Fredrik Barth: transacionalismo, fronteiras e etnicidade

O que você é resulta da transação entre a sua autopercepção e de como é percebido pelos outros.

Em geral a antropologia considera o ser humano de forma coletiva, ideal ou agregada. Embora já houvesse interesse nos indivíduos nas ciências sociais – notavelmente na psicologia e na economia, além de campos na sociologia – o indivíduo como foco de pesquisa antropológica e sua valorização como agente surgiria nos anos 1960 com o antropólogo norueguês Fredrik Barth.

Como resultado de seu trabalho e ideias, emergiu o transacionalismo, também chamados de análise processual ou o individualismo metodológico, como uma corrente na antropologia.

A contribuição maior dessa corrente, sem dúvida, é o caráter transacional das organizações e identidades sociais, notavelmente a etnicidade.

Fredrik Barth

Fredrik Barth: as transações forjam as fronteiras que distanciam um grupo de outro, criando as identidades.

Contexto teórico e influências

Quando fazia doutorado na Inglaterra, os africanistas da escola britânica do estrutural-funcionalismo centravam-se nos sistemas sociais, representados pelas formas e normas sociais. As sociedades estudadas tendiam a serem representadas como coesas, cabendo dentro de um modelo de equilíbrio funcionalista. Nesse equilíbrio qualquer tensão, violência ou conflito eram tratados como anomalias. Desse modo, falhavam em explicar como se davam os processos das mudanças sociais sem apelar a um reducionismo no qual a cultura e sociedade eram meros variáveis de outras constantes. Também, Barth criticou a concepção de a cultura ser discreta ou circunscrita a um grupo étnico, como vinha sendo efetivamente tratada pelos antropólogos da época.

Com esse problema, o trabalho de Barth foi uma reação aos postulados do estrutural-funcionalismo. Todavia, recebeu dos britânicos algumas influências:

  • Antropologia política: os antropólogos britânicos, especialmente da escola de Manchester e LSE, focavam nas organizações sociais e políticas, tendo os estudos africanistas como área de trabalho. Para essa abordagem, as relações políticas possuíam peso maior do que o paradigma de Malinowski ou Evans-Pritchard.
  • Edmund Leach (1910 –1989): orientador de Barth em Cambridge. Leach já contestava as categorias fixas do estruturalismo, tanto o britânico quanto o de Lévi-Strauss. Para ele, as relações políticas, sociais e estruturais eram fluidas.
  • Antropologia econômica formalista: Barth estudou brevemente no LSE e foi influenciado pelas ideias de antropologia econômica de Raymond Firth. Mais tarde em sua carreira pesquisaria os processos micro-econômicos no Darfur. Ainda publicaria um estudo sobre empreendimento no norte da Noruega, sendo um dos pioneiros da antropologia corporativa.

Além dos britânicos, outras fontes contribuíram ao transacionalismo de Barth.

  • Escola de Chicago: Embora treinado em paleoantropologia e arqueologia na Universidade de Chicago, é inegável as influências metodológicas dessa escola, que ainda influenciaria o interacionismo simbólico. Indiretamente, a Universidade de Chicago afetou seu pensamento antropológica. Apesar de sua formação humanística na tradição do common core curriculum das artes liberais proposto por Robert Maynard Hutchins, seu interesse era mais pela organização social que pelos sentidos socialmente atribuídos. Também, à época de sua graduação e mestrado, conviveu no ambiente comum com a nascente Escola econômica de Chicago, cujas propostas de Theodore Schultz e Milton Friedman, valorizavam as transações individuais no paradigma neoclássico.
  • Cibernética: no final dos anos 1940 Norbert Wiener propunha uma análise formal dos sistemas, utilizando mecanismos de processos e retroalimentação (feedback) para explicar mudanças. O processamento de uma informação em um sistema, seja ele cultural ou outro, seguiria um modelo formal. Assim, Barth conseguiu analisar mudanças culturais em uma dada unidade analítica sem reduzir a cultura como variável de outros fatores.
  • Teoria dos jogos: Barth transplantou para a antropologia o teorema da utilidade desenvolvido pelo matemático John von Neumann e pelo economista Oskar Morgenstern. Originalmente concebido para estudar processos de decisões no final da 2ª Guerra e início da Guerra Fria, a teoria dos jogos seria empregada por Barth para compreender as alianças entre os diversos grupos humanos e suas consequências em outras áreas, por exemplo, identidade.

