Marco Polo: o Velho da Montanha e os assassinos

Assassino, haxixe, fanatismo e videogame remontam desse relato de Marco Polo. O viajante veneziano reportou aos europeus a lenda que se formou ao redor Hassan-i Sabbah e sua Ordem dos Assassinos. O erudito e líder militar Hassan-i Sabbah (c. 1050 – 1124) adotou a versão nizari do islã xiita e entre 1090 e 1275 sua ordem de seguidores controlaram vários castelos e fortalezas desde o Castelo de Massiafé, a 60 km do Mar Mediterrâneo, até o Castelo de Alamute, ao sul do Mar Cáspio no Irã.

O austero Hassan-i Sabbah fez do Castelo de Alamute um centro do saber. Construiu jardins, biblioteca e laboratórios para que os sábios pudessem debater em liberdade intelectual. A identidade do Velho da Montanha é, por vezes, atribuída ao líder Assassino Rashid ad-Din Sinan (1131-1193). Sinan era o senhor do castelo de Massiafé e era caçado pelo sultão Saladino (1138-1193). Em 1176 Saladino sitiou Massiafé, mas uma noite, os guardas notaram uma pequena luz no campo inimigo que depois desapareceu. Saladino acordou e viu uma sombra saindo da tenda. Notou que as lâmpadas em sua tenda foram mudadas de lugar e ao lado de sua cama havia bolinhos dos Assassinos com um bilhete ficado numa estaca por uma adaga. O bilhete ameaçava que ele seria morto se não levantasse o cerco. O sultão não apenas obedeceu, mas procurou se alinhar com os Assassinos contra os cruzados.

Os mongóis deram cabo à Ordem. A última vítima conhecida foi Filipe de Montfort, senhor de Tiro. Depois, a Ordem se dissipou. Os ismaili modernos vivem em Lisboa são cavalheiros polidos. Já a tática sobrevive junto da lenda.

Segue o trecho original de Marco Polo:


O Velho mandou cercar um certo vale entre duas montanhas e o transformou num jardim – o maior e mais belo que já se viu. Estava cheio de todas as variedades de frutas. Nela foram erguidos pavilhões e palácios os mais elegantes que se podem imaginar, todos folhados a ouro e pintura primorosa. E também havia canos fluindo livremente com vinho, leite, mel e água. E havia um número das donzelas mais bonitas do mundo, que tocavam todos os tipos de instrumentos. Elas cantavam muito docemente e dançavam de uma maneira que era encantadora de se ver. O Velho queria fazer seu povo acreditar que este era realmente o paraíso. Assim, ele o moldou de acordo com a descrição que Maomé deu de seu paraíso, a saber, que deveria ser um belo jardim com canais de vinho e leite e mel e água, e cheio de mulheres adoráveis ​​para o deleite de todos os seus moradores. E com certeza os sarracenos daquelas partes acreditavam que era o paraíso!

Agora, nenhum homem tinha permissão para entrar no jardim, exceto aqueles que ele pretendia que fossem seus Assassinos. Havia uma fortaleza na entrada do jardim, forte o suficiente para resistir a todo o mundo, e não havia outra maneira de entrar. Mantinha em sua corte alguns jovens do país, de doze a vinte anos, que tinham gosto pelo serviço militar. Eles costumavam contar estórias sobre o paraíso […].

Então ele os introduzia em seu jardim, cerca de quatro, ou seis, ou dez de cada vez, primeiro fazendo-os beber uma certa poção que os lançava em um sono profundo, e depois fazendo com que fossem levantados e carregados. Quando, portanto, acordavam e se encontravam em um lugar tão encantador, julgavam que era o paraíso na verdade. De sua próprio vontade eles nunca sairiam do lugar.

Ora, este príncipe, a quem chamamos o Velho, manteve sua corte em grande e nobre estilo e fez com que aqueles simples montanheses ao seu redor acreditassem firmemente que ele era um grande profeta.

E quando ele queria enviar um de seus Assassinos em qualquer missão, ele fazia com que aquela poção de que falei fosse dada a um dos jovens no jardim, e então o levava para seu palácio. Assim, quando o jovem acordou, encontrou-se no castelo, e não mais naquele paraíso; onde ele não estava muito satisfeito. Ele foi então conduzido à presença do Velho e inclinou-se diante dele com grande veneração, acreditando estar na presença de um verdadeiro profeta. O príncipe então perguntava de onde vinha, e ele respondia que vinha do paraíso, e que era exatamente como Maomé o havia descrito. Isso, é claro, deu aos outros que estavam presentes, e que não foram admitidos, o maior desejo de entrar nele.

Assim, quando o Velho mandava matar qualquer príncipe, ele dizia a tal jovem: “Vá e mate fulano de tal, e quando você voltar, meus anjos o levarão ao paraíso. E se você morrer, mesmo assim enviarei meus anjos para te levar de volta ao paraíso”.

Então ele os fazia crer. Desse modo, não havia nenhuma ordem dele da qual eles temeriam perigo para executar, por causa do grande desejo que tinham de voltar para aquele paraíso. E dessa maneira o Velho fez com que seu povo matasse qualquer um de quem ele desejasse se livrar.

Ora, aconteceu que no ano de 1252, Alau, Senhor dos Tártