A década de 2020 tem sido frutífera para descobertas de manuscritos e decifração de escritas. A combinação de vários fatores, tais como a ampliação distribuída de centros de pesquisa, aplicação de novas tecnologias interdisciplinares, revista de arquivos deram avanços significativos em várias escritas não decifradas e recuperação de manuscritos.

Avanços na Bacia do Índico
Entre os casos mais notórios está o do Linear Elamita, datado de c. 2300–1880 a.C. A escrita foi decifrada entre 2020 e 2022 por François Desset, do CNRS, na França, em colaboração com outros pesquisadores. Esse sistema da antiga costa do Golfo Pérsico resistira à decifração por mais de um século. Desset identificou-o como um silabário fonético, contrariando a hipótese anterior de sistema puramente logográfico. O avanço ocorreu por meio da identificação de paralelos bilíngues com o cuneiforme acadiano e o Protoelamita. A descoberta revelou inscrições reais e textos administrativos das dinastias Shimashki e Sukkalmah. O feito representou a primeira decifração bem-sucedida de uma grande escrita da Idade do Bronze em meio século e abriu uma nova janela para a civilização elamita.
O Protoelamita, datado de c. 3100–2900 a.C., também apresentou progresso entre 2022 e 2024. Jacob Dahl, de Oxford, e a equipe da Cuneiform Digital Library Initiative utilizaram novos métodos computacionais e de corpora ampliados para compreender melhor essa forma primitiva de escrita elamita. Embora não se trate de uma decifração completa, a década trouxe identificação mais clara dos sistemas numéricos, sinais de mercadorias e estruturas administrativas, confirmando-o como precursor do Linear Elamita.
A escrita do Indo ou Harappana, datada de c. 2600–1900 a.C., apresentou avanços entre 2021 e 2024, embora permaneça apenas parcialmente compreendida e objeto de controvérsia. Essa misteriosa civilização da Idade do Bronze do vale do Indo (modernos Paquistão e Índia) ainda se mantém elusiva. Diversas equipes participaram das pesquisas, incluindo grupos voltados à linguística computacional. Embora ainda não tenha ocorrido uma decifração completa, análises recentes baseadas em inteligência artificial e estatística, entre elas estudos conduzidos por pesquisadores do Tata Institute e do MIT, fortaleceram a hipótese de que os símbolos curtos representam um sistema logo-silábico que codifica uma língua dravídica subjacente. Novos corpora de impressões de selos provenientes das escavações em 4MSR Binjor e Rakhigarhi forneceram dados inéditos. A escrita permanece indecifrada em sentido estrito, mas a década de 2020 testemunhou os modelos computacionais mais rigorosos já aplicados ao problema, algo que possibilida uma decifração a caminho.
Outro caso envolve a chamada escrita Kushan ou escrita bactriana desconhecida. Em 2023, uma equipe internacional analisou moedas e inscrições da Ásia Central contendo um sistema até então não identificado. A escrita foi provisoriamente relacionada ao bactriano ou a outra língua iraniana aparentada, embora a decifração completa continue pendente.
A escrita dhofari do sul da Arábia, datada de c. 400 a.C. em diante, foi decifrada em 2025 por Ahmad Al-Jallad, da Ohio State University. A escrita era usada na região de Dhofar, em Omã, com extensão para Al Mahrah, no Iêmen, e a ilha de Socotra. O sistema permanecera indecifrado por mais de um século desde sua descoberta por viajantes ocidentais no início do século XX. O avanço ocorreu quando Al-Jallad identificou três inscrições excepcionalmente longas como abecedários, descartando a leitura como frases corridas. Cada uma continha mais de vinte sinais distintos com pouca repetição. O pesquisador comparou os sinais à ordem halḥam das letras semíticas meridionais e atribuiu valores fonéticos aos glifos. A língua era um idioma semítico extinto aparentado ao grupo moderno sul-arábico, como o mehri e o shehri, distinto do árabe. A escrita parece derivar de um arquétipo norte-arábico antigo, especificamente o tamúdico B, em vez da conhecida escrita sul-arábica do Iêmen. Isso sugere conexões culturais inesperadas ao longo da Península Arábica. Entre as leituras identificadas estão “ḥyb br mys”, traduzido como “Ḥayb filho de Mys”, “ḥhy”, no sentido de “conceder vida”, e “hĝf-h”, traduzido como “ajuda-o!”. A maioria dos textos consiste em invocações curtas, bênçãos e grafites pessoais, provavelmente orações protetoras ou marcas de identidade pintadas em cavernas e abrigos rochosos.
