Navegando com O Navio de Teseu

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***Sem spoilers***

A quem gosta de hipertextualidade, mistério e encadernações colecionáveis, chegou agora em português o livro de suas ambições: O Navio de Teseu.

O Navio de Teseu é uma metaficção rica em intertextualidade. Nesse hipertexto de fazer inveja a Umberto Eco e remeter ao Fogo Pálido de Nabokov, o sentido da narrativa é construído por várias camadas textuais e pontos de vistas: o do autor Straka (fictício), o do editor/tradutor (igualmente fictício) Caldeira, a marginália dos leitores (fictícios) Eric e Jen, dois estudantes de literatura em uma (fictícia) universidade pública interiorana dos EUA e, por fim, os encartes. Os objetos em vários tipos de papel formam encartes que providenciam informações para construir o contexto interpretativo.

O suposto Straka é um autor evasivo com implicações políticas. Tão esquisito e averso ao público quanto J.D. Salinger ou Thomas Pynchon, o autor ficcional teria desaparecido deixando o manuscrito para seu editor Caldeira publicar em 1949.

Em 2012, decididos a desvendar o mistério sobre Straka, os dois leitores usam anotações nas margens do livro para conversar  entre si. Os objetos no livro, inclusive um disco cifrado intitulado roda de Eötvös, ajudam a montar o quebra-cabeça enquanto há uma sinistra figura que persegue o ex-pós-graduando Eric.

Concebido pelo cineasta J.J.Abrams e escrito por um professor de escrita criativa, Doug Dorst (ponto para o Abrams, poderia não ter dado os créditos e manter Dorst como seu ghostwriter) o livro “próprio” de Straka lembra Moby Dick, o tema de documento ficcional encontrado é um misto de Borges e o thriller sobre literatura de A.S. Byatt, Possession. Seu veio mais popular remete aos livros-jogos de mistérios que tiveram seu momento nos anos 1980 e 1990 e com as obras de RPG.

Como se poderia esperar, as influências dos autores são múltiplas. Em entrevistas, Dorst atribuiu as influências da literatura politicamente conturbada do austríaco Hermann Broch, a profusão literária de Hemingway, a prosa-pesadelo de Kafka e a metaficção do norteamericano Gilbert Sorrentino.

É curiosa outra influência creditada pelos autores, a vida misteriosa do autor B.Traven cuja biografia se mistura com o personagem. Esse escritor esquerdista teria publicado vários livros durante uma vida incógnita exilado no México. Detalhes de sua identidade e autoria de suas obras permanecem ainda em dúvida.

É também um encontro de mídias. A narrativa típica do cinema e seriados hollywoodianos (J.J.Abrams é o responsável por Cloverfield e Lost) encontra-se com o cânon literário que preza por não linearidade.

O livro é um prazer tangível (e acreditem, há quem o lera em e-book na versão inglesa). Seu aspecto de encadernação em tecido (pudera ser de tecido mesmo), gravura da capa em relevo, tipografia em art déco, folhas amareladas e postais vintages do Brasil alimentam uma estética hipster-nostálgica em contramão ao excesso de informação que é o mundo digital. A caixa do livro e o book design, que assemelha ao esmero de Henry van de Velde com a edição de Ecce Homo de Nietzsche, fazem dessa uma peça para coleção.

E vale a pena guardar bem o seu exemplar. O livro originalmente foi publicado em inglês pela Mulholland Books em 2013. Desde então, a Intrínseca desprendeu esforços para fazer uma edição à altura que teve a tiragem de 12 mil exemplares.

E pela logística, dificilmente a Intrínseca fará mais impressões. Em dois anos, a editora contratou o calígrafo Antonio Rhoden, imprimiu o volume na China por não encontrar uma gráfica que produzisse o resultado esperado no Brasil. A tradução feita por Alexandre Martins e Alexandre Raposo concilia bem o registro informal de estudantes universitários acostumados a usar SMS com a linguagem de escritores de pretensões literárias. Os encartes foram feitos parte na China e parte no Brasil e montados a mão meio às páginas. Até a dobradura do jornal e outros papéis remetem a um senso de autenticidade. Uma atenção a detalhes difícil de repetir.

Espero ler aos poucos meu exemplar adquirido logo após chegar à livraria. É a leitura com que pretendo me ocupar nesses feriadões de fim-de-ano. Mas, de antemão, algumas sugestões para o leitor:

DICAS DE LEITURAS

# Sugestão de ordem de leitura:
1-Leia a Nota do Tradutor-Prefácio simultaneamente às notas;
2-Retire todos os encartes (anote as páginas ou veja os locais dela aqui abaixo);
3-Leia o texto de Straka;
4-Escrutine as notas de rodapé do tradutor/editor, Caldeira;
5-Leia as anotações dos leitores ideais Eric e Jen;
6-Retorne aos encartes examinando-os em contexto;
7-Feche o círculo hermenêutico: releia a obra toda.

