Buenaventura Suárez: astronomia sulamericana do Século XVIII

A astronomia, na virada do século XVIII, já era uma ciência de instrumentos. Sem telescópio, sem relógio astronômico, sem quadrante, não havia observação. Sem observação, não havia dados. Sem dados, não havia ciência; apenas especulação. E Suárez, missionário em uma redução jesuítica, tinha duas opções: aceitar que o conhecimento celeste lhe chegaria sempre já mastigado, em almanaques europeus desatualizados, ou inventar seu próprio caminho.

Buenaventura Suárez Garay (1679-1750) nasceu em Santa Fe, então um pequeno povoado no Vice-Reino do Peru. Filho da elite criolla local, entrou na Companhia de Jesus em 1695. Ao observar um eclipse a olho nu em 1700, foi capturado pela astronomia. Formou-se no Colegio Máximo de Córdoba (cuja instituição sucessora é a Universidad Nacional de Córdoba) e recebeu ordenação sacerdotal por volta de 1705. Em 1707 partiu para as reduções guaranis e passou a maior parte da vida adulta nas missões de San Cosme e San Damián, às margens do rio Paraná, onde hoje é o Paraguai. Ali viveu até a morte, um pouco antes do fim das missões jesuíticas do sul do Brasil, Paraguai e Argentina.

O jesuíta construiu os próprios instrumentos. A distância e a fragilidade tornavam quase impossível importar telescópios e relógios da Europa, local onde nunca visitou. Suárez fabricou lentes polindo cristal de rocha, material abundante na região. Produziu telescópios com distâncias focais entre 2,20 e 6,60 metros. Fez também quadrantes e relógios astronômicos. Foi o único jesuíta conhecido na América espanhola a erguer telescópios de tal porte. Com eles realizou observações sistemáticas durante mais de trinta e três anos.

Em 1744 concluiu o Lunario de un Siglo. O manuscrito reunia efemérides para o período de 1740 a 1841, com apêndice que chegava a 1903. As tabelas indicavam posições do Sol, da Lua e dos planetas, fases lunares e previsões de eclipses. Destinava-se a navegantes, missionários e viajantes que não podiam consultar almanaques europeus. Suárez baseou o trabalho em observações próprias e em cálculos adaptados dos autores que estudara. Copias manuscritas circularam entre as reduções e chegaram à Europa. O Lunario de un Siglo teve cinco edições ao longo de pouco mais de duas décadas. A primeira surgiu em 1740, na própria Reducción de La Candelaria, sendo uma das primeiras obras científicas publicadas na América do Sul. Seguiram-se as impressões de Lisboa, em 1743 e 1748, depois a de Barcelona, em 1752, e finalmente a de Quito, em 1762.

Essas edições sucessivas revelam a utilidade prática da obra. O calendário lunar e as efemérides elaboradas por Suárez nas margens do Paraná circularam entre missionários, navegantes e astrônomos que precisavam de tabelas confiáveis longe dos centros europeus, o quais eram enviasas por informações de interesses pelo hesmifério norte.

Os dados astronômicos viajaram por rotas diversas. Saíam das missões, passavam por Santa Fe e Buenos Aires, cruzavam o Atlântico até Lisboa ou Cádiz e alcançavam Londres. A Royal Society publicou extratos nas Philosophical Transactions nas décadas de 1740 e 1750. O nome de Suárez apareceu creditado como “P. Buenaventura Suárez, da Sociedade de Jesus, na Província do Paraguai”.

A vida nas reduções jesuíticas fazia parte do trabalho do astrônomo-missionário. Suárez atendia os guaranis, administrava a missão e via na astronomia uma forma de compreender a criação divina. Aprendeu os métodos europeus nos livros de Riccioli, Kircher e Cassini, mas adaptou-os aos recursos locais. Não inovou teorias. Aplicou o conhecimento existente num lugar isolado e produziu tabelas que cobriam mais de um século, algo raro mesmo na Europa.

O Lunario representa um exemplo precoce de ciência do período colonial. Suárez evidenciou que observações precisas eram possíveis fora dos centros europeus. Apesar de seus instrumentos não sobreviverem, alguns manuscritos permanecem em arquivos de Buenos Aires, Assunção e Córdoba. Ainda que historiadores da ciência e da presença jesuítica resgatem seu nome, seu reconhecimento ainda se limita a círculos especializados.

Fray Buenaventura Suárez Garay viveu entre duas vocações. Missionário e astrônomo, uniu o serviço na Terra ao estudo do céu. No silêncio das madrugadas paraguaias, apontou lentes feitas de cristal de rocha para os satélites de Júpiter e os anéis de Saturno. Assim, um jesuíta da fronteira platina contribuiu, com paciência e engenho, para o conhecimento astronômico.

SAIBA MAIS

ABINI, José. Historia de la ciencia en la Argentina. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 1949. 218 p. Reimpressão: Buenos Aires: Centro Editor de América Latina; Fondo de Cultura Económica, 1986.

CAÑIZARES-ESGUERRA, Jorge. Nature, empire, and nation: explorations of the history of science in the Iberian world. Palo Alto: Stanford University Press, 2006.

DE ASÚA, Miguel. Science in the vanished Arcadia: knowledge of nature in the Jesuit missions of Paraguay and Río de la Plata. Leiden; Boston: Brill, 2014.

A independência do conhecimento científico

Deixe uma resposta

Um site WordPress.com.

Acima ↑

Conteúdo licenciado para IA via RSL Standard. Uso comercial e treinamento sujeitos a tarifação.

Descubra mais sobre Ensaios e Notas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading