O Estruturalismo na Antropologia

Sob o termo “estruturalismo” várias abordagens na linguística, psicologia e antropologia propuseram métodos e perspectivas para compreender diversos fenômenos. Mais um método que uma teoria propriamente dita, esse movimento teve seu auge nos anos 1960, influenciando áreas fora de suas disciplinas iniciais, a exemplo, a filosofia, a crítica literária, a semiótica, a pedagogia de Piaget e a psicanálise. Seu maior expoente foi o antropólogo franco-belga Claude Lévi-Strauss (1908—2009) que consolidou esse pensamento na França e no mundo de cultura latina, com uma moderada aceitação em países de língua inglesa.

Esse movimento ora contrapôs ora interagiu aos discursos positivistas, da fenomenologia, dos existencialistas, dos marxistas (especialmente a Escola de Frankfurt), da psicanálise lacaniana, da linguística de Chomsky, bem como ao funcionalismo, ao estrutural-funcionalismo, ao particularismo histórico e à escola de cultura personalidade em se tratando de antropologia.

Ideias comuns do Estruturalismo

Uma das últimas “grandes narrativas” com pretensões generalizantes a ser levada a sério no século XX, o estruturalismo possui alguns pressupostos comuns:

  • Não atomismo: perspectiva na totalidade e não nas partes;
  • Foco nas inter-relações e não na substância: em uma metáfora bem conhecida, o carbono é a mesma substância do diamante e do grafite, só diferindo em sua estrutura.
  • Estruturas são relações entre categorias e relações entre relações.
  • Universalismo: as teorias estruturalistas argumentam a existências de universais nas estruturas comportamentais, culturais, linguísticas e psicológicas; contrapondo ao particularismo e ao individualismo metodológicos.
  • Processos mentais como centro de análise: a realidade de processos e estruturais mentais funcionam como “programas” que ordenam a percepção do mundo e são comuns a todas as culturas, ainda que com características locais. Por exemplo, os critérios de taxonomias são particulares a cada cultura, mas o processo de criar taxonomia é universal.
  • Relações sociais: são a matéria-prima para os modelos estruturais.
  • Redução binária: a complexidade das estruturas pode ser reduzida e representada em elementos binários. Esses arcabouços de opostos –frio/calor, macho/fêmea, cru/cozido a e alto/baixo dentre outros — organizam o pensamento. Há uma lógica universal das dualidades que molda as representações profundas.
  • Representações profundas: a percepção da superfície de um texto, de um mito, um artefato ou da organização social de uma aldeia integra e revela a existência de uma relação estrutural profunda que orienta a manifestação exterior nesses produtos culturais e instituições.
  • O valor relacional dos elementos: cada componente cultural só faz sentido em relação a outro e com o todo.
  • Sincronia: sendo as estruturas seriam universais e atemporais, a análise diacrônica dos fenômenos passa a ser irrelevante.
  • Transcendência dos problemas ontológicos e epistemológicos do pensamento ocidental: o estruturalismo aborda a relação intrínseca entre seres e coisas, assim as dicotomias do sensível e do racional, da forma e do conteúdo, do abstrato e do concreto dentre outros não fazem sentidos.

Influências

O estruturalismo, principalmente na antropologia de Claude Lévi-Strauss, recebeu influências dos seguintes fatores:

  • Análise da sociedade com termos de infraestrutura, superestrutura e conflito de Marx, porém sem seu fundamento materialista.
  • Holismo da psicologia da Gestalt para a produção dos sentidos;
  • Pressupostos de um inconsciente e seus mecanismos em conflitos (como o Ego, Id e Superego) para organizar a mente conforme discutia Freud.
  • Coletivismo metodológico de Durkheim e a universalidade das relações do modo explicado no Ensaio sobre a dádiva de Mauss.
  • Os estudos das operações lógicas através de culturas de Lucien Lévi-Bruhl.
  • Linguística estrutural de Ferdinand Saussure e Roman Jakobson, especialmente nas relações binárias e na ontologia do não ser (por exemplo, chá é um “não café”, A→‘A).
  • A síntese entre linguística estrutural europeia e a semiótica norte-americana de Leonard Bloomfield.
  • Um “ancestral” mais remoto na psicologia experimental estruturalista de Wilhelm Wundt e Edward Lee Thorndike que enfocaram em elementos intuitivo estudados sistematicamente como se fossem fenômenos.

Claude Lévi-Strauss  (1908—2009)

Levi-StraussEsse pensador educado em Paris estudou música, artes e filosofia antes de vir ao Brasil participar da fundação da cátedra de sociologia na USP dos anos 1930. Nessas paragens, visitou as frentes de expansão agrícola, contatou grupos indígenas no Brasil Central, coletou mitos e registrou folclore. Exilado em Nova Iorque, fez amizade com Roman Jakobson e absorveu muito dos trabalhos do Círculo Linguístico de Praga. Em 1949 publicaria As formas elementares do parentesco, mas ganharia notoriedade somente a partir do início dos anos 1960. Tornou-se um dos intelectuais mais conhecidos pelo público e citados pelos acadêmicos na França. Dos anos 1970 em diante, as críticas pós-estruturalistas, o pós-modernismo e giro linguístico (ou hermenêutico) diminuíram a influência de Lévi-Strauss.  O pensador continuou com publicações esporádicas até sua morte já centenário. Suas ideias mais marcantes são:

