Modos de subsistência: a caça e a coleta

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A caça-recolhimento é a forma mais antiga de subsistência, surgida desde o berço da humanidade e dominante até que a revolução neolítica marcou início de outros modos de produção de alimentos. Consiste em coletar frutos, raízes, insetos, ovos e cogumelos e complementar o consumo de proteína com caça e pesca. Propriamente, seria melhor chamado de economia coletora-caçadora. Esse modo de subsistência permitiu a propagação da espécie humana. Mas, hoje outras formas de economia, notavelmente o capitalismo, empurraram os últimos caçadores-coletores para regiões inóspitas – o Ártico, o deserto do Kalahari, o Outback australiano e florestas tropicais (Service, 1971). Atualmente, somente 250 mil pessoas pertencem a sociedades cuja economia primária seja de caça-coleta (Haviland, 1999).

Por tempos chamados de ‘primitivos’, os caçadores-coletores passaram por mudanças como outras sociedades, não sendo fósseis do passado. Todavia, por analogia dão bases para inferir como o ser humano viveu antes de se tornar o próprio produtor de seus alimentos. Antes tidos como fase da evolução cultural humana, hoje considera-se que muitas sociedades pode passar de uma economia para outra. Uns adotam a caça-coleta por estilo de vida, como fazem os survivalists nos parques nacionais da América do Norte e os freeganistas que recolhem alimentos rejeitados em feiras e restaurantes. Outros, menos por opção, aderem à coleta de restos tidos como lixo nas sociedades urbano-industriais. Boa parte de horticultores e pastoralistas também dependem do extrativismo, caça e coleta como complemento de suas subsistências.

Geralmente são sociedades organizadas em bandos – de dez a duzentos membros. A circulação de bens ocorre mediante a economia de dádiva ou reciprocidade. Há pouca diferenciação política interna, consequente sendo igualitárias (com distribuição de bens imediata) ou semi-igualitária (redistribuição retardada), sem possibilidade de acumulação, pois os bens restringem-se a praticamente ao que a pessoa consegue carregar.

A autoridade funciona por persuasão, sem haver líderes permanentes. As diferenças de status — o caçador mais prestigiado, o grande contador de história, os anciãos, a pessoa com mais frequente experiência mística  (o xamã) — pode traduzir-se em influência política, mas sem afetar em diferenciação econômica. Pierre Clastres (1988 [1974]) notou que quando um líder entre os bandos das Terras Baixas da América do Sul torna-se mandão, simplesmente os outros membros ignoram-o ou abandonam seu grupo.

 

Essas sociedades são segmentadas pela divisão do trabalho baseada no gênero e idade, geralmente com mulheres cuidado de coleta enquanto homens caçam. Todavia, os papéis raramente são rígidos. Exceto na divisão do gênero nos rituais, há grande flexibilidade no mundo do trabalho. Certos dias homens acompanham as mulheres na coleta, noutros ambos trabalham com reparos e artesanatos, em épocas mais intensas, as mulheres caçam com os homens, enquanto membros idosos cuidam das crianças. No geral, cada um retém o fruto de seu trabalho, mas com a posse mitigada por complexas normas de redistribuição e reciprocidade.

Pouco há de trabalho especializado, com todos os membros do grupo sabendo realizar quase todas as tarefas. Na educação das crianças a criatividade e aplicação de habilidades são mais valorizados que a obediência ou reprodução de conceitos.

Há exceções nas organizações sociais. Caçadores-coletores da costa oeste do Canadá, em um ambiente copioso de peixes, desenvolveram uma estrutura social de chefatura, com hierarquia de classes, sedentarismo e maior densidade populacional. Em alguns povos, como aeta nas Filipinas, os martu na Austrália e os juǀʼhoan da Namíbia as mulheres caçam a par dos homens. (Kelly, 1995).

As tecnologias tendem a ser simples, com ferramentas multifuncionais, mas há uma variação significante entre os modos de vida e tecnologias dos caçadores-coletores. O arco-e-flecha dos antigos índios da Planície norteamericanos, que caçavam animais grandes como os bisões, contrastam com as boleadeiras dos aonikenk/patagões pampeanos. As ferramentas de pesca e agasalho dos esquimós/inuit distinguem-se drasticamente dos instrumentos de extração de água khoi do Kalahari ou das armadilhas dos okiek no Quênia. No preparo da comida empregam buracos com pedras quentes, moqueação e assados, sem muita dependência em vasilhames e petrechos de cozinha. Povos com intenso contato com outras economias – como os cwa, twa, baka, mbuti e hadza na África – tendem a adotar tecnologias das sociedades vizinhas, adquirindo bens por meio de presentes ou trocas. O cachorro é um dos únicos animais domesticados.

Muitos desses povos conhecem a agricultura e a pecuária. No Brasil o povo tukano vive de uma economia ribeirinha, pescando, comercializando e fazendo roçados às margens de rios maiores na Amazônia. Porém, conforme desenrola a dinâmica populacional e política, alguns grupos dos tukanos deixam as aldeias e passam a morar em pequenos grupos em igarapé menores, vivendo de caça e coleta. Na Austrália é comum aborígenes que trabalham em fazendas de ovelha voltarem para o nomadismo no Outback.

