Lucrécio e A Natureza das Coisas

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O POETA

Lucrécio, Poeta – por Marcel Schwob[1]

Lucrécio[2] apareceu em uma grande família que se afastou da vida civil. Viveu seus primeiros dias na sombra de um átrio obscuro de uma casa alta erguida nas montanhas. O átrio era severo e os escravos mudos. Cercou-se desde a infância pelo desprezo pela política e pelas pessoas. O nobre Mêmio, de sua mesma idade, suportou na floresta os jogos que Lucrécio impunha-lhe. Juntos admiraram as rugas das árvores antigas e espiaram o temor das folhas sob o sol como um véu verde de luz salpicado de manchas de ouros. Contemplavam frequentemente os lombos rajados dos porcos selvagens que farejavam o solo. Cruzaram tremendo por enxames de abelhas e carreiras de formigas em marcha. E um dia alcançaram, ao sair de um bosque, uma clareira rodeada de carvalhos antigos, tão próximos uns dos outros que um círculo cavava um poço azul no céu. O silêncio daquele refúgio era infinito. Parecia estar em uma grande estrada que subia ao ar divino. Lucrécio se sentiu tocado pelas bênções dos espaços calmos.

Com Mêmio[3] deixou o templo sereno da floresta para estudar eloquência em Roma. O nobre ancião que governava a casa alta deu-lhe um professor de grego e ordenou-lhe retornar somente quando possuísse as artes de desprezar as ações humanas. Lucrécio não o voltou ver. Morrera solitário, execrando o tumulto da sociedade. Quando Lucrécio voltou, trouxe para a casa alta e vazia, a do átrio severo e dos escravos mudos, uma mulher africana bonita, bárbara e má. Mêmio voltou para casa de seus pais. Lucrécio tinha visto as facções sangrentas das guerras, dos partidos e da corrupção política. Ele estava apaixonado.

Pela primeira vez em sua vida estava apaixonado. A mulher africana apoiava contra as tapeçarias das paredes a massa contornada de seus cabelos. Seu corpo inteiro sumia largamente nos divãs. Rodeava as taças cheias de vinho espumantes com seus braços carregados de esmeraldas translúcidas. Tinha uma maneira estranha de levantar um dedo e apertar a testa. Seu sorriso tinha uma fonte profunda e tenebrosa como os rios da África. Ao invés de filar a lã a desfazia pacientemente em pequenos flocos que voavam ao redor dela.

Lucrécio desejava ardentemente derreter-se com esse corpo belo. Apertava seus seios metálicos e colava sua boca aos lábios violeta-escuros. As palavras de amor passaram de um a outro, foram suspiradas, os fizeram rir e se gastaram. Tocaram o véu flexível e opaco que separa os amantes. A voluptuosidade cresceu em furor e quis mudar a pessoa. Chegou até a extremidade aguda que se espalha ao redor da carne, sem penetrar até as entranhas. A Africana se aconchegou em seu coração estrangeiro. Lucrécio se desesperou ao não poder consumar o amor. A mulher tornou-se altiva, melancólica e silenciosa, parecida com o átrio e com os escravos. Lucrécio andava errante na sala dos livros.

Lá desenrolou o livro no qual um escriba tinha copiado um tratado de Epicuro[4].

Em seguida compreendeu a variedade das coisas desse mundo e da inutilidade esforçar-se atrás das ideias. O universo parecia similar aos pequenos flocos de lã que os dedos da africana esparramavam nas salas. Os enxames de abelhas e as colunas de formiga e o tecido movediço das folhas parecia-lhe agrupamento sobre agrupamento de átomos. E por todo seu corpo sentiu um povo invisível e discorde, ansioso por separar-se. As visões pareciam-lhes raios mais sutilmente carnosos e a imagem da bela bárbara, um mosaico agradável e colorido, sentiu que o fim do movimento dessa infinidade era triste e vão. Assim como vira as facções sangrentas de Roma, com suas tropas de clientes armados e insultantes, contemplou os redemoinhos de tropas de átomos vermelhos com o mesmo sangue e que disputavam uma supremacia obscura. E viu que a dissolução da morte somente era uma alforria dessa turba turbulenta que se lança contra outros movimentos inúteis.

