Modos de subsistência: horticultura

Eero Järnefelt

Skogsfinnar (finlandeses da floresta) praticando a queimada. Quadro de Eero Järnefelt.

A horticultura é a produção de alimentos em sociedades em pequena escala. Baseia-se na policultura e na intensidade do trabalho manual.

No final da última glaciação, várias sociedades de bando dominaram os ciclos de cultivo de diversas plantas e a domesticação de animais, e, consequentemente, tornaram-se cada vez mais sedentárias. Surgiram, assim as sociedades horticultoras. Não há ainda uma teoria totalmente satisfatória que explique a transição de caça-coleta para a horticultura no final do pleistoceno (~15.000 a 7.000 a.C). As explicações variam desde o crescimento populacional, o surgimento de demandas acumulação de bens pelos líderes para posterior redistribuição, as mudanças ambientais exigindo novas estratégias para produção de alimentos, o acúmulo das informações a respeito dos animais das plantas.

Essas mudanças coincidem com a revolução neolítica no Velho Mundo, desenvolvendo mais tarde sociedades agrícolas ou pastoralistas, bem como outros modos de subsistência adaptados à ecologia local, como pescadores e horticulturistas contemporâneos. Em complexidade social e tecnológica, as sociedades horticultoras podem ser equiparadas às sociedades pastoris de baixa intensidade e às extrativista sedentárias (silvicultura).

Em média, dependendo do ambiente, um terreno trabalhado com horticultura sustenta 20 vezes mais pessoas que a mesma área dedicada às economias caçadoras e coletoras. Dessa forma, sociedades agricultoras horticulturalistas variam de comunidades entre 30 a 200 pessoas.

A tecnologia dessas sociedades tende a serem menos complexas. São ferramentas multiusos, portáteis. Há enxadas e foices. A tecelagem e a fabricação de cerâmicas e cestos são mais desenvolvidas que as sociedades coletoras-caçadoras.

A sedentarização horticulturista foi a primeira grande revolução social. Como consequência, surge um descompasso de poder. O acesso à terra (não necessariamente surge a propriedade privada da terra, tipicamente encontradas em sociedades de chefatura ou de estado) depende da filiação ou linhagem que acarretam em uma hierarquia interna nas comunidades horticultoras. O parentesco e a proximidade das relações com os chefes de família determinam o status dentro dos grupos. Nessas sociedades aprofundam as desigualdades além das unidades familiares. A organização sociopolítica tipicamente é de tribos, mais raramente, de chefaturas como muitos grupos maori ou de estado, como os maias. A liderança é por persuasão e limitado poder coercitivo. As divisões de trabalho são baseadas principalmente em gênero. Aos homens cabem as tarefas de limpeza do terreno, plantio e caça. Às mulheres cabem o cultivo e cuidado de animais domésticos. Aos chefes competem a redistribuição dos bens produzidos. É uma economia do dom e de prestígio, embora haja também trocas e até mesmo instâncias de mercado.

A guerra é praticamente inexistente, embora haja sociedades como os yanomami que possuam atividades bélicas institucionalizadas. Para dirimir conflitos predomina o sistema de autotutela, com figuras de mediadores e árbitros. Alguns grupos tribais possuem sistema de tribunais (na forma de incipientes tribunais), cujas decisões são baseadas em modelos da pessoa média e parâmetros de princípios por árbitros que se reúnem informalmente para discutir privadamente as questões.

A diferença da horticultura em relação à agricultura consiste principalmente na aplicação de energia humana. Enquanto na horticultura o trabalho é intensivamente humano, a agricultura transforma a energia mediante ferramentas de certa complexidade e de animais domesticados. Horticulturalistas tendem a empregar a queimada ou coivara: pequenos lotes são queimados para controle de pragas e fertilização do solo. Na clareira aberta, cultivam uma variedade de plantas, com uma policultura mais diversa que as economias agrícolas. Complementam suas necessidades de proteína com caça e com animais domesticados. Com essa estabilidade alimentar garantida, as sociedades horticulturistas são menos móveis que os caçadores-coletores; porém, como o solo exaure logo, há uma dispersão para novas frentes. Por outro lado, há populações mais sedentárias, como os maias, que empregam técnicas de horticultura mesmo vivendo milenarmente em sociedade de estado. O sistema de milpas maia sobreviveu o colapso dos estados maias, as incursões mexicas, a invasão espanhola e no presente é utilizada por vários povos da Mesoamérica.

Adicionalmente, a agricultura relaciona em uma interdependência com as sociedades urbanas, gerando sociedades camponesas. Já a horticultura possui pouca relação com cidades, formando aldeias pequenas, casas coletivas (longhouses), ou comunidades dispersas.

As religiões contam com especialistas religiosos em tempo parcial e possuem uma cosmovisão baseada em cultos de fertilidade.

São exemplos de sociedades horticulturalistas os povos do neolítico da Ásia Menor, Crescente Fértil e China, os povos das idades do bronze e início da idade do ferro da Europa, os povos tupis no Brasil, os finlandeses da floresta na Fenoescandinávia, os povos linhageiros não pastoralistas ao sul do Sahel, os povos das muitas ilhas pequenas da Oceania, boa parte dos povos andinos pré-incaicos, dentre outros. Contemporaneamente, as sociedades horticultoras se mantém na faixa equatorial. No Brasil, os caipiras e caiçaras que praticam agricultura de subsistência e pesca artesanal no litoral sul paulista caracterizariam esse modo econômico de subsistência, embora também possam caracterizar-se como sociedades camponesas.

OUTROS MODOS DE SUBSISTÊNCIA

SAIBA MAIS

CONKLIN ,Harold C.  “The Study of Shifting Cultivation,” Current Anthropology 2, no. 1 (Feb., 1961):27-61.

HARLAN, J.R.  “Agricultural origins: centers and noncenters”. Science 174: 468-474. 1971. DOI 10.1126/science.174.4008.468

POSPISIL, Leopold. The Kapauku Papuans of West New Guinea. New York: Holt, Rinehart, and Winston, 1978.

RIBEIRO FILHO, Alexandre Antunes; ADAMS, Cristina; MURRIETA, Rui Sergio Sereni. The impacts of shifting cultivation on tropical forest soil: a review. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum.,  Belém ,  v. 8, n. 3, p. 693-727,  Dec.  2013 .   http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222013000300013.

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