Religiões: a tipologia de Wallace

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Há várias formas de classificar as religiões. Para o antropólogo da religião canadense-americano Anthony F.C. Wallace (1923 – 2015) — um estudioso que gostava de representar fenômenos mediante tipologias –, as religiões podem ser agrupadas em quatro tipos conforme a complexidade organizacional.

Religiões xamânicas

Essas religiões pressupõem o contato direto das pessoas com o sobrenatural sagrado. O xamã seria o membro da sociedade que maior experiência, mas sua autoridade é limitada, funcionando mais como prestígio. Em geral qualquer pessoa pode se tornar um xamã ao experimentar contatos intensos com o divino. O mundo espiritual permeia o mundo real, com espíritos presentes em animais, plantas, rochas, montanhas e rios (animismo). Normalmente essas religiões não possuem deuses pessoais ou tampouco deuses supremos, embora algumas tenham deidades ou espíritos dominando certos seres.

É típico em sociedades de bando e em economias de caçadores-coletores. Os povos da região circumpolar ártica são tipicamente xamânicos, como inuit (esquimós), sami (lapônios) e povos da Sibéria, de onde provavelmente veio o termo shaman, corrente nas línguas tungúsicas.

Mesmo religiões de outros tipos contém práticas comuns do xamanismo, como a pajelança dos povos horticultores da Terras Baixas da América do Sul, os medicine men dos indígenas norte-americanos, os místicos do catolicismo, os profetas leigos do catolicismo, os médiuns ocasionais entre os kardecistas, advinhos e benzedeiras do catolicismo popular. Nessas religiões todos entram em contato com o sagrado para trazer algo para esse mundo, não sendo necessariamente especialistas religiosos em tempo integral.

Mircea Eliade (1964) aponta para a importância do processo de se tornar xamã e os transes — estados alterados de consciência. Esses são características fundamentais para religiões do tipo xamânica. Geralmente passam por rituais de privação; beiram à morte e entram em transe mediante jejuns, práticas religiosas intensas, ingestão ou aspiração de substâncias enteógenas, submissão a dores insuportáveis, danças e músicas frenéticas. Uma vez que retorna da viagem espiritual, o xamã tem uma mensagem ou um poder, cuja narrativa explica o mundo, cura e reforça as crenças do grupo.

Religiões comunais

Possuem datas e locais certos para realizar seus rituais. Há especialistas religiosos, como pajés ou xamãs (a diferença com o xamanismo típico é que a distinção social do especialista religioso em relação ao povo comum), mas sem grande diferenciação social com outros membros da comunidade. Ritos coletivos de passagem e atividades comunais são centrais para essas religiões.

Possuem um panteão politeísta, mas o culto é circunscrito às deidades preferidas pelo grupo. As religiões comunais ocorrem entre povos tribais e de chefaturas sedentárias praticantes de horticultura e pastoralismo menos intensivo, embora ocorra também entre caçadores-coletores. São típicas de indígenas da América do Norte, na África sub-saariana e na Austrália e da Oceania.

Religiões olímpicas

São religiões formadas em sociedades de estado arcaicos. Surge a distinção entre a alta religião ou a religiosidade oficial e a baixa religião ou religiosidade popular. Assim, há especialistas religiosos — sacerdotes oficiais, curandeiros e adivinhos populares — rituais realizados em templos, bem como rituais realizados nas casas ou em espaços comunais.

O panteão das religiões olímpicas admitem a existência de múltiplos deuses. Esses deuses podem ser deuses pessoais antropomorfos, ou princípios abstratos. Outras variações admitem cultos dos ancestrais ou o culto de uma deidade principal dentro de uma hierarquia espiritual.

As religiões do antigo Egito, da Grécia e Roma, da Mesopotâmia, dos Aztecas, dos Incas, da China, as religiões do Golfo da Guiné (Candomblé, Vodum, culto dos orixás), o Shinto e o Hinduísmo são representantes das religiões olímpicas.

Religiões monoteísticas ou eclesiásticas

Religiões nas quais há uma só divindade cultuada, embora algumas aceitam a existência de outros seres espirituais — demônios, anjos, santos, fantasmas, messias, avatars, o diabo ou a anti-divindade.

Essas religiões fundamentam-se na dedicação de especialistas em tempo integral — sacerdotes, teólogos, gurus — mantendo uma continuidade de suas crenças e práticas. Possuem relações conturbadas com o Estado, ora contra, ora proximas.

Muitas possuem textos sagrados, como a Bíblia para o cristianismo, a Torá e o Talmud para o judaísmo, o Corão para o Islã, o Avesta para o zoroastrismo, o Guru Granth Sahib para o sikhismo e os Vedas para o hinduísmo monoteísta do Brahmo Samaj ou do Arya Samaj.

As religiões monoteístas tendem a transcender fronteiras étnicas e nacionais, além de ter uma grande variedade interna, na forma de cultos, seitas e denominações.

Com a combinação de especialistas religiosos, suas alianças com o poder estatal, variedade interna e global, fundamentos doutrinários e de práticas em uma cultura escrita, surgem nessas religiões os conceitos de ortodoxia e heterodoxia. Ou seja, autoridade para determinar quais crenças, ritos e valores são aceitáveis ou não. E da aliança da ortodoxia com o Estado emerge tentativas de monopolizar o campo religioso sobre a população. Todavia, mesmo em países com a hegemonia de religiões eclesiásticas subsistem minorias religiosas.

Obviamente há outras formas de classificar as religiões. Wallace considerava religião como crença e ritual relacionados com seres, poderes e forças sobrenaturais. Com essa definição, excluiriam-se religiões imamentistas, religiões não teístas ou com mínimo aparato ritual. Todavia, sua tipologia permanece válida para a maioria das religiões registradas pelas ciências da religião.

SAIBA MAIS

ELIADE, Mircea. Shamanism: Archaic Techniques of Ecstasy. Nova Iorque: Pantheon, 1964.

WALLACE, Anthony F. C. Religion: An anthropological view. Nova Iorque: : Random House, 1966.

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