Agora bem, quando Lucrécio se instruíra pelo rolo do papiro, no qual as palavras gregas, como os átomos[5] do mundo, estavam entrelaçadas entre si, saiu para o bosque pelo átrio obscuro da casa alta de seus ancestrais. Viu os lombos rajados dos porcos que mantinham sempre os focinhos voltados para a terra. Depois, ao atravessar o bosque, encontrou-se rapidamente no meio do templo sereno da floresta e seus olhos se emergiram do poço no céu azul. Lá repousou.

Dali contemplou a imensidão formigante do universo: todas as pedras, todas as plantas, todas as árvores, todos os animais, todos os homens, com suas cores, com suas paixões, com seus instrumentos, e a história dessas diversas coisas e seus nascimentos, enfermidades e mortes. Entre a morte total e necessária, percebeu com claridade a morte única da Africana. E chorou.

Sabia que as lágrimas provêm de um movimento particular das pequenas glândulas que estão debaixo das pálpebras e que se agitam por uma procissão de átomos saída do coração, quando o próprio coração se comoveu por uma sucessão de imagens coloridas que se desprendem da superfície do corpo de uma mulher amada. Sabia que a causa do amor é a dilatação dos átomos que desejam se juntar com outros átomos. Sabia que a tristeza que causa a morte é a pior das ilusões terrenas, pois a morta tinha deixado de ser desgraçada e de sofrer, de modo que quem a chorava se afligia por seus próprios males e pensava tenebrosa em sua própria morte. Sabia que não ficava de nós nenhuma outra aparência duplicada para derramar lágrimas sobre o próprio cadáver caído aos seus pés. Mas, como conhecia exatamente a tristeza, o amor e a morte e já sabia que são vãs as imagens quando contempladas do espaço calmo onde se encerraria, continuou chorando e desejando o amor enquanto temendo a morte.

Depois disso, retornou à alta casa sombria de seus ancestrais e se aproximou da bela Africana. Preparava uma poção em um recipiente de metal sobre um braseiro. Ela havia também pensado, por sua parte, e seus pensamentos retornava à fonte misteriosa de seu sorriso. Lucrécio olhou a poção ainda fervente. Esta se tornou mais clara e pouco a pouco ficou parecida com um céu nublado e verde. E a bela Africana sacudiu a testa e levantou um dedo. Então Lucrécio bebeu. Imediatamente sua razão desapareceu e esqueceu as palavras gregas do rolo de papiro. E pela primeira vez, ao enlouquecer-se, conheceu o amor — e a noite, por ter sido envenenado, conheceu a morte.


O POEMA

Quer por alegoria ou por devoção, esse belo poema didático louva a Vênus – algo que choca visto o caráter atomista e materialista da obra. Composto em cerca de 7.400 versos hexâmetros heroicos em seis livros o De rerum natura é o principal texto sobrevivente da doutrina epicurista.

Embora aludido por autores como Cícero, Ovídio, Vitrúvio e Quintiliano, uma única cópia do Sobre a natureza das coisas somente seria redescoberta em um mosteiro em 1417 pelo secretário papal e caçador de manuscritos Poggio Bracciolini (1380 –1459). Esquecido, esse tratado de física e psicologia singularmente versificado com boa qualidade não foi discutido nas universidades medievais nem objeto de disputas entre os escolásticos. A partir dessa descoberta, o livro circulou mais ou menos à surdina: era esteticamente valioso demais para ser ignorado e antigo demais para ser censurado, apesar de suas ideias discordantes da doutrina católica e dos dogmas aristotélico-tomísticos.

