O Mandarim

No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?

Há obras raras que retratam tão bem uma época quanto abordam temas atemporais. Uma delas é O Mandarim de Eça de Queiroz (1845-1900) que retrata tanto as maravilhas de um fin-de-siècle com tecnologias globais quanto os dilemas da moralidade de agir eticamente sem ser observado. O protagonista Teodoro é o único personagem cujas ações se desdobram através da narrativa. No meio do dilema desse Fausto moderno, até o nome dele é simbolicamente irônico: Teodoro significa “dádiva de Deus”, só que em Deus ele não crê, ainda que seja devoto de Nossa Senhora.

Esse amanuense mal-pago tem sua vida transformada quando encontra um livro misterioso com a proposta de possuir tudo que desejasse: dinheiro, fama e mulheres. Tudo isso por um preço módico, a vida de um homem distante, um mandarim na China imperial.

A vida de Teodoro assemelha com a de outros trabalhadores de escritório antes das máquinas de escrever, copiadoras e computadores. Flaubert, grande influência sobre Queiroz, escreveu nessa época o romance cômico Bouvard et Pécuchet, no qual dois amanuenses que enriquecem rapidamente decidem gastar o tempo da bonança copiando à mão todo o conhecimento disponível. Outro entediado copista, Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville, retrata a angústia da depressão até a morte. No Brasil, Lima Barreto mistura registros autobiográficos e ficcionais de uma vida sem grandes expectativas de um amanuense em suas Memórias do Escrivão Isaias Caminha. Ainda tivemos O Amanuense Belmiro, o velho profissional da tristeza de Cyro dos Anjos. Em suma, na época ser amanuense era o subemprego sem graça do letrado.

Em uma narrativa dentro de uma peça, o autor-narrador explica o propósito da história, “repousemos do áspero estudo da realidade humana”.

O impacto da modernidade é retratado nessa novela pelas finanças internacionais, logística transoceânica e imperialismo da virada do século. Todavia, Eça de Queiroz não poderia imaginar que um dia seria possível determinar a vida e a morte de alguém bastando apertar um botão. A questionável moralidade dos drones militares parece caber aqui.

Singular entre os escritores de expressão portuguesa do século XIX, Eça ambienta sua história em diferente locais na Europa e na Ásia, em um frenético ritmo de aventura. O enredo inicia em Lisboa, desenvolve em Paris, atinge um clímax na China para se resolver na Europa. A variedade de cenários resulta tanto das viagens de Eça no serviço diplomático, mas também de um gênero em voga, o das descobertas e aventuras. Eram os tempos de Jules Verne e Edgar Burroughs (lembrem-se que Queiroz traduziu As minas do Rei Salomão desse escritor).  À época da primeira edição do livro em 1880, Eça de Queiroz já tinha sido diplomata acreditado em muitos lugares da narrativa: da sede de negócios estrangeiros em Lisboa, até Paris e a China.

Ao ler o excerto acima, uma figura sinistra do tipo de Mefístoles aparece junto de Teodoro vestida como um homem de negócios. Com argumentos sutis, a aparição incita-o a soar a campainha. E ele o faz.

Alguns dias mais tarde, Teodoro herda uma fortuna de um oficial chinês desconhecido a quem, suspeita, matara a distância. O ex-escrivão muda-se para uma mansão e rapidamente se torna parte da elite portuguesa. Sutilmente, Teodoro abomina tanto a aristocracia decadente quanto o clero materialista que o incomoda demandando dinheiro. Mas sua alma não encontra mais a paz.

Pode-se ler a novela completa. A premissa de um “bouton du mandarin” é atribuida a Rousseau. Provavelmente Eça escutou a expressão quando esteve em Paris.

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