  • Categorizações: a mente humana organiza a natureza a partir de dicotomias. Porém, como Lévi-Strauss observou, a necessidade de categorizar binariamente a realidade faz com que as pessoas se deparem com fenômenos que cabem em nenhuma das categorias, surgem assim terceiras categorias.
  • Parentesco: estudar as relações de uma família nuclear não explica muito uma sociedade, mas a rede complexa de relações, as terminologias dos parentes revelam um sistema coeso que reflete na ampla sociedade.
  • Formação da sociedade: resulta da troca das mulheres em um grupo restrito (como a complexa relação controlada por parentesco, coorte e frarias dos povos jês) ou generalizadas (em sociedades amplas) criando mais de um núcleo de parentesco, possibilitando uma sociedade estável.
  • Mitos: a existência de parâmetros em narrativas mitológicas de tão díspares culturas como os povos gês e os gregos revelaria a existência de temas comuns universais que reverberam em outras áreas de suas sociedades, por exemplo na organização espacial das aldeias ou tabus alimentares. Essas unidades de mitos, com parâmetros de elementos e narrativa comuns são os mitemas. Os mitos decorrem da necessidade humana de criar sentido no mundo e resolver o dilema da determinação cultural.
  • O estudo da estrutura e conteúdo seria entendido pela mitologia enquanto o estudo da estrutura e expressão seria entendido pela linguística.
  • O estruturalismo como método cria modelos sobre fenômenos socioculturais e decifra os mecanismos mentais por dois meios: (1) identificar e isolar os níveis de realidades representáveis que possuam propriedades formais comparáveis; e (2) isolar os fenômenos mais significativos.

Legado: críticos e sucessores

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  • Pós-Estruturalismo: reação contra a validade de parâmetros binários como universais. Os escritos tardios de Barthes, Lacan, Foucault, Ernesto Laclau e Slavoj Žižek são os melhores exemplos dessa abordagem.
  • Pós-Modernismo: intimamente relacionado ao pós-estruturalismo, é a falta de fé em “grandes narrativas”. Como disse seu maior expoente (de tipo Deconstrucionista) Jacques Derrida, “não há um além-texto”, negando a realidade objetiva desprovida de contexto.
  • Marxismo Estrutural: o filósofo Louis Althusser reformulou o pensamento estruturalista para retratar uma visão não reducionista de determinação econômica do marxismo clássico, aplicando-a à complexidade das formações sociais e subjetividade humana. O antropólogo Maurice Godelier reintroduziu a versão althusseriana de estruturalismo na antropologia, especialmente em questões econômicas, influenciando a escola antropológica dinâmica francesa.
  • Teoria da Estruturação: o sociólogo Anthony Giddens criticou a falta de agência – a liberdade de iniciativa e ação humana dos atores nas relações estruturais – o que dava a impressão de um determinismo à teoria estruturalista. Para Giddens, a agência cria estruturas que moldam a agência e assim sucessivamente.
  • Teoria da Práxis: o antropólogo e sociólogo Pierre Bourdieu também compartilhou das provocações teóricas pela teoria da estruturação, abordando temas como a agência e estrutura, porém sua teoria da prática ultrapassou os limites das estruturas proposta pela geração de Lévi-Strauss.
  • Antropologia Simbólica e Interpretativa: sem preocupar em formular modelos estruturais, antropólogos como Geertz, os Turners, Mary Douglas e Louis Dumont empregaram componentes metodológicos e teóricos do estruturalismo de Lévi-Strauss somados à hermenêutica para compreender fenômenos culturais de um modo menos universalizante.
  • Antropologia Cognitiva: também chamada de etnosemântica, etnociência, etnolinguística e nova etnografia, essa abordagem soma o estruturalismo ao relativismo cultural radical da hipótese Sapir-Whorf. O escopo é compreender a visão de mundo interna de cada grupo cultural sem pretensões de uma objetividade externa ao grupo.
  • Historiografia estruturalista: o discípulo de Lévi-Strauss Jean-Pierre Vernant propôs uma análise estruturalistas dos mitos gregos nas peças de Ésquilo para argumentar a emergência do raciocínio filosófico a partir da consolidação da democracia nas cidades-estados.

SAIBA MAIS

LÉVI-STRAUSS, Claude. Les Structures Élémentaires de la Parenté. Paris: Presses Universitaires de France, 1949.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Race et Histoire. Paris: UNESCO, 1952.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Anthropologie Structurale. Paris: Librairie Plon, 1958.

LÉVI-STRAUSS, Claude. La Pensée Sauvage.Paris: Librairie Plon, 1962.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Mythologiques. Le Cru et le Cuit. Paris: Librarie Plon, 1964.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Mythologiques. L’Origine des Manières de Table. Paris: Librarie Plon, 1968.

LÉVI-STRAUSS, Claude The Structural study of the Myth. Journal of American Folklore. 1955 28: 428-444.

PIAGET, Jean. O estruturalismo. Rio de Janeiro: Difel, 1979

STURROCK, John. Structuralism. Paladin: Londres, 1986.

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