O crítico literário norte-americano Stephen Greenblatt[6] argumenta que o Renascimento e a modernidade resultam das ideias trazidas à tona pelo De rerum natura. Sua visão científica que contestava o conhecimento fundando na autoridade dos autores antigos proporcionou uma retomada da consideração das causas naturais como meio explanatório dos fenômenos. Dentre seus leitores encontram-se Erasmo, Maquiavel, Giordano Bruno, Montaigne, Gassendi, Spinoza, Rousseau, Voltaire, Hume, Bentham, Schelling, Mill, Marx, Schopenhauer, Nietzsche e Bergson. A moral pés-no-chão da obra influenciou Montaigne, cujos Ensaios contêm mais de cem citações a Lucrécio. Thomas Jefferson era um ávido colecionador, com cinco edições em latim, além de traduções em inglês, italiano e francês. A erudita Lucy Hutchinson (1620–1681) seria primeira a verter o poema inteiro ao inglês, como também fez com maestria alguns trechos John Dryden (1631 –1700) e dele aludiu Edmund Spenser (1553 –1599) no The Faerie Queene, livro IV, canto XX, 44-47.

Uma resposta também em versos, mas de menor qualidade, foi o Astronomicon de Marcus Manilius. Esse poema apologético da astrologia esposa uma visão determinista e estoica do universo. Curiosamente, o livro também foi redescoberto por Bracciolini.

O conteúdo da De rerum natura precede quase que profeticamente a visão de mundo científica contemporânea: lá está o atomismo, leis de conservação da matéria e energia, causas naturais para terremotos e percepção relativa da realidade.

No Google Books é possível ler em português A Natureza das Coisas na tradução de António José de Lima Leitão (1787-1856). No Brasil, a Ediouro publicou uma tradução do literato luso-brasileiro Agostinho da Silva (1986). Outro tradutor português, Luís Manuel Gaspar Cerqueira publicou uma recente edição (Lisboa, Relógio d’Água, 2015)Quem quiser se arriscar com o original latino, o site The Latin Library possui a obra completa.

Estrutura

Conforme o esboço[7] percebe-se sua estrutura típica dos poemas épicos, mas a obra parece ter terminada abruptamente como a Peste de Atenas. Do plano esquemático pode-se ter um panorama de seu conteúdo:

LIVRO I: dispõe sobre a constituição definitiva do universo, que consiste em átomos infinitos que se deslocam no espaço infinito.

PROÊMIO: invocação a Vênus, apelo a Mêmio, plano da obra 1-145

(A) Princípios do epicurismo 146-482

(1) Nada vem do nada
(2) Nada se transforma em nada
(3) A matéria é composta por átomos
(4) O vácuo, o espaço vazio, existe
(5) Tudo resulta da combinação do vácuo e dos átomos

(B) PARTÍCULAS PRIMORDIAIS: sólidas eternas e indivisíveis 483-634

(C) Teorias alternativas 635-920

(1) Heráclito
(2) Empédocles
(3) Anaxágoras
(4) Lucrécio, propriamente

(D) INFINIDADE DO UNIVERSO (matéria e espaço) 951-1117

(1) Infinidade do universo implica em um espaço infinito
(2) Infinidade do espaço
(3) Infinidade da matéria
(4) Refutação da teoria de um universo limitado 1052-1113

LIVRO II: Discorre sobre o movimento e as formas de os átomos, e sua combinação nas coisas.

PROÊMIO: as benções de uma vida simples 1-61

(A) Os movimentos dos átomos 62-332

(1) Movimentos contínuos
(2) Velocidade dos movimentos
(3) Indiferença das ações divinas
(4) Movimento para baixo (gravidade)
(5) O clinâmen 216-293

(B) As formas e efeitos dos átomos 333-729

(C) Ausência de características secundárias dos átomos 730-1022

(1) Cor 730-841
(2) Sensação 865-990

(D) Número infinto dos mundos, formação e destruição 1023-1174

Livo III: sobre a alma, a sua natureza e seu destino.