Conceitos e pressupostos do transacionalismo

  • Foco no indivíduo e na agência: as pessoas tomavam decisões conscientes em busca de benefícios próprios, consequentemente dessas transações formavam os sistemas políticos e outras manifestações de organização social e cultura.
  • Transação: processo no qual envolvem estratégias e negociações para maximizar ganhos ou minimizar perdas. Nem todas as relações sociais resultam em formas socialmente institucionalizadas, mas as que são institucionalizadas tendem a ter grande valor atribuído nas transações.
  • Foco nos processos de mudanças: uma sociedade seria melhor entendida não pelas normas (ideais ou praticadas), mas pela dinâmica das estratégias, escolhas e alianças que a mantém ligada.
  • Ausência de estruturas sociais fixas: existindo transações, logo não haveria estruturas sociais fixas, quer no sentido mental-social proposto por Lévi-Strauss, quer no sentido de parâmetros de relações e normas sociais propostos por Radcliff-Brown e Evans-Pritchard.
  • Etnicidade: as categorias socialmente dotadas de valor político ou econômico são negociadas e o pertencimento a ela depende das transações. Etnia, como um atributo fixo de uma pessoa a um grupo, não faz sentido. Por isso, Barth adota o conceito relacional de etnicidade. O indivíduo possui múltiplas identidades as quais são negociadas conforme os contextos das transações. São arbitrários a seleção das fronteiras do conjunto étnico. Por exemplo, cor da pele e hipodescendência são critérios de etnicidade para afro-americanos ao mesmo tempo que quantum de sangue são critérios para nativo-americanos na mesma sociedade, nos Estados Unidos.
  • Fronteiras: as afiliações identitárias são negociáveis. Barth menciona um entrevistado que ora se identificava como curdo, ora como árabe, ora como turcomano, dependendo do contexto e do interlocutor. Portanto, as identidades não seriam definidas por critérios intrínsecos ou objetivos, mas resultantes das negociações que criam fronteiras que distinguem as pessoas.
  • Sociedade: o conjunto social seria um agregado de ações, como em redes ativas. Uma sociedade tende a ser estável se cada grupo humano ocupa diferentes nichos econômicos e políticos, evitando conflitos.
  • Liderança e política: a autoridade resulta de um constante engajamento transacional. Isso vale tanto para a obediência das autoridades constituídas quanto para alianças com líderes informais persuasivos. Os subordinados, líderes superiores ou colaterais ponderam as ações de um líder em cada transação.
  • Metodologia: uso intensivo de etnografia para compreender com base em dados empíricos como se processa organização social. Nessa abordagem, o discurso ou sentido possuem pouca relevância.

Críticas

Escrevendo em inglês, Barth teve uma rápida e ampla disseminação nos anos 1960 e 1970. Nessa época, quando surgiam as críticas pós-modernas e pós-coloniais à antropologia, algumas críticas a sua abordagem se consolidaram.

  • Críticas pós-coloniais: Talal Asad (1973) questiona a normalidade da ação estratégica dos indivíduos. Para Asad, Barth não considerou as tensões políticas oriundas do colonialismo britânico no sul e centro da Ásia. Na análise transacional deveria ser considerado a história, interesses de classes e relações subalternas.
  • Críticas das teorias do sistema mundo e da dependência: pelo enfoque no indivíduo, as relações sistemáticas de alcance global de dominação e dependência são obliteradas.
  • Transacionalismo não explica tudo: apesar de Barth repetidas vezes afirmar a capacidade explicativa parcial de sua teoria, seus escritos efetivamente utilizavam o transacionalismo como meio exclusivo de compreensão das sociedades. Os fatores de produção dos sentidos, que viria na virada hermenêutica da antropologia, era uma lacuna no trabalho de Barth. Por fim, se toda a socialidade humana reduz-se a transações, como se explicaria as diferenças culturais?
  • Limitações metodológicas: o antropólogo paquistanês Akbar Ahmen (1976), cuja esposa era uma pathan, considerava que a amostra etnográfica do vale Swat tinha o viés de poucos informantes, usualmente fazendeiros com grande influência econômica e política na região. Assim, as generalizações seriam defeituosas. Similarmente, Asad aponta que os pathans pobres não tem muito livre-arbítrio para decidir qual aliança buscar, sem contar as articulações dos interesses de classes dos fazendeiros.

Introdução ao Grupos Étnicos e Suas Fronteiras

A introdução que escreveu para o livro coletânea de artigos Ethnic Groups and Boundaries (1969), resultado de um simpósio organizado por Barth em Bergen em 1967, tornou-se um clássico e um dos mais citados textos da antropologia. Nele, o autor propõe um conceito de etnicidade resultado da negociação das fronteiras étnicas entre os grupos de pessoas no processo de organização social e política.

A diferenciação e a criação de fronteiras entre grupos éticos são realizadas pelos próprios indivíduos em transação. Assim, o foco para compreender a etnicidade não seria buscar elementos essenciais ou critérios simples de conteúdo, mas investigar como são construídas as fronteiras que diferenciam um grupo de outro. A escolha de um símbolo, signo ou traço para distinguir um grupo de outros são negociados. Grupos étnicos seriam categorias atribuídas e de identificações pelos próprios atores. A etnicidade pode ou não afetar o comportamento resultante das pessoas, dependendo de qual elemento queiram enfatizar.

Legado

Na época da sua formulação, a teoria de Barth foi um tapa na cara em teorias racistas “objetivas” que ainda persistiam institucionalmente nos Estados Unidos e na África do Sul.

Apesar das críticas, o trabalho de Barth transparece atualmente em vários conceitos que se tornaram correntes na antropologia. Um deles é a concepção relacional de etnicidade da antropologia.

No Brasil, como resultado das políticas identitárias afirmativas, há um crescente debate entre o uso jurídico de critérios para definir etnicidade. Há quem defenda critérios de fenotipia, pois as minorias fisicamente são percebidas para serem discriminadas. Outra posição, é mais barthiana. Baseia-se nas experiências de como a pessoa se percebe, é aceita pela comunidade étnica e percebida por externos àquela comunidade étnica.

O transacionalismo explica o ressentimento contra os menos fenotipicamente identificados com as minorias (e contra os que, francamente, fraudam ou abusam) que colhem benefícios das ações afirmativas além dos que negam sua ligação étnica para não ser associado com a minoria. Seriam o caso dos fenômenos de afroconveniência do racial passing. Sem entrar no mérito da moralidade dessas atitudes, elas ilustram as transações étnicas.

A influência de Barth e do transacionalismo não constitui hoje uma escola. Como paradigma, continua sendo referência, principalmente na questão de etnicidade, no mundo todo. Na Escandinávia e Estados Unidos ainda possui seguidores, informando especialmente aplicações da teoria da escolha racional.

O papel do indivíduo como ator passou a ser relevante na antropologia com o trabalho de Barth. A discussão agência-estrutura ganhou espaço nas agendas e projetos de pesquisa a partir dele, permitindo um diálogo da antropologia com o individualismo metodológico de William James, Gabriel Tarde, Max Weber e Erving Goffman. O transacionalismo serviria de ponte para as teorias da estruturação e da práxi, a respeito da relação agência-estrutura.

O antropólogo

Fredrik Barth (1928–2016) nasceu em Leipzig filho de acadêmicos noruegueses. Estudou em Chicago, com estudos doutorais na London School of Economics (LSE) e em Cambridge. Iniciou seus trabalhos de campo entre populações rurais no Paquistão, Irã e Curdistão. Praticamente fundou a antropologia acadêmica na Noruega quando em 1961 foi convidado a criar um departamento na Universidade de Bergen (já existia um centro de antropologia vinculado ao museu etnográfico da Universidade de Oslo, mas voltado à coleta superficial de dados folclóricos). Depois de consolidado o departamento de antropologia em Bergen, em 1974 passou a lecionar em Oslo. Ávido pesquisador de campo, realizou ainda pesquisas no Sudão, Iraque, Omã, Papua-Nova Guiné, Bali e Butão. Passou suas três últimas décadas dando aula ou palestras nos Estados Unidos.

Principais obras de Barth

  • Principles of Social Organization in Southern Kurdistan. Oslo: Museu Etnográfico Universitário.
  • “Ecologic relationships of ethnic groups in Swat, North Pakistan”. American Anthropologist 58:1079–89
  • Political Leadership among Swat Pathans. Londres: LSE-Athlone.
  • Nomads of South Persia. Oslo: Universidade de Oslo.
  • The Role of the Entrepreneur in Social Change in Northern Norway. Bergen-Oslo: Universitetsforlaget.
  • Ethnic Groups and Boundaries: The Social Organization of Cultural Difference. Oslo: Universitetsforlaget. Prospect Heights: Waveland Press, 1969. No Brasil: BARTH, Fredrik; POUTIGNAT, Philippe; STREIFF-FENARD, Jocelyne. Os grupos étnicos e suas fronteiras. Tradução de Elcio Fernandes. São Paulo: UNESP, 1998.
  • Ritual and Knowledge among the Baktaman of New Guinea. New Haven: Yale Univ. Press.
  • 1983. Sohar: Culture and Society in an Omani Town. Baltimore: Johns Hopkins Univ. Press.
  • Cosmologies in the Making. Cambridge, UK: Cambridge Univ. Press
  • Balinese Worlds. Chicago: Univ. Chicago Press
  • “Overview: Sixty Years in Anthropology.” Em Annual Review of Anthropology. 36:1-16; https://doi.org/10.1146/annurev.anthro.36.081406.094407

Sobre Barth

  • Asad, Talal, org. Anthropology and the Colonial Encounter. Londres: Ithaca, 1973.
  • Eriksen, Thomas Hylland, Fredrik Barth: An Intellectual Biography. Londres: Pluto Press, 2015
  • Akbar Ahmen. Millenium and Charisma Among Pathans: A Critical Essay in Social Anthropology. Londres: Routledge & K. Paul,

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