Sahlins (1972, 2009) argumenta que os caçadores-coletores são quem possui mais riquezas: com suas tecnologias conseguem suprir suas necessidades e com menor esforço possível. Se desconsideramos os remanescente atuais impactados pelo colonialismo, os caçadores-coletores geralmente são saudáveis e têm grande parte de tempo livre. E mais, comparados com outros modos de subsistência, os caçadores-coletores possuem maior segurança alimentar. Entretanto, a expectativa de vida tende a ser baixa – em média 37 anos – ,  mas com pouca incidência de mortes por razões violetas (Guenevere; Kaplan, 2007; Sigell, Ember, Ember 1997). [Informação para compartilhar com seu amigo chato que quer viver com uma dieta do paleolítico].

Por vezes os caçadores-coletores foram retratados de forma estereotipada. De um lado, eram os “selvagens”, de outro o “bom selvagem” romântico, ainda assim, selvagens. Nem todas sociedades pré-estatal foram pacíficas. Aliás, Steve Pinker (2012) argumenta — embora haja problemas com suas amostragens — que até eram mais violentas que as sociedades complexas contemporâneas.

No Brasil, os povos do planalto central, maior parte de etnia jê, e os sambaquieiros do litoral viveram como caçadores-coletores até o contato com outros índios (como os povos tupis) ou da chegada dos europeus. Hoje restam poucos caçadores-coletores no país, combinando suas subsistências em diferentes graus com roçados e intercambio com a sociedades circunvizinhas. Desses, a maioria vive na Amazônia, como os awá-guajá, maku, õkãpomaɨ, sanöma, pirahã, zo’é,  e alguns dos isolados da Amazônia Oriental e dos apinajé do Cerrado.

Normalmente são populações nômades ou semi-nômades. Devido às relações simbióticas com o meio, baixa densidade demográfica, não acumulação e conhecimento tradicional adquirido por iteração, as sociedades de caçadores-coletores tendem a ser sustentáveis, com baixo impacto ambiental. Quando a ecologia de uma região torna-se incapaz de sustentar o grupo, ele migrará para novos territórios. É interessante notar que tensões internas, busca de casamentos, pressão de grupos sedentários geralmente são motivos mais fortes para a mudança que propriamente uma exaustão de recursos (Lee, 1984).

Com uma população pequena e com intenso contato social, surgem muitos conflitos, os quais são dirimidos por vários mecanismos, em sua totalidade sem tribunais. Quase toda a população do bando interfere nos processos. O ideal de justiça é integrativo e reparativo, raramente punitivo. Já para as relações com populações externas ao bando, especialmente com grupos étnico diferentes, tendem a ser tensas, por vezes resolvidas com transações ou lutas.

Os caçadores-coletores representam um modo de vida que ocupou boa parte da (pré)história da humanidade. Sem serem fósseis do passado, constituem um modo de subsistência capaz de adaptar-se a diferentes ambientes, desde os mais inóspitos até aos mais frutíferos.

OUTROS MODOS DE SUBSISTÊNCIA

  • Horticultura
  • Pastoralismo
  • Agricultura
  • Industrialismo

SAIBA MAIS

BARNARD, Alan (ed.) Hunter-Gatherers in History, Archaeology and Anthropology. Oxford and New York: Berg, 2004.

CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado – pesquisas de antropologia política. São Paulo: Livraria Francisco Alves, 1988 [1974].

GUENEVERE, Michael; KAPLAN, Hillard (2007). “Longevity amongst Hunter-gatherers”. Population and Development Review. 33 (2): 319. doi:10.1111/j.1728-4457.2007.00171.x.

KAPLAN, David. “The Darker Side of the “Original Affluent Society”, Journal  Anthropological Research 56, no. 3 (Autumn, 2000): 301-324.

KELLY, Robert L. The Foraging Spectrum: Diversity in Hunter-Gatherer Life ways. Washington: Smithsonian Institution, 1995.

LEE, R.B., DALY, R. (eds), The Cambridge Encyclopedia of Hunters and Gatherers. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.

LEE, Richard B. The !Kung San: Men, Women, and Work in a Foraging Society.
Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1979.

LEE, Richard B. The Dobe !Kung: Foragers in a Changing World. New York:
Holt, Rinehart & Winston, 1984.

LENSKI, G.E. ; LENSKI, P. Humans Societies: an introduction to macrosociology. New York, McGraw-Hill 4a ed. 1982.

MORÁN, E. Adptabilidade Humana: uma introdução à antropologia ecológica. São Paulo: EDUSP, 1994, 445 p. / São Paulo: SENAC, 2011.

PINKER, Steve. The Better Angels of our Nature: Why Violence Has Declined. New York: Penguin, 2012.

SAHLINS, Marshall,“Hunter-gatherers: insights from a golden affluent age”. Pacific Ecologist. 18: 3–8. 2009.

SAHLINS, Marshall.  Stone age economics. New York: de Gruyter, 1972.

SEGALL, M. H., EMBER, C. R., e  EMBER, M. “Aggression, crime, and warfare”. Em J. W. Berry, M. H. Segall, e  C. Kagitçibasi (Eds.). Handbook of Cross-cultural Psychology (2nd ed, Vol. 3) (pp. 213-254). Boston: Allyn and Bacon, 1997.

SERVICE, Elman R. Os Caçadores. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.

SILBERBAUER, George B.  Hunter and habitat in the central Kalahari desert. Cambridge: Cambridge, 1981. Resenha em francês.

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