# Faça suas próprias anotações.

# Como em um labirinto, muitas pistas levam becos sem saídas. Por isso, não fique paranoico com possíveis parâmetros e pistas. Alguns foram feitos para te despistar, outros porque os autores não ligaram os pontos (Lembre-se, J.J. Abrams “se perdeu” no Lost) ou seriam até mesmo meras coincidências.

# Preste atenção ao número 19.

# Desconfie do macaco.

# Fique atento às alusões. Por exemplo, a capa com um navio em um redemoinho lembra o conto de Edgard Allan Poe, Uma descida ao Maelström. Após ler o conto, entenderá muito sobre o capitão  e a história de S.

# O livro mistura referências da filosofia e mitologia com gêneros populares de estórias de aventura, romance detetivesco e narrativas de viagens.

# Sendo uma obra aberta, há várias narrativas possíveis: a de Straka, a do tradutor Caldeira, a das anotações de Eric e Jen e a dos encartes.

# As anotações de Eric e Jen não estão em ordem cronológica. Um método de inferir uma sequência é seguir as cores das canetas.

# Siga a simbologia do S: lembre-se, em inglês Ship of Theseus, além  de ser a única identificação para o personagem desmemoriado de V.M.Straka.

# As referências ao mundo luso — Açores, viagem ao Brasil e personagens de nomes portugueses — dão certa sensação de proximidade ao leitor de língua portuguesa, mas acho que intenção era aumentar o suspense aos leitores não  familiarizados com essa línguas e culturas correlatas.

# Há vários šites e blogs (até uma radiodifusão) em inglês, expandindo a leitura do livro para além das margens. Embora neguem a oficialidade, há elementos publicitários e de fan-ficção que somam peças nesses quebra-cabeças.

# A questão da permanência do Ser. Como permanece o autor-ideal através da obra? Talvez por isso seja intitulada “O Navio de Teseu”, um célebre paradoxo filosófico e ao mesmo tempo alude à nave que levara Teseu ao labirinto do Minotauro:

O navio com que Teseu e os jovens de Atenas retornaram de Creta tinha trinta remos, e foi preservado pelos atenienses até o tempo de Demétrio de Falero, porque eles removiam as partes velhas que apodreciam e colocavam partes novas, de forma que o navio se tornou motivo de discussão entre os filósofos a respeito de coisas que crescem: alguns dizendo que o navio era o mesmo e outros dizendo que não era. – Plutarco. Vida de Teseu 23:1.


 

BÔNUS: PÁGINAS DOS ENCARTES

  1. Carta de Uppsala…………………………………………………..p.VI.
  2. Bilhete manuscrito de um bloco de papel………………p.11
  3. Fotocópia de jornal acadêmico sobre San Tadeo…….p.21.
  4. Jornal universitário………………………………………………p.33.
  5. Telegrama……………………………………………………………p.53.
  6. Clipping de jornal tcheco………………………………………p.69.
  7. Nota em papel de carta verde………………………………..p.87.
  8. Nota de Jen em papel de carta cinza………………………p.101.
  9. Postal do Brasil (12/04)…………………………………………p.113.
  10. Foto de uma parede de pedra…………………………………p.131.
  11. Postal dos pássaros (15/04)…………………………………..p.179.
  12. Postal das palmeiras (18/04)…………………………………p.191.
  13. Postal da praia (19/04)………………………………………….p.192.
  14. Postal com desenhos do Brasil (20/04)………………….p.201.
  15. Carta em papel amarelo………………………………………..p.203.
  16. Foto da mulher no navio……………………………………….p.243.
  17. Cartão com Macaco……………………………………………….p.257.
  18. Clipping com obituário………………………………………….p.257.
  19. Guardanapo com mapa………………………………………….p.307.
  20. Cartão com uma pessoa encapuzada e um pássaro….p.361.
  21. Carta da Jen…………………………………………………………..p.377.
  22. Bilhete em papel azul e branco………………………………p.417.
  23. Roda de Eötvös……………………………………………..contracapa.

9 thoughts on “Navegando com O Navio de Teseu

  1. Olá, esse livro é sensacional. Tb fiz resenha em meu blog. Mas, não identifiquei os 19… vc pode me passar o que encontrou com os tal 19. Achei que era apenas um número, uma especie de “superstição” que temos e nada demais… Isso é legal de S. Cada leitor interpreta de um jeito. O que vc identificou ali. Beijos e parabéns, ótima postagem!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Acabei de terminar de ler o livro. Amei tudo. Okay, não tudo. Mas grande parte. Me prendi o suficiente para até sonhar com as histórias. Rs Mas estou frustrada em não conseguir usar aquela roda de Eotv (sei lá o que ) no texto … #chatiada.

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