Sucesso no Mediterrâneo
As tabuletas de argila de Cnossos, datadas de c. 2000–1500 a.C., foram descobertas por Arthur Evans a partir de 1900, durante as escavações nesse palácio em Creta . O material incluía milhares de tabuletas inscritas com os sistemas Linear A e Linear B. Essas descobertas trouxeram informações de uma então praticamente desconhecida civilização minoica e da Grécia micênica, fornecendo um dos mais importantes corpora textuais do Mediterrâneo da Idade do Bronze. O Linear B seria posteriormente decifrado como uma forma arcaica de grego micênico, enquanto o Linear A permanece apenas parcialmente compreendido.
O Linear A, usado entre c. 1800–1450 a.C., registrou avanços importantes entre 2020 e 2023, embora sem alcançar uma decifração integral. Entre os pesquisadores envolvidos estão Ester Salgarella, de Cambridge, e Silvia Ferrara, de Bolonha. A partir de análise de redes e comparação com o Linear B, os estudiosos avançaram na identificação de padrões estruturais e possíveis valores fonéticos. O trabalho de Salgarella, publicado em 2020 sobre a padronização dos sinais, demonstrou que o Linear A possuía uma ortografia mais consistente do que se imaginava, sugerindo um sistema passível de decifração. A distância entre o Linear A e o Linear B diminuiu consideravelmente.
Não muito longe de Creta, no Chipre, a escrita Ciprominoica, usada entre c. 1550–1050 a.C., registrou avanços entre 2020 e 2023. Silvia Ferrara e Miguel Valério aplicaram análises estatísticas e contextuais a bolas de argila e tabuletas encontradas em Enkomi e Ugarit. Os estudos ampliaram a compreensão dessa escrita cipriota ainda indecifrada. Trabalhos recentes sugerem que ela possa codificar uma forma primitiva do grego ou uma língua cipriota autóctone. Alguns sinais apresentam relações sistemáticas com o Linear B.
Seriam protoescritas?
Ainda em uma civilização insular, a da Ilha de Páscoa, houve algum avanço no conhecimento de sua escrita. O rongorongo, um mistério anterior à década de 1860, também voltou a receber atenção entre 2021 e 2024. Pesquisadores independentes retomaram o estudo dos glifos por meio de reconhecimento de padrões e comparação etnográfica. Algumas hipóteses sugerem que os sinais codificam a língua rapanui em um sistema mnemônico ou protoescrita, em vez de uma representação fonética plena. O artefato mais estudado continua sendo o Bastão de Santiago.
Nas Américas, a escrita olmeca, especialmente o chamado Bloco Cascajal, datado de c. 900 a.C., foi reavaliada entre 2020 e 2023 por vários epigrafistas mesoamericanos. O debate prosseguiu em torno da questão de saber se o objeto representa escrita propriamente dita ou protoescrita. Análises iconográficas recentes sugeriram que alguns sinais podem corresponder a línguas mixezoqueanas. O consenso da década deslocou-se para a interpretação do sistema como um estágio formativo da escrita mesoamericana, distinto dos sistemas maia e zapoteca posteriores.
A escrita de Teotihuacan, no México, usada entre c. 100 a.C. e 550 d.C., também foi declarada decifrada em 2025. Richard Hansen, da Idaho State University, e Christophe Helmke, da Universidade de Copenhague, demonstraram que os símbolos presentes em murais, cerâmicas e edifícios formam um sistema logo-silábico que codifica uma forma antiga do náuatle, língua utoasteca. Durante décadas, discutiu-se se esses símbolos constituíam escrita verdadeira ou mera decoração pictórica. Os pesquisadores reconstruíram uma variante arcaica do náuatle contemporânea ao auge de Teotihuacan e atribuíram valores fonéticos aos símbolos. Alguns sinais funcionam como pictogramas diretos, como o de “coiote”, enquanto outros operam por rébus, combinando imagens para representar palavras complexas foneticamente. Caso a hipótese se confirme plenamente, ela indicará que grupos falantes de náuatle já estavam presentes no centro do México muito antes do que se acreditava e talvez descendam dos habitantes originais de Teotihuacan.
