilidade moral de quem lhe repassou a ordem.

Se somos impotentes para com um só clique resolver todos os problemas do mundo de uma só vez, de outro lado, somos capazes de filtrar e exigir maior comportamento ético, veraz e solidário.

Amor ao proximo odio a distancia. infografico

Post scriptum

Meu amigo e leitor crítico Ricardo Slavec Abreu lembrou das provocações iconoclastas de Nietzsche em Assim falou Zaratustra. A facilidade em amar a quem nos é afetivamente ou por interesses próximos se contrapõe ao amor custoso de ver o Outro como semelhante e tratá-lo com igual dignidade.

DO AMOR AO PRÓXIMO

Sois pressurosos em acudir ao próximo e tendes bonitas palavras para isto. Mas eu vos digo: o vosso amor ao próximo é o vosso mau amor por vós mesmos.

Fugis para junto do próximo a fim de fugir de vós mesmos e desejaríeis fazer disto uma virtude; mas eu vejo claro em vosso altruísmo.

O tu é mais antigo do que o eu; o tu foi santificado, mas o eu ainda não: assim, o homem se apressa em acudir ao próximo.

Aconselho-vos o amor do próximo? Ainda prefiro aconselhar-vos a fuga do próximo e o amor do distante!

Mais alto do que o amor do próximo está o amor do distante e futuro; mais alto, ainda, do que o amor ao homem, reputo o amor às coisas e aos fantasmas.

Esse fantasma que corre à tua frente, meu irmão, é mais bonito do que tu; por que não lhe dás a tua carne e os teus ossos? Mas tens medo e corres para o teu próximo.

Não vos suportais a vós mesmos e não vos amais bastante: então, quereis induzir o próximo a amar-vos, para vos dourardes com seu erro.

Eu desejaria que não suportásseis qualquer espécie de próximo e seu vizinho; seríeis forçados, destarte, a criar o vosso amigo, com seu coração transbordante, tirando-o de vós mesmos.

Quando quereis falar bem de vós, convidais uma testemunha; e, quando aliciastes a pensar bem de vós, vós mesmos pensais bem de vós.

Não mente apenas aquele que fala contrariamente ao que sabe, mas, principalmente, aquele que fala contrariamente ao que não sabe. E é assim que falais de vós no trato com o vizinho, mentindo a vós do mesmo passo que a ele.

Assim fala o louco: A convivência com os homens perverte o caráter, especialmente quando não se tem caráter.

E este vai ter com o próximo, porque está à sua própria procura, e aquele, porque desejaria perder-se. O vosso mau amor por vós mesmos transforma, para vós, a solidão em cárcere.

São os distantes que pagam por vosso amor do próximo; e, já quando cinco de vós estão juntos, há sempre um sexto que deve morrer.

Também não gosto de vossas festas: demasiado comediantes encontrei nelas e mesmo os espectadores portavam-se, amiúde, como comediantes.

Não o próximo, eu vos ensino, mas o amigo. Que seja o amigo para vós, a festa da terra e um presságio de super-homem.

Eu vos ensino o amigo e seu transbordante coração. Mas é preciso que saiba ser uma esponja, quem quer ser amado por corações transbordantes.

Eu vos ensino o amigo, que traz dentro de si o mundo pronto, um invólucro do bem – o amigo criador, que tem sempre um mundo pronto para dar de presente.

E, tal como se desenrolou todo, enrola-se de novo, o mundo, para ele, em voltas sucessivas, como o nascer do bem pelo mal, como os fitos surgindo do acaso.

Que o futuro e distante sejam, para ti, a razão de ser do teu hoje: no amigo, deves amar o super-homem como a tua razão de ser.

Meus irmãos, eu não vos aconselho o amor do próximo: aconselho-vos o amor do distante.

Assim falou Zaratustra.

NIETZSCHE, Friedrich.  Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.


Como citar esse texto no formato ABNT:

Citação com autor incluído no texto: Alves (2020)

Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2020)

Referência:

ALVES, Leonardo Marcondes. Amor ao próximo, ódio ao distante. Ensaios e Notas, 2020. Disponível em: https://wp.me/pHDzN-53d . Acesso em: 20 jul. 2020.

2 respostas para ‘Amor ao próximo, ódio ao distante

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