Crônicas de Jizhong

I- A gloriosa descoberta de Biao Zhun

O ladrão de túmulos Biao Zhun foi cumprir seu mister no mausoléu do rei Xiang de Wei e encontrou dez caixas com setenta e cinco livros de ripa de bambu.

Ignorante que era, utilizou alguns dos volumes, já envelhecidos pelo descanso de seiscentos anos, como tocha para explorar outras câmaras. Não encontrou o tesouro que desejava. Mas uma espada de bronze chamou-lhe a atenção. Pelo menos os bambus deveriam valer alguma coisa para os letrados.

Sabendo da descoberta, os sábios da província de Jizhong peticionaram ao imperador a aquisição dessa biblioteca esquecida. Recompensaram Biao Zhun com muitos tesouros e louvores.

Dada sua limitada erudição, não podiam fazê-lo um mandarim. Portanto, foi nomeado nobre general. Andava vestido de seda, carregando solenemente a espada de bronze. O imperador deu-lhe sua filha como esposa. Ganhou uma prebenda do governador. Os sábios rendiam-lhe poemas.

O rude Biao Zhun agora seria imortalizado por sua inegável contribuição às ciências e à literatura.

Então os sábios de Jizhong começaram a tediosa tarefa de transcrever os manuscritos. Havia muita coisa há tempos esquecidas. Muitos livros só eram lembrados por obscuras alusões. Obras perdidas nas chamas da destruição dos arquivos e bibliotecas ordenada pelo Primeiro Imperador Qin Shihuang ganharam atentos leitores. Eram manuscritos de história, geografia, divinação, filosofia e ciências. O acervo produzia um incomensurável poder. Um magnífico renascimento despontava sua alvorada.

Ao aprofundarem-se no conteúdo das crônicas, os sábios de Jizhong suplicaram ao imperador um bom uso para a espada de bronze: decapitaram Biao Zhun.

II -O cego de Jizhong

Décadas depois de Biao Zhun perder sua cabeça, um homem estranho apareceu em Jizhong. Veio por um barco pelo rio Amarelo. Seu nome era Mozak. Dizia que viera de um país chamado Daqin, mas ninguém tinha ouvido falar de tal lugar. Ele sempre carregava uma caixinha.

Ele ensinava artes mágicas e em pouco tempo foi considerado um profeta. Explicava que o mundo era a mistura constante de dois princípios. Havia rumores que era a reencarnação de um grande sábio que teve a humildade de voltar à terra entre a escória bárbara no poente. Milagres passaram a serem atribuídos ao estranho. Circulava sempre com suas escrituras misteriosas.

Embora Mozak não tenha jamais aceitado tal designação, o povo de Jizhong chamou-lhe Lao Dan.

Um dia, um homem roubou sua caixinha.

Dentro, havia um ídolo de pedra vulcânica.

Ao tocá-lo, o ladrão ficou cego. Porém, passou a ser venerado como o mais sábio de Jizhong. Juntou discípulos convencendo-os de que o mundo era uma clivagem irreparável de dois princípios que se destruíam. Mas que confiassem nele, pois seria o único capaz de identificar os demônios que assolavam o país. E tinha a fórmula como esmagá-los. Mercadores corruptos cobriram-lhe de ouro. Burocratas jovens e ambiciosos buscavam seu conselho. Guerreiros covardes imploravam por sua aprovação.

Depois do incidente, Mozak desapareceu. Dizem que sumiu montado em um búfalo. Deixou manuscritos com indicações como alcançar a paz celestial no qual nem a dualidade nem os demônios teriam mais vigor.

Diante dessa ameaça, os sábios esconderam os papéis de Mozak na tumba do imperador ou num campo comum. Ninguém soube ao certo. Seguiram-se séculos de guerras, revoltas e inquisições.

III-A preservação

O mestre-escola tateava desesperado pelas paredes frias e úmidas da mina. Seu erro fatal foi ser letrado meio à turba que condenava o conhecimento. Tinha sido deportado para o campo de trabalho para reeducar-se nos valores do novo regime. Aprendeu penosamente que o obscurantismo, o pragamatismo desleal e o nivelamento horizontal da mediocridade eram vitais para a sobrevivência.

No dia anterior, arando a terra pedregosa, encontrou uma caixa com papéis antiguíssimos. Estupefato, celebrou sozinho sua grande descoberta.

À noite, depois da magra sopa, compartilhou com um velho poeta e um desacreditado jornalista seus achados.

Seus companheiros menearam a cabeça.

A descoberta era realmente grande. Conectava a séculos e mesmo milênios de conhecimento perdido. Realmente transformaria o mundo para melhor. Mas, e agora? O momento e as circunstâncias não podiam ser piores. Eles estavam ali pelo simples fato de pensarem por si mesmos. Era crime ter uma educação. Os guardas do campo poderiam executá-lo por portar os manuscritos não autorizados.

Resoluto, o mestre-escola decidiu preservar a ciência dos antigos.

Na manhã seguinte voluntariou-se para trabalhar nas minas. Riram da insanidade do supostamente sabichão. Tanta cultura não lhe alertou de que muitos morriam caminhando interminavelmente nesse labirinto? Sem mapa, sem luz, sem direção, sem ar muita gente jamais voltava das profundezas da terra. A escuridão eterna servia-lhe de sepultura.

Exatamente para lá que o mestre-escola desejava ir.


Baseado em lendas sobre eventos que realmente aconteceram — exceto as partes as quais eu inventei.

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