Elementos góticos em seriados de TV

 

A estética narrativa gótica reflete o encanto pelo terrível. Na literatura, no cinema e na TV a junção da violência, do sacrifício, da estranheza, da transgressão dos limites da realidade e de nossa psicologia geram o terror e horror que formam o gênero gótico. Apresentar e contextualizar esses conceitos servem para apreciar obras góticas, aqui apresentadas como sugestões os seriados Penny Dreadful, Sleepy Hollow e Salem.

O ambiente do surgimento do gênero gótico era temerário. Foi a época da guilhotinha da revolução francesa, do ano sem verão de 1816 e da melancolia do romanticismo. A prática alemã de coletar contos populares de terror produziu os contos de E.T.A.Hoffman como O homem de areia (1815) e os contos dos irmãos Grimm, que na versão original metem medo. Antologias intituladas Fantasmagoriana de Jean-Baptiste Benoît Eyriès (1812), Spectriana de J.P.R. Cuisin (1817), Demoniana de Gabrielle de Paban (ou Collin de Plancy) (1820) e Infernaliana de Charles Nodier (1822) ganharam apelo popular. Essa primeira coletânea Marry Shelly, Lord Byron e John Pollidori leram durante os chuvosos dias de férias no lago Genebra, momento da criação do Frankenstein (1818) e de O Vampyre (1819). Foi o britânico Horace Walpole que no subtítulo de O Castelo de Otranto (1764) a chamou de ‘uma história gótica’. Na acepção de Walpole, o gótico remetia ao barbarismo desse povo germânico do início da idade média. A época do nascimento desse gênero literário coincide também com o renascimento neogótico na arquitetura: torres, gárgulas, janelas estreitas e longas, pé direito alto e ambiente escuro.

Conceituar Unheimlich causa desconforto, até mesmo quando seu autor Freud cunhou o termo. Sem equivalente satisfatório no português, seria algo estranho, misterioso, fora de lugar, sinistro, perturbador, inquietante. A raiz heim, lar, carrega toda uma conotação de segurança, aconchego e familiaridade; mas aqui é precedida pelo prefixo negativo un-. Essa falta de familiaridade com termo expressa bem o sentimento de horror diante do insperado, da transgressão e do não familiar. É o sentimento de encontrar uma mão fria roçando sua face durante seu sono na segurança do lar. É o choque de abrir um jarro com insetos e pedaços de corpo humano ao abrir sua geladeira para pegar leite no café da manhã. É o espanto de se deparar com uma inocente criança vagando à noite em um remoto cemitério em uma ilha onde não mora ninguém. O terror da estranheza é oriundo não do que é desconhecido, mas daquilo que nos é familiar, mas se apresenta fora do esperado nos chocando.

Essa estranheza é comum ao horror e ao terror. A distinção tênue entre horror e terror é explicada por Ann Radcliffe, autora do romance gótico Os Mistérios de Udolfo (1794):

O horror e o terror possuem características tão claramente opostas que um dilata a alma e suscita uma atividade intensa de todas as nossas faculdades, enquanto o outro as contrai, congela-as, e de alguma maneira as aniquila. Nem Shakespeare nem Milton em suas ficções nem Mr. Burke em suas reflexões, buscaram no horror puro uma das fontes do sublime, embora reconhecessem que o terror é uma das causas mais elevadas do sublime. Onde situar, então, essa importante diferença entre terror e horror senão no fato de que este último se faz acompanhar de um sentimento de obscura incerteza em relação ao mal que tanto teme? (Apud MANGUEL, 2005).

Para Todorov, a transgressão dos limites psicológicos entre o Eu e o Outro, a vida e a morte, o natural e o sobrenatural causava o sentimento de terror na literatura. Combinado com o conceito de Unheimlich de Freud, podemos entender porque há gente com o mau gosto de ver fotos de cirugias, animais atropelados, pessoas acidentadas e escutar histórias escambrosas. É um desafio para a sanidade do Eu, um retrato da violência e fim da vida, o desconforto e estranheza de encontrar algo fora do lugar. O sobrenatural, a destrutividade e a invasão psicológica de O Chamado de Cthulhu no conto H. P. Lovecraft levam ao sentimento de Unheimlich.

