Correntes da antropologia americana do início do século XX

No início do século XX nos Estados Unidos a antropologia estabeleceu-se como ciência fundamentada em quatro vertentes que dialogam entre si: a antropologia cultural, a antropologia física ou biológica, a arqueologia e a antropologia linguística. Quem firmou essa disciplina no âmbito acadêmico foi Franz Boas (1858–1942) na Universidade de Columbia em Nova Iorque. Nunca constituindo uma escola monolítica, relacionadas com Boas, surgiram as correntes do Particularismo Histórico, a ‘Culturologia’ superorgânica de Kroeber, a corrente de Cultura e Personalidade de Mead e Benedict, além do difusionismo mitigado de Clark Wissler.

Por volta da Primeira Guerra, os boasianos dominavam a American Anthropological Association e uma década depois estavam em todos os departamentos de antropologia nas universidades americanas. Todavia, outras abordagens com diferentes interesses, métodos e teorias competiam com a antropologia boasiana, às vezes, com críticas ácidas entre as diversas correntes. Nesse grupo compreendiam a antropologia psicológica de Ralph Linton; o neo-evolucionismo de Leslie White e Julian Steward e a análise transcultural em Yale, liderado por George Murdock. Além deles, a Escola de Sociologia Urbana de Chicago contribuiu à antropologia com pesquisas de campo qualitativas.

Boas e sua escola não foram os pioneiros da antropologia americana. Etnógrafos do Bureau of Ethnology (fundado em 1879) já vinham coletado dados sobre os indígenas há tempos. Entretanto, é inegável a contribuição da linhagem boasiana para consolidar a antropologia como disciplina acadêmica com teorias, métodos e objetos de estudos próprios dentro das universidades.

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Margaret Mead e Gregory Bateson em Bali nos anos 1930

PARTICULARISMO HISTÓRICO

Inicialmente preocupado em coletar dados etnográficos de povos e culturas indígenas norte-americanas que estavam sendo dizimadas (“Salvage Ethnography”), Boas não formou uma escola teórica propriamente dita. Não que fosse um niilista teórico ou metodológico. Ao contrário disso, Boas incentivava o trabalho de campo e análise indutiva dos dados, mas argumentava que teorias amplas deveriam ser deixadas para depois, quando se houvesse suficiente informação para fazer generalizações etnológicas.

Uma das críticas da época aos boasianos era a agenda antirracista. Boas e seus discípulos (boa parte mulheres, imigrantes judeus e latino-americanos como Manuel Gamio e Gilberto Freyre) não acatavam formas de determinismos biológicos, arguindo que o relativismo cultural explicava as diferenças entre as diversas populações. A antropologia ensinada em Columbia contrastava com teorias racialistas, então predominante no imaginário antropológico americano.

DETERMINISMO CULTURAL

Alfred Louis Kroeber (1876–1960) estudava literatura em Columbia quando tomou classes de linguística e estatística com Boas. Tornou-se seu primeiro aluno a obter o doutorado em antropologia em 1901 (e o segundo doutorado en antropologia dos Estados Unidos). Fundador do departamento de antropologia na Universidade da Califórnia em Berkeley, aos poucos divergiu de Boas ao propor um paradigma teórico universalizante. Kroeber via a cultura – no sentido de Boas – como um superorgânico, com pouco papel para a agência individual na história. A cultura teria lógica e vida própria, pouco variando com a volição dos indivíduos que a compunham.

ÁREAS CULTURAIS

Clark Wissler (1870–1947) era um doutorando de psicologia em Columbia quando seu departamento fundiu-se com o de Boas. Influenciado pela antropologia e pelo difusionismo alemão, Wissler propôs a teoria da área cultural e área temporal para esboçar o momento de difusão de ideias e tecnologias. O pensamento de Wissley era próximo do determinismo cultural de Kroeber, mas possuía suas particularidades. Depois de formado tornou-se curador de antropologia do American Museum of Natural History em Nova Iorque influenciado várias vertentes como a de análise transcultural em Yale.

CULTURA E PERSONALIDADE OU CONFIGURACIONISMO

A partir dos anos 1920 vários alunos de Boas se interessaram pela psicologia, principalmente pela Gestalt e a psicanálise. Antropólogos como Margaret Mead, Ruth Benedict, Cora Dubois, Edward Sapir, Ralph Linton, Abram Kardiner e Clyde Kluckhohn investigaram traços culturais subjacentes a cada cultura delimitada. Utilizaram métodos, termos e tipologias inspiradas na psicologia para explicar os comportamentos individuais e sociais em relação aos valores e hábitos de cada povo. Estudos sobre a infância, adolescência e desvios psicológicos serviram para fundamentar como cada povo “enculturavam” seus membros Com obras populares de Mead (Coming of Age in Samoa, 1928) e Benedict (Patterns of Culture, 1934) a antropologia (boasiana) alcançou visívelibilidade nos Estados Unidos e foi a abordagem mais difundida nos anos pós-guerra, quando o GI Bill financiou o estudos superiores de vários veteranos.

ANÁLISE TRANSCULTURAL

Em Yale o sociólogo, economista e teólogo William Graham Sumner (1840-1910) iniciou a cátedra de antropologia com influências da escola evolucionista britânica (de E.B.Tylor, Spencer e Morgan). Foi sucedido por Albert Galloway Keller (1874 – 1956) que por sua vez foi mentor de George P. Murdock (1897-1985). Murdock iniciou uma comparação controlada da etnologia e devários grupos étnicos. Seu massivo Cross Cultural Survey realizado nos anos 1940 resultou na base dados chamada de Human Relations Area Files (HRAF) e o Standard Cross-Cultural Sample (SCCS, Amostra Padrão Transcultural) que selecionava grupos para comparação etnográfica. Mais positivista e informada sociologicamente que Boas, a escola de Yale serviu principalmente para análises estatísticas transculturais em pesquisas em antropologia física, medicina e psicologia.

NEO-EVOLUCIONISMO

Também chamado variavelmente de evolucionismo multilinear e ecologia cultural, essas correntes lideradas por Leslie White (1900–1975) e Julian Steward (1902–1972), foram influenciadas por Kroeber. Valorizavam o papel do ambiente na transformação diacrônica da cultura. Viam o desprezo dos Boasianos por fatores externos como um viés mais ideológico que científico. Mais tarde, influenciariam o materialismo cultural de Marvin Harris e a economia política de Eric Wolf.

ESCOLA DE SOCIOLOGIA DE CHICAGO

O departamento de sociologia na Universidade de Chicago depois da 1a Guerra Mundial começou a fazer estudos etnográficos entre as comunidades étnicas dessa cidade. Inicialmente focada em interesses sociológicos, como Thomas e Znaniecki, essa escola dava valor a fatores ecológicos. O flerte com a antropologia começou quando o sociólogo Robert E. Park influenciou seu genro Robert Redfield (1897–1958) a estudar camponeses no México. Essa escola influenciaria a corrente do materialismo cultural, a antropologia urbana, os estudos camponeses e latinoamericanistas.

OUTRAS CORRENTES ANTROPOLÓGICAS

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