Limites às decifrações
Os manuscritos criptográficos medievais e modernos também registraram avanços entre 2020 e 2024. Diversos textos antes ilegíveis foram decodificados com auxílio de criptoanálise computacional. Entre eles estão cifras alquímicas renascentistas e códigos diplomáticos dos séculos XV ao XVII. Esses casos representam decifrações específicas de línguas e códigos, não de novas escritas. Apesar das reivindicações não provadas, o códice Voynich permanece sem pista de ser decifrado. Ainda continua um segredo o Disco de Festo, apesar das reivindicações constantes de decifração.
É importante observar que verdadeiras decifrações completas de escritas antigas continuam raras. A maior parte do progresso da década de 2020 consistiu em decifrações parciais, análises estruturais e modelagem computacional, e não em avanços totais comparáveis ao Linear Elamita. O campo passou a depender cada vez mais de inteligência artificial, análise de redes e abordagens baseadas em big data, sem abandonar os métodos filológicos tradicionais.
Recuperação de manuscritos
O uso de tecnologias novas aos estudos humanísticos permitiram também uma recuperação de manuscritos sem precedentes.
Bibliotecas cuneiformes
A coleção cuneiforme do Museu Nacional da Dinamarca é um exemplo. Troels Pank Arbøll, da Universidade de Copenhague, e a equipe do museu realizaram a primeira análise abrangente de tabuletas com aproximadamente quatro mil anos há tempos guardadas no acervo. O trabalho constitui uma decifração de corpus em larga escala. Os textos incluem rituais raros contra feitiçaria provenientes de Hama, na Síria, datados de c. 720 a.C., além de tratamentos médicos, registros reais e até um recibo de cerveja. As tabuletas de Hama são particularmente raras porque a maioria dos textos semelhantes foi saqueada pelos assírios. Uma delas contém um ritual destinado a proteger reis da instabilidade política por meio de práticas apotropaicas.
Em 2025, um longo hino babilônico perdido dedicado a Marduque, deus patrono da Babilônia, foi redescoberto com auxílio de inteligência artificial aplicada a tabuletas cuneiformes digitalizadas. O texto data entre os séculos VII e I a.C., incluindo o período da conquista neobabilônica de Judá sob Nabucodonosor. O hino era usado em escolas, demonstrando a persistência da educação religiosa babilônica ao longo dos séculos e conectando-se ao contexto bíblico registrado em 2 Reis.
Recuperação digital de palimpsestos
No século IX ou X, monges do Mosteiro de Santa Catarina, no deserto do Sinai, reutilizaram manuscritos mais antigos raspando sua tinta original para produzir um novo códice contendo uma tradução siríaca de escritos teológicos de João Clímaco, abade do mosteiro no século VII. O manuscrito resultante, hoje conhecido como Codex Climaci Rescriptus, preservou sob seu texto siríaco posterior um extraordinário arquivo de escritos muito mais antigos ocultos no próprio pergaminho.
Ao longo de uma década, o Codex Climaci Rescriptus Project, coordenado em Tyndale House, reuniu pesquisadores de instituições como a Early Manuscripts Electronic Library, o Lazarus Project da Universidade de Rochester e a iniciativa acadêmica do Museum of the Bible. Utilizando técnicas de imageamento multiespectral capazes de revelar camadas apagadas de escrita invisíveis a olho nu, a equipe recuperou sistematicamente a extensa escrita subjacente escondida sob o texto siríaco posterior. O projeto foi concluído com sucesso no verão de 2023, após dez anos de pesquisa colaborativa.
Os textos recuperados mostraram-se notavelmente diversos. Entre as descobertas mais importantes estavam escritos astronômicos e científicos datados dos séculos V e VI. Esses materiais incluíam partes do catálogo estelar de Hiparco, fragmentos dos Phaenomena de Arato, os Catasterismos de Eratóstenes, um proêmio anônimo a Arato e vários diagramas astronômicos e mapas estelares. O manuscrito preserva o que hoje é considerado a mais antiga tentativa conhecida de mapear todo o céu noturno, juntamente com medições científicas da Antiguidade antes desconhecidas.
