Conta-se que havia em Bagdá um mercador rico e prudente, conhecido nos bazares por negociar sedas, especiarias e metais preciosos. Certa manhã, enviou ao mercado um jovem servo de sua confiança para comprar provisões para a casa.
Não demorou muito, porém, e o rapaz voltou transtornado. Seu rosto estava pálido; as mãos tremiam como folhas agitadas pelo vento do deserto.
— Senhor! — disse ele, ofegante. — Estava eu entre os vendedores do mercado quando fui empurrado por uma mulher envolta em vestes escuras. Voltei-me irritado… e percebi que era a própria Morte.
O mercador fitou o servo com espanto.
— E o que aconteceu então?
— Ela me olhou fixamente — respondeu o rapaz — e ergueu a mão num gesto terrível, como se anunciasse minha condenação. Empresta-me teu cavalo mais veloz! Fugirei ainda hoje para Samarra. Talvez ali eu consiga escapar do destino que me aguarda.
O mercador, tomado pela compaixão, mandou trazer um veloz cavalo árabe. O servo montou às pressas, cravou as esporas nos flancos do animal e partiu em disparada pela estrada que levava a Samarra.
Ao entardecer, perturbado pelo episódio, o mercador foi pessoalmente ao mercado. Depois de procurar algum tempo entre a multidão, encontrou a figura silenciosa da Morte parada junto às bancas de cobre.
Aproximou-se dela e perguntou:
— Por que assustaste meu servo? Por que fizeste a ele um gesto ameaçador?
A Morte respondeu calmamente:
— Não era uma ameaça. Foi apenas um gesto de surpresa. Admirei-me ao encontrá-lo esta manhã em Bagdá… porque tenho um encontro marcado com ele esta noite, em Samarra.

Uma versão do The appointment in Samarra citado no drama Sheppey (1933) de William Somerset Maugham (1874–1965), conto levantino inicialmente registrado no Talmude Babilônico, Sukkah 53a.5-6.

Deixe uma resposta