Introdução: 1-93

(1) Elogio a Epicuro 1-30
(2) Temor à morte 31-93

(A) Natureza da alma 94-416

(1) Material e sem harmonia 94-135
(2) Mente e alma: interação    136-160
(3) Mente e alma: material    161-176
(4) Mente e alma: estruture     177-322
(5) Alma e corpo: inter-relações 323-416

(B) Mortalidade da alma 417-829

(1) Contra a continuidade pós-morte    425-669
(2) Contra a pré-existência da alma    670-783

(C) Ingenuidade do medo da morte 830-1094

(1) Morte: fim das sensações  830-869
(2) A ilusão da imortalidade   870-930
(3) Desejo de prolongar a vida 931-977
(4) Mito da punição pós-morte 978-1023
(5) Causa de infelicidade 1053-1075
(6) Sem motivos para prolongar a vida ou temer a morte 1076-1094

LIVRO IV: Uma perspectiva psicológica

INTRODUÇÃO: O objetivo de Lucrécio            1-25

(A) A natureza dos ‘ídolos’ 26-215

(B) Sensação e pensamento                        216-822

(C) As funções corporais 823-1057

(D) Discussão sobre o amor arrebatador         1058-1287

LIVRO V: A Astronomia

INTRODUÇÃO

(1) Elogio a Epicuro e contra a religião 1-54
(2) Propostas do livro 55-90

(A) O mundo tangível 91-508

(B) Os corpos celestiais 509-770

(C) A história natural da Terra 771-1457

LIVRO VI: Fenômenos naturais

INTRODUÇÃO: 1-95

(1) A ética de Epicuro
(2) Propostas do livro: os deuses e a natureza

(A) Fenômenos atmosféricos 96-534

(1) Raios e trovões                96-422
(2) Tromba d’água                   423-450
(3) Nuvens e chuva 451-534

(B) Fenômenos naturais 555-1137

(1) Terremotos
(2) O volume constante dos mares
(3) Vulcões
(4) Rio Nilo
(5) Lagos contaminados
(6) Fontes
(7) Ímãs
(8) Pestes

(C) EPÍOLOGO: A peste em Atenas (429-427 a.C.) 1138-1286

NOTAS

[1] Marcel Schwob (1867-1905), escritor simbolista francês. Sua Vidas imaginárias (1896) , entre as quais está essa sobre Lucrécio, inspiraram biografias literárias compostas em linguagem típicas da ficção por Jorge Luis Borges e Alberto Savinio.

[2] Titus Lucretius Carus (ca. 99– ca. 55 a.C.)  pouco sabe desse contemporâneo de Júlio César, Catulo e Cícero. Sabe-se que era da família patrícia dos Lucrécios. À parte seu poema, os únicos detalhes biográficos vêm de um verbete nas Crônicas Eusébias de Jerônimo no qual Schwob se inspirou para sua biografia fictícia:

“171a olimpíadas, 5g [99a.C]: O poeta T.Lucrécio nasce. Mais tarde ficou louco devido uma poção amorosa, embora nos intervalos de sanidade escreveu vários livros, os quais Cícero depois editou. Matou-se com suas próprias mãos na idade de 44 anos”.

[3] Provavelmente Gaius Memmius (morto em 49 a.C.) poeta e tribuno do povo. Lucrécio dedicou-lhe seu poema.

[4] O filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.), autor de um livro também chamado de Peri Physeo (A Física ou Sobre a Natureza das Coisas), possuía uma visão materialista e atomista do universo: os deuses não interferiam na vida, a qual se deveria ser aproveitada em sua máxima felicidade por ataraxia— tranquilidade do espírito alcançada pela resignação ao aproveitamento da medida justa e pelo desprezo ao exagero — e  aponia— a evasão da dor —, pois não haveria imortalidade.

[5] Lucrécio atribuiu ao clinâmen, o desvio imprevisível de átomos, e não à volição divina, a causa das coisas na natureza. Compare com o Princípio da Incerteza de Heisenberg.

[6] GREENBLATT, Stephen. The Swerve: How the World Became Modern. Nova Iorque: W.W. Norton, 2011.

[7] Esboço baseado em http://www.csun.edu/~hcfll004/lucrezio.html e http://oll.libertyfund.org/titles/carus-on-the-nature-of-things. Para outra perspectiva geral da obra, leia Lucrécio, um escritor maldito há mais de 2.000 anos.

Tradução do conto de Schwob por Leonardo M. Alves. O título do poema de Lucrécio também pode ser traduzido corretamente como Sobre a Natureza das Coisas, Da Natureza das Coisas, Sobre a Natureza do Universo.

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