O palimpsesto também revelou um substancial conjunto de material bíblico grego datado aproximadamente dos séculos VII e VIII. Os estudiosos recuperaram passagens dos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, além de fragmentos de Josué e dos Salmos. Novas edições publicadas entre 2022 e 2023 corrigiram leituras anteriores e revelaram variantes textuais até então desconhecidas, acrescentando evidências importantes para o estudo da transmissão do texto do Novo Testamento.
Igualmente significativa foi a recuperação de textos escritos em aramaico palestino cristão, um dos dialetos aramaicos mais raros preservados da Antiguidade Tardia. Esses materiais dos séculos V e VI incluem porções do Antigo Testamento — como Êxodo, Deuteronômio, Reis, Jó, Salmos e Isaías — bem como passagens do Novo Testamento provenientes de Mateus, Marcos, Atos e das Epístolas. O projeto também revelou obras apócrifas, incluindo a Dormição da Mãe de Deus (Liber Requiei Mariae). Em conjunto, esses textos formam um dos maiores corpora sobreviventes do aramaico palestino cristão primitivo
Em abril de 2023, o medievalista Grigory Kessel descobriu um fragmento de 1.750 anos contendo uma tradução siríaca dos Evangelhos do Novo Testamento, especificamente Mateus 11–12, oculto sob uma escrita posterior em um manuscrito da Biblioteca do Vaticani. O texto foi identificado por meio de fotografia ultravioleta, utilizada para ler um “duplo palimpsesto”, no qual a escrita original havia sido raspada para reutilização do pergaminho. A descoberta revelou uma tradição textual siríaca antiga preservada sob sucessivas camadas de reescrita, demonstrando o potencial das técnicas de imageamento avançado para recuperar textos considerados perdidos.
Em maio de 2026, quarenta e duas páginas fantasmas do Codex H, um manuscrito do século VI contendo as Epístolas de Paulo, foram reconstruídas digitalmente com o uso de imageamento multiespectral. O trabalho foi conduzido por Garrick Allen, da University of Glasgow. O manuscrito havia sido desmontado no século XIII no Monastério da Grande Lavra, em Monte Atos, na Grécia. Suas páginas foram retocadas com tinta e reutilizadas como material de encadernação em coleções dispersas pela Itália, Grécia, Rússia, Ucrânia e França.
O texto “fantasma” foi recuperado a partir de danos de transferência. Os produtos químicos utilizados no retoque produziram imagens espelhadas nas páginas adjacentes, em alguns casos atravessando múltiplas camadas do pergaminho. O imageamento multiespectral tornou esses vestígios legíveis. Entre os principais resultados estão as listas de capítulos mais antigas conhecidas para as Epístolas Paulinas, com divisões bastante diferentes das utilizadas atualmente, além de novos dados sobre práticas escribais do século VI, incluindo correções e anotações. A descoberta também evidencia a reciclagem medieval de manuscritos nos palimpsestos.
Em 2026, uma folha desaparecida do célebre Palimpsesto de Arquimedes foi encontrada no Musée des Beaux-Arts, em Blois, na França. Victor Gysembergh, do CNRS, identificou o fragmento contendo passagens de Sobre a Esfera e o Cilindro, Livro I, proposições 39–41, um dos tratados matemáticos mais importantes de Arquimedes. A página havia sido fotografada em 1910, com imagens preservadas na Biblioteca Real Dinamarquesa, mas desapareceu posteriormente. O fólio foi reutilizado em um manuscrito medieval, e um de seus lados recebeu uma ilustração do século XX representando o profeta Daniel entre leões. O CNRS pretende utilizar raios X para ler o texto oculto sob a imagem, seguindo técnicas semelhantes às aplicadas ao palimpsesto principal no início dos anos 2000.
Achados arqueológicos
Os manuscritos bíblicos também produziram descobertas importantes. Em março de 2021, cerca de oitenta novos fragmentos dos Manuscritos do Mar Morto foram encontrados na chamada “Caverna do Horror”, no deserto da Judeia. Foi a primeira descoberta de novos manuscritos em escavações arqueológicas em sessenta anos. Os fragmentos contêm traduções gregas de Zacarias 8:16–17 e Naum 1:5–6, pertencentes aos Doze Profetas Menores. O texto grego apresenta pequenas variações em relação à Septuaginta, revelando que a tradução bíblica era um processo dinâmico e mutável. O nome divino aparece escrito em hebraico dentro do texto grego, prática escribal que expressa reverência. Os manuscritos foram escondidos durante a revolta de Bar Kokhba, entre 132 e 136 d.C., juntamente com moedas e pontas de flecha da época. A descoberta ocorreu durante uma investigação realizada entre 2017 e 2021 para mapear mais de quinhentas cavernas e impedir saques. A operação também encontrou uma cesta trançada de 10.500 anos e o esqueleto mumificado de uma criança de seis mil anos.
