Populismo de direita ou de esquerda: qual é o pior?

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O populismo não é uma ideologia política[1], é antes uma estratégia. Ao alimentar medos e anseios, líderes populistas reduzem as populações a uma massa politicamente amorfa que apoia os interesses desses manipuladores. O populismo, sendo multiforme, não respeita o espectro (imaginário, por sinal) de direita-esquerda.

Trata-se de um conceito difícil de delinear que, às vezes, se confunde com a demagogia, a condução retórica das massas. O demagogo, para H.L. Mencken, seria alguém que “prega doutrinas as quais ele sabe não serem verdades para pessoas as quais ele sabe que são idiotas”.  A demagogia fundamenta-se no carisma, enquanto populistas não tão carismáticos utilizam de outros meios para alcançar e se manter no poder. Foram os casos de Maduro, Dilma e Cristina Kitchner que, apesar de não tão populares quanto seus antecessores, mantiveram um discurso populista. A demagogia pode existir tanto na democracia quanto em regimes totalitários. Hitler, Mussolini e Mao Tsé-Tung foram demagogos em regimes autoritários. Já o populismo é um mal presente na democracia.

Na antiga democracia ateniense o demagogo Pisístrato (605 – 527 a. C.) aproveitou da instabilidade interna para escalar e permanecer no poder. Fez guerras, apelou para comoção religiosa, simulou um atentado contra si e distribuiu terras em troca de apoio — tudo isso praticamente dentro da lei. Com essas manobras populistas quase fundou uma dinastia.

Nas democracias modernas a expansão do sufrágio levou ao surgimento do populismo, pois os detentores do poder de outrora tiveram que conquistar votos populares para a continuidade dos privilégios do butim político. Foi assim que o esquema político do Tammany Hall dominou o cenário de Nova Iorque entre 1870 e a I Guerra Mundial, com políticas ambíguas e cabides de empregos para os novos cidadãos, especialmente imigrantes irlandeses e veteranos da Guerra Civil. No Brasil, enquanto o voto era censitário de jure (no Império) e de fato (na República Velha), havia demagogia, mas não populismo. Com o aumento do colégio eleitoral brasileiro pela admissão do voto do analfabeto (então, a maioria da população) e das mulheres, o populismo nasceu no país.

 O populismo se confunde com a demagogia, a condução retórica das massas. Tanto o populismo e quanto a demagogia possuem elementos comuns. Ambos empregam dicotomias “nós versus os outros”, “tradição versus progresso”, “a nova política versus a velha política”. A demagogia fundamenta-se no carisma, enquanto populistas não tão carismáticos utilizam de outros meios para alcançar e se manter no poder. A demagogia pode existir tanto na democracia quanto em regimes totalitários.

Tanto o populismo e quanto a demagogia possuem elementos comuns. Ambos empregam dicotomias “nós versus os outros”, “tradição versus progresso”, “a nova política versus a velha política” e “voltemos aos tempos de glória”. O populista usa tudo isso em uma roupagem de santidade que prega contra as mazelas e a corrupção do grupo oponente, mas com um esmero para ocultar seus próprios defeitos. Esse raciocínio binário reduz a complexidade das discussões políticas e mina qualquer chance de debates. A menos que xingar de petralhas e coxinhas seja algo produtivo.

Nesses discursos populistas, a política de identidade presta um serviço crucial, pois é preciso identificar os legítimos detentores dos direitos ameaçados. Ora os outros são as potências estrangeiras, os imigrantes, os judeus, os hakkas, os ciganos, os muçulmanos, os católicos, os protestantes, os hindus, os homossexuais, os indígenas, os maçons, as elites, os beneficiários de ações afirmativas, os dependentes de programas sociais e quem seja um alvo fácil. Em outros momentos, o Nós são os trabalhadores, os cristãos, os judeus, os muçulmanos, os hindus, os pobres, as classes médias, os negros e outras categorias socialmente imaginadas. Quem é não importa, ter um bode expiatório é o suficiente ao populismo.

O populismo só dá certo porque há pessoas dispostas a acreditar nele como saída viável. A tese de Francisco Wefford[2] que o populismo e enraizou no Brasil a partir de 1945 porque barganhava a promessa de pleno emprego com a manutenção do status quo das classes políticas ainda demonstra estar em vigor. No Brasil de hoje, tanto a situação e a oposição nada faz ou nada fala para fazer mudanças estruturais que acabem com as desigualdades e com a corrupção. Programas sociais são remediais, mas sustenta uma plutocracia que só é rica pela íntima relação com o Estado, e os pobres, esses continuarão pobres, ainda que com iPhones e bolsas de valores irrisórios. Operações policiais contra corrupção são paliativas que simplesmente trocarão as peças para outros entrarem no tabuleiro com o mesmo jogo.

Outra perspectiva, a de Otávio Ianni[3], vê o populismo como a promessa do progresso enquanto se amarram aos valores tradicionais. Foi assim o surgimento do populismo no Brasil e continua do mesmo modo: quem escuta os bolsonaros e wyllys da vida, acha que o país vive uma guerra civil contra a “família tradicional” enquanto ocorre uma caça às bruxas do estilo ugandense aos gays. E não existe coisa melhor para diluir algum tema relevante do que ofuscá-lo com polêmicas ad nauseam. Enfadaram o público com os temas da globalização e ecologia nos anos 1990 e racismo nos anos 2000 até cansarem de pensar. Hoje, inexiste um consenso assentado das necessidades prementes desses tópicos e poucos avanços foram alcançados em questões étnicas e ambientais. Nada há de propostas justificadas para esses temas, políticas públicas sérias, bandeiras que valham a pena defender. Agora, o debate sobre ampliação ou restrição de direitos LGBT tomam conta da agenda populista. Desse modo desviam a atenção pública da discussão de assuntos que deveriam ser prioritários como uma prevenção da criminalidade — especialmente de crimes de colarinho branco e de políticos, cujos impactos são mais danosos.

