A antropologia simbólica e interpretativa

A antropologia simbólica, por vezes tratada como sinônimo de antropologia interpretativa, considera o entendimento coletivo das ações, discursos, símbolos, ambiente, instituições e das próprias pessoas.

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O homem é um animal simbólico em busca de interpretação

A antropologia simbólica e interpretativa nasceu nos finais dos anos 1950 nos Estados Unidos e Reino Unido. Nos anos 1960 eram alternativas às abordagens materialistas e estruturalistas. Nos anos 1970, vários de seus expoentes lecionaram na Universidade de Chicago. Apesar de estar em menor evidência desde os anos 1980, constitui-se uma das principais abordagens adotada no “politeísmo teórico” vigente na antropologia desde então.

Temas principais: sistema de símbolos e cultura

Nessa vertente, a cultura é entendida como uma teia de significado produzida dentro um sistema compartilhado pelos membros de cada sociedade. Cada indivíduo não compreende ou representa a totalidade de uma dada cultura, mas ela é representada mediante mitos, rituais, símbolos. Em outras palavras, a cultura é um sistema de símbolos.

Isoladamente, algum elemento cultural, como um símbolo ou uma categoria, não faz sentido. Evans-Pritchard, que no final de sua carreira vislumbrou e antecedeu muito das ideias da antropologia simbólica e interpretativa, dizia que o ser humano era o único primata que distinguia entre água benta e H20. Geertz famosamente exemplifica os sentidos das piscadelas que podem ser “tiques nervosos, as piscadelas, as falsas piscadelas, as imitações, os ensaios das imitações são percebidos e interpretados”.

Símbolos são veículos da cultura. O símbolo não se limita às representações pictóricas de um objeto, mas compreendem todas representações atribuídas por um grupo sociocultural.  Um símbolo resulta da associação de um objeto com outro. Comportamentos, imagens, a organização social, rituais e a percepção do mundo são associados entre si, gerando significados. Os símbolos expressam ideias, pensamento formulados e concebidos pela práxis e pela manipulação do símbolo. Desse modo, os símbolos expressam as estruturas cognitivas da cultura.

Os símbolos possuem a propriedade de permear a vida humana, sendo polissêmicos (dotados de múltiplos significados, compreendendo significados existenciais, conceituais, objetivos, pessoais, sociais) e com diferentes sentidos para diversos atores (sentimentos, impressões, intenções, reações e aspectos emocionais e cognitivos).

Como sistema, os símbolos são construídos socialmente por um processo contínuo e são dependentes dos contextos e de outras variáveis, inclusive materiais e mesmo simbólicas. A origem dos símbolos seriam, portanto, sociais, não oriundas de processos mentais como queriam os psicanalistas ou estruturalistas.

O entendimento da significação simbólica tipicamente seria alcançado pelo exame de diferentes níveis: interpretar a significação posicional de um símbolo, ato ou fato dentro do sistema de símbolos, estabelecer seu significado operacional para no fim descrever uma significação simbólica.

Turner aponta que há significados que a própria comunidade simbólica não possui consciência, sendo possível uma interpretação etic, externa à comunidade.

Por fim, o ser humano “é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado”. (GEERTZ, 1978, p.15).

Principais representantes

Clifford Geertz (1926–2006). Antropólogo americano com graduação em filosofia. Fez trabalho de campo na Indonésia e no Marrocos, sendo um dos antropólogos com maior visibilidade no final do século XX e começo do XXI. Recebeu influência de Weber, Leslie White, Clyde Kluckhohn, da filosofia da linguagem ordinária e da hermenêutica de Paul Ricoeur, para quem a mediação simbólica ocorre em qualquer ação humana, inclusive na observação da realidade social e no processo de construção da objetividade. Para Geertz a cultura não se explica pelo poder ou sistematicamente, como o direito, mas semioticamente pela interpretação e interação com o símbolo. Foi um escritor prolífico, entre suas obras estão. Islam Observed (1968), A Interpretação das Culturas (1973), Negara. The theatre-state in Bali (1980), O Saber Local (1983), Obras e vidas (1988), After the fact (1995) e Nova Luz Sobre a Antropologia (2000).

Victor Turner (1920 –1983). Antropólogo escocês que realizou trabalho de campo na África austral com sua esposa Edith Turner e depois se radicaram nos Estados Unidos. Inicialmente um poeta e classicista que se fascinou pela antropologia. Teve influências de Durkheim, Van Gennep, Gluckman, Leach e do transacionalismo. Depois da experiência de campo, converteu-se com sua esposa ao catolicismo. Durante sua pesquisa entre os ndembu na Zâmbia, percebeu-se que a organização social deles era muito instável para descrever etnograficamente com segurança: as pessoas trocavam de filiações, alianças e vínculos com famílias, facções e aldeias com muita frequência. Todavia, ainda se mantinham com um grupo coeso. Descobriu que a continuidade da vida ndembu era garantida por rituais que resumiam os valores comuns. Enfatizou a ruptura e continuidade na organização social e no mundo dos símbolos. Autor de a Floresta dos símbolos (1967) e O processo ritual (1978).

Edith Turner (1921–2016). Antropóloga britânica. Junto de seu marido foi inicialmente influenciada pela Escola de Manchester, marxismo e estruturalismo, desenvolveu sua própria abordagem, valorizando o ritual, processo de cura e a constituição da comunitas. Mãe do neurocientista Robert Turner, do poeta Frederick Turner e do antropólogo Rory Turner.