Em julho de 2025, um óstraco com inscrição moabita foi encontrado em Tell es-Sultan, a Jericó bíblica. O objeto data da Idade do Ferro IIA, entre 960 e 840 a.C. O dialeto aproxima-se do da Estela de Mesa. A descoberta sugere que Jericó esteve sob domínio moabita nesse período, corroborando relatos bíblicos como Juízes 3, que menciona o rei Eglom de Moabe governando Jericó.
Textos carbonizados, faixas de múmias e papiros
A recuperação digital permite montar quebra-cabeças frágeis. A década de 2020 destacou-se por avanços tecnológicos como inteligência artificial, tomografia por raios X e aceleradores de partículas, que permitiram acesso a textos antes ilegíveis. Isso inclui fragmentos bíblicos preservados em cavernas do deserto e obras clássicas carbonizadas por erupções vulcânicas. O projeto de Herculano talvez produza o maior corpus de novos textos clássicos descobertos em séculos.
Os papiros de Herculano passaram por avanços revolucionários entre 2023 e 2025 graças ao Vesuvius Challenge, lançado em 2023. O projeto transformou o acesso à única biblioteca completa da Antiguidade já encontrada, composta por mais de 1.800 rolos carbonizados enterrados pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. Oferece prêmios para os times que conseguirem recuperar digitalmente os manuscritos.
Em 2023, ocorreu o primeiro desenrolamento virtual bem-sucedido mediante escaneamento por raios X com acelerador de partículas e inteligência artificial, permitindo a leitura de um rolo sem dano físico. Em outubro de 2023, pesquisadores conseguiram ler a primeira palavra de um rolo fechado de Herculano, “πορφύραc”, relacionada a “tinta púrpura” ou “roupas púrpuras”, utilizando inteligência artificial e tomografia por raios X.
Em maio de 2025, foi identificado pela primeira vez o título de um rolo ainda fechado: PHerc. 172, reconhecido como “Sobre os Vícios”, de Filodemo de Gadara. O título completo provável é “Sobre os vícios e suas virtudes opostas e em quem elas estão e sobre o quê”. A obra integra um tratado ético em múltiplos volumes antes conhecido apenas por referências indiretas. Entre 2024 e 2025, o síncrotron Diamond Light Source, no Reino Unido, escaneou os rolos com resolução de poucos milésimos de milímetro. A inteligência artificial conseguiu detectar tinta de carbono sobre papiro carbonizado. Os pesquisadores agora acreditam ser possível ler rolos inteiros sem abri-los fisicamente. Dezenas de novos rolos foram escaneados apenas no início de 2025. Esses textos podem conter obras perdidas de Epicuro, escritos cristãos primitivos ou literatura clássica desconhecida oriunda da biblioteca de Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino, sogro de Júlio César.
Entre o fim de 2025 e o início de 2026, um fragmento da Ilíada de Homero foi encontrado nas faixas abdominais de uma múmia egípcia do período romano em Oxirrinco, no Egito. O texto pertence ao célebre “Catálogo das Naus”, do Livro II da Ilíada, que enumera as forças gregas reunidas diante de Troia. Foi a primeira vez que um texto literário grego, em vez de um papiro mágico ou ritual, apareceu incorporado deliberadamente a um processo de mumificação. A múmia data de cerca de 400 d.C., demonstrando o prestígio duradouro de Homero no Egito greco-romano. O achado ocorreu ao lado de múmias com línguas douradas, amuletos destinados a ajudar os mortos a falar com Osíris na vida após a morte. Oxirrinco costuma ser descrita como “o mais próximo que temos de descobrir a Biblioteca de Alexandria em um lixão”, pois seus depósitos de lixo renderam dezenas de milhares de papiros desde o início das escavações britânicas no final do século XIX. A equipe responsável pertence à Universidade de Barcelona e ao Instituto de Estudos do Antigo Oriente Próximo, liderada por Maite Mascort e Esther Pons.