Sempre acharão novos tópicos de apelo popular. É a política moldada pelos programas de auditório e policiais de TV. É a política ditada pelos institutos de pesquisas. Quer mais segurança? Reduzam-se a maioridade penal, mas não se discutem ressocialização do apenado. Estão descontentes com a política de renda? Cortam-se imposto de renda dos “pobres” e taxam-se os mais “ricos”, mas não cortam as mamatas públicas dos ricos nem prestam contas para onde vai o dinheiro arrecadado. Quer salvar a economia? Mexam aqui, ali nas políticas de créditos, fiscais e monetária, mas nada de fazerem uma auditoria cidadã das contas públicas.

É uma questão inócua reduzir o espectro político a dois polos. Mas é isso que o populismo faz. E populismo é acreditar que só seria possível essa dicotomia.

A quem interessa uma participação política democrática e sincera, o ideal é não ficar em nenhum lado dos campos populistas, mas cobrar políticas concretas e questionar se a postura defendida seria a melhor para o país. Basta perguntar aos partidários do Partido Ecológico Nacional e do Partido da Mulher Brasileira quais são as metas, o orçamento e os meios de efetivação de suas políticas ambientais e femininas para verificar se são populistas.

O populismo brasileiro obliterou tanto as questões que afetam a vida comum que nem mesmo é questionado e os principais partidos fogem de seus compromissos. Quem poderia dizer quais eram as propostas de políticas externas de Dilma e Aécio nas eleições de 2014?

O populismo não é um luxo brasileiro. A Argentina trocou o peronismo dos Kirchners por um populismo de direita de Macri, cujo lema é “Pobreza Cero” e sua promessa é demitir os marajás do funcionalismo público (já escutei essas histórias antes). Os EUA estão divididos entre a nova política, Trump contra Sanders, ou o velho filme, um Clinton contra um Bush — mas em comum todos apela para alguma forma de populismo. Na Finlândia, o populista de direita Partido dos Finlandeses de Timo Soini passou a fazer parte da coalizão desde que se tornou o segundo maior partido no parlamento em 2015 com uma retórica anti-estrangeiros. Na Suécia, os Democratas Suecos de Jimmie Åkesson, ainda que pequenos, fazem barulhos e emperram o governo com questões polêmicas de políticas xenófobas e anti-União Europeia. A Frente Nacional na França, o Ukip no Reino Unido e a AfD na Alemanha estão cada vez mais expressivos alimentando o medo. A Itália já experimentou os anos Berlusconi. Na Índia, o nacionalismo hindu do BJP ganha força mediante o combate a inimigos imaginários. Em um passado não tão distante, o movimento baath nos países árabes, advogando uma política externa nacionalista “não alinhada” e uma visão secularizada do islã, levou a regimes cada vez mais ditatoriais, além de abrir lacunas para o extremismo religioso. Como se vê, o populismo não é bom em nenhum canto do espectro político.

É impossível dizer qual é pior. O populismo praticado por udenistas ou varguistas foi pernicioso como ainda é o praticado pelos populistas para fazer uma “nova política” nem de centro, esquerda ou direita, diga-se Kassab e Marina Silva. Nem vale a pena mencionar o caso do PSDB ou do PT…


[1] Bobbio et al. apresentam bem a dificuldade de definir o populismo:

DEFINIÇÕES DO POPULISMO. — Podemos definir como populistas as fórmulas políticas cuja fonte principal de inspiração e termo constante de referência é o povo, considerado como agregado social homogêneo e como exclusivo depositário de valores positivos, específicos e permanentes. Alguém disse que o Populismo não é uma doutrina precisa, mas uma “síndrome”. O Populismo não conta efetivamente com uma elaboração teórica orgânica e sistemática. Muitas vezes ele está mais latente do que teoricamente explícito. Como denominação se amolda facilmente, de resto, a doutrinas e a fórmulas diversamente articuladas e aparentemente divergentes, mas unidas no mesmo núcleo essencial, da referência recorrente ao tema central, da oposição encarniçada a doutrinas e fórmulas de diversa derivação. As definições do Populismo se ressentem da ambigüidade conceptual que o próprio termo envolve. Para Peter Wills, Populismo é “todo o credo e movimento baseado nesta premissa principal: a virtude reside no povo autêntico que constitui a maioria esmagadora e nas suas tradições coletivas” (Wills em Ionescu-Gellner, 1971); para Lloyd Fallers, o Populismo é uma ideologia segundo a qual “a legitimidade reside no povo” (Fallers, 1964); para Peter Worsley, ele é “a ideologia da pequena gente do campo ameaçada pela aliança entre o capital industrial e o capital financeiro” (Worsley, 1964); para Edward Shils, o Populismo “se baseia em dois princípios fundamentais: o da supremacia da vontade do povo e o da relação direta entre povo e leadership” (Shils, 1954).  BOBBIO, Norberto;  MATTEUCCI, Nicola e PASQUINO Gianfranco.  Dicionário de política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998. P.980.

[2] WEFFORT, Francisco C. O populismo na política brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

[3] IANNI, Otavio. O colapso do populismo no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

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