Mary Douglas (1921 –2007). Antropóloga britânica que fez investigações na África austral. Recebeu influência de Durkheim, Evans-Pritchard e Lévi-Strauss. Formulou a teoria cultural do risco, pela qual as pessoas reforçam as estruturas sociais por meio de símbolos, rejeitando alternativas culturalmente possíveis, mas simbolicamente indesejáveis. Fez análises entre o sagrado/puro e o profano/impuro em obras como Pureza e perigo (1966), Símbolos naturais (1970), Levítico como literatura (1999).

David Schneider (1918 –1995). Antropólogo americano ligado a Berkeley e a Chicago. Concilia ideias do estruturalismo e da antropologia interpretativa ao investigar as concepções de parentesco. Autor de American Kinship: A Cultural Account (1980)

Dan Sperber (n.1942). Antropólogo francês inicialmente influenciado pelo estruturalismo. Aproveita conceitos, mas não poupa críticas, a Lévi-Strauss, Turner e Geertz. Investiga o lado epistemológico ou cognitivo de como as pessoas interpretam a realidade objetiva. Não aceita como uma verdade geral e tácita a correlação entre cultura interpretada ou simbolismo e o comportamento social, pois pode haver comportamento sem explicações nativas. Autor de Rethinking Symbolism (1975).

Métodos

A antropologia simbólica emprega a metodologia vigente na antropologia, ou seja, usa-se desde abordagens quantitativas até qualitativas, mas distingue-se nas fases analíticas. Seus diferentes autores possuem estratégias com focos diversos para a análise antropológica.

Turners: abordagem simbólica pela investigação da performance que ocorre meio a um drama socialmente encenado.

Geertz: abordagem interpretativa mediante a descrição densa – consideração do contexto e das interpretações sociais – em um processo hermenêutico. Para Geertz a separação das atividades do antropólogo entre etnografia (coletar dados) e etnologia (interpretar dados) não fazia sentido: ao registrar dados em um trabalho de campo, o antropólogo escolhe quais fatos e como são interpretados.

Douglas: abordagem simbólica estrutural, especialmente pela distinção entre grupo e matriz (group and grid).

Sperber: abordagem pragmática e cognitiva.

Etnografia: decifrar a cultura, especialmente por meio da “descrição densa” (Geertz) ou da análise do processo ritual e da importância dos símbolos para guiar a vida social (Turner).

Hermenêutica: o uso do círculo hermenêutico entre um evento, seu contexto e suas intepretações fariam do antropólogo mais um crítico literário que um cientista para Geertz. Para ele “a antropologia não é uma ciência experimental em busca de leis, mas uma ciência interpretativa que persegue o significado da ação simbólica.”

Na abordagem simbólica-interpretativa há três níveis:

  1. Interpretar a significação posicional de um símbolo em sua forma externa observável em relação a outros símbolos. Com isso seria possível
  2. interpretar o ato ou fato dentro do sistema de símbolos, estabelecendo seu significado operacional, por leios e especialistas dentro dessa comunidade de símbolos, para no fim
  3. descrever uma significação simbólica, dentro de um contexto percebido pelo antropólogo.

Como em um texto, o ciclo indutivo entre esses diferentes níveis e fontes para interpretação de símbolos e ritos particulares de uma cultura local.

Focos: religião, cosmologia, mitologia, ritual, organização social, práticas econômicas e de consumo.

Relações a outros paradigmas

Para os interpretativistas o funcionalismo de Malinowski era visto como reducionista em sua pretensão de achar que cada elemento cultural era resposta a uma necessidade básica. Se assim fosse, não haveria diversidade em um menu e andaríamos uniformizados. Também, a premissa do etnógrafo priorizar o comportamento ao invés do declarado para uma etnografia “realista” ignorava a interpretação que os próprios informantes dão aos fatos culturais.

Em linha com a última crítica, o objetivo da antropologia boasiana de colecionar somente os fatos ou ser meramente descritiva era mais pretensioso que realista.

A antropologia simbólica, principalmente a britânica dos Turners e de Mary Douglas, deriva do estrutural-funcionalismo, mas adiciona o componente interpretativo.

Esse paradigma também é uma reação (e competição) às abordagens materialistas da ecologia humana, do materialismo cultural, da ecologia política, da economia política e da escola marxista-estrutural francesa em voga na mesma época. Grosso modo, essas abordagens consideravam a cultura como uma variável dependente de bases materiais. Para os antropólogos interpretativistas a cultura é uma variável independente, com sua própria dinâmica, interagindo e moldando as bases externas ou materiais, sobre as quais o ser humano faz interpretações.

Compartilha o foco do ponto de vista nativo com a etnociência e a compreensão de processos do pensamento com a antropologia cognitiva. A percepção, a conceptualização e simbolização são processos estudados em comum por esses três paradigmas. Enquanto a antropologia cognitiva investiga os meios de categorização, as estruturas cognitivas e a etnociência o conhecimento circunscrito por um grupo cultural, a antropologia simbólica sintetiza o ser humano como produtor e produto da cultura.

Rejeita também a existência de esquemas únicos, ou “grandes narrativas”, típicas das escolas anteriores ou do estruturalismo, ocasionando a antropologia pós-moderna e o giro hermenêutico. Ao invés da busca de esquemas universais do estruturalismo de Lévi-Strauss, os antropólogos interpretativos valorizavam as visões locais, do ponto de vista nativo. Nessa linha de pensamento, sistemas estruturais delineados pelos estruturalistas ficariam tão distantes do sistema real compreendido pelos informantes que seriam ficções dos antropólogos. Por sua vez, antropólogos pós-modernos viram a antropologia simbólico como outra grande narrativa, pós-positivas e neo-positivistas a viram como muito subjetiva para ser científica, feministas e pós-coloniais como uma variação das narrativas patriarcais e etnocêntricas.

SAIBA MAIS

O Estruturalismo na Antropologia

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O signo: elementos semióticos de Peirce

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