Em abril de 2026, trinta versos desconhecidos do poema filosófico Physica, de Empédocles, foram identificados no papiro P.Fouad inv. 218, preservado nos arquivos do Instituto Francês de Arqueologia Oriental, no Cairo. Nathan Carlig, papirólogo da Universidade de Liège, reconheceu o fragmento entre materiais negligenciados. Durante mais de dois mil anos, a obra de Empédocles sobreviveu apenas em citações indiretas presentes em Platão, Aristóteles, Plutarco e outros autores. O papiro constitui o único manuscrito conhecido da Physica, permitindo a leitura de Empédocles diretamente, sem intermediação interpretativa. O fragmento conecta-se a peças preservadas em Estrasburgo, sugerindo a dispersão de um rolo maior. Os versos discutem emanações de partículas e percepção sensorial, especialmente a visão, revelando uma tentativa precoce de formular uma teoria física da percepção. Foram identificadas conexões diretas com uma passagem de Plutarco, indicando que ele ainda possuía acesso ao texto completo hoje perdido. Há ainda vínculos com Platão, Teofrasto, Aristófanes e Lucrécio, demonstrando influência mais ampla do que se supunha. A descoberta reposiciona Empédocles como possível precursor dos atomistas, entre eles Demócrito. A edição recebeu o título L’Empédocle du Caire, organizada por Carlig, Alain Martin e Olivier Primavesi.
Em 2024, foram recuperadas noventa e sete linhas de duas tragédias perdidas de Eurípides, Ino e Polyidus. Os fragmentos foram identificados em um papiro proveniente de Filadélfia, no Egito, em uma antiga necrópole. Os pesquisadores responsáveis foram Yvona Trnka-Amrhein e John Gibert, ambos da Universidade do Colorado. O papiro foi encontrado em 2022 e identificado em 2024. Em Polyidus, o rei Minos de Creta confronta um vidente e exige que ele ressuscite seu filho morto. Em Ino, a personagem-título vangloria-se após arquitetar a morte dos enteados. Naomi Weiss, de Harvard, descreveu o achado como uma das descobertas mais importantes da literatura grega neste século e a maior recuperação de texto euripidiano perdido em décadas.
Em abril de 2026, papiros egípcios de três mil anos, alguns ainda lacrados, foram encontrados em uma tumba em Saqqara. Os rolos datam de cerca de 1000 a.C. e pertenciam à tumba dos “Cantores de Amon”, músicos de alto status ligados ao templo. Os papiros variam de tamanho e são considerados fonte valiosa de informação. Atualmente passam por restauração e tradução. Espera-se que contenham textos religiosos, hinos ou registros administrativos do fim do Novo Império e do início do Terceiro Período Intermediário.
Um momento auspicioso
Entre 2020 e 2026, os avanços nos estudos tiveram um salto inédito. A combinação entre filologia tradicional, tecnologias computacionais, reavaliação de acervos históricos, epigrafia e papirologia trouxeram à lume manuscritos e decifração de línguas há tempos esquecidas. A capacitação multidisciplinar de pesquisadores habilitou uma nova geração a utilizar inteligência artificial, imageamento multiespectral, tomografia e análise computacional nas humanidades. Novas escavações, como as da Caverna do Horror, Oxirrinco e Filadélfia, combinaram-se à reavaliação de arquivos esquecidos, como o papiro de Empédocles e a folha do Palimpsesto de Arquimedes. A reavalização de arquivos e nova análise de registros epigráficos e manuscritos com essas novas tecnologias estão abrindo portas para novas pedras de Rosetta na decifração de escritas. Em conjunto, essas descobertas indicam que a recuperação textual contemporânea depende cada vez mais da integração das humanidades digitais.
SAIBA MAIS
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VEJA TAMBÉM
Recursos Online para Clássicos da Antiguidade
Atualizado em 12 de maio de 2026.
Leonardo Marcondes Alves é pesquisador multidisciplinar.
Como citar esse texto no formato ABNT:
- Citação com autor incluído no texto: Alves (2026)
- Citação com autor não incluído no texto: (ALVES, 2026)
Na referência:
ALVES, Leonardo Marcondes. Avanços em descobertas de manuscritos e decifrações linguísticas. Ensaios e Notas, 2026. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2026/05/12/avancos-em-descobertas-de-manuscritos-e-decifracoes-linguisticas/. Acesso em: 12 maio 2026.