O enredo do terror encadeia uma sequência de violência, simbólica ou explicitamente sanguinolenta, até chegar ao seu clímax, o sacrifício. O antropólogo e crítico René Girard dizia que sem sacrifícios não se apaziguava a violência. Ao combinar suspense e violência, o gótico apresenta algum herói puro e corajoso, um anti-herói atormentado pela transgressão de altos valores, uma moça inocente cujo sacrifício interrompe o ciclo violento.

O sublime, os cenários tétricos, a sensualidade e a beleza cândida são outros elementos que merecem um ensaio a parte.

O mestre da narrativa gótica Edgard Allan Poe introduziu um elemento na resolução do sacrifício violento: a história de detetive. Em Os Assassinatos da Rua Morgue, o detetive C. Auguste Dupin se depara com uma cena de brutalidade com a morte de duas mulheres de forma grotesca. A resolução desse conto gótico gerou a criação de um outro gênero, o policial. A ficção científica, o suspense (thriller), o realismo fantástico, o terror pastelão, o steampunk, o gore e o weird também são gêneros que ganharam vidas próprias a partir do gótico.

Com temas, personagens e elementos marcantes, seria um pesar muitas dessas estórias não terem continuidade, como As Noites na Taverna de Álvares de Azevedo.  Entretanto, a brevidade narrativa dos contos e novelas góticas permitiram uma excelente forma de adaptação em formas de seriados de TV.

Essas três séries são ricas não só no elemento gótico, mas em alusões a outras obras consagradas.

Penny Dreadful

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O título refere-se aos livretos baratos de horror publicados na Grã-Bretanha vitoriana. A série produzida por John Logan reune vários personagens como Dorian Gray da obra de Oscar Wilde, Mina Harker e Abraham Van Helsing do Drácula de Bram Stoker, Victor Frankenstein e a Criatura de Mary Shelley. Os protagonistas são o explorador Sir Malcolm Murray que tenta recuperar sua filha Mina com as ajudas da enigmática e possessa médium Vanessa Ives e do pistoleiro yankee Ethan Chandler.

O cenário e o vestuário reproduzem cuidadosamente a atmosfera da Inglaterra do fin-de-siècle. As cenas sangrentas, violentas e cheias de suspense concentram horror e terror. A mostruosidade dos seres sobrenaturais, a sobriedade vitoriana, sessões mediúnicas e exorcismos reforçam o elemento de Unheimlich.

Sleepy Hollow

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Essa série de 2013 combina duas estórias de Washington Irving, a Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça com Rip Van Winkle. O protagonista é Ichabod Crane, um soldado que em 1781 mata o Cavaleiro Sem Cabeça, mas acaba morrendo. Porém, 230 anos depois, Ichabod Crane e o Cavaleiro Sem Cabeça voltam à vida invocados por forças misteriosas. Ichabod Crane tem um verdadeiro “choque cultural” ao deparar-se com sua calma cidadezinha de Sleepy Hollow em tempos modernos. A personalidade do protagonista e o elemento fantástico de retornar da sepultura montam o arcabouço gótico em cenas violentas.

Salem

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Ambientada na Nova Inglaterra puritana, bem à epoca do caça às bruxas de Salem, a série não poupa sangue e violência para retratrar o amor proibido do Capitão John Alden e Mary Sibley, a esposa de um impiedoso e doente líder local. A floresta nebulosa de Salem serve de covil para rituais de bruxarias. O suspense e a transgressão lembram o estilo do famoso escritor nascido em Salem, Nathaniel Hawthorne. Em mundo de trevas e medo, o terror da perseguição cresce com a desconfiança de que qualquer um na aldeia de Salem possa ter pacto com forças malignas.


SAIBA MAIS

A instituição de fomento ao cinema da terra natal do gótico, o British Film Institute http://www.bfi.org.uk/gothic colecionou vários filmes góticos clássicos, além de entrevistas e mesa-redondas sobre o tema. Um clipe do BFI sintetiza bem os elementos do gótico.


 

REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. O Estranho. 1919.

GIRARD, René. A violência e o Sagrado. Traduzido por Martha Conceição Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 1990.

MANGUEL,Alberto Manguel. Contos de Horror do Século XIX. Organização Alberto Manguel. Traduções de Beth Vieira, Jorio Dauster, Laetitia Vasconcellos, N. Ascher, Samuel Titan e Sergio Molina. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

TODOROV, Tzvetan. Introduçäo à literatura Fantástica. Lisboa: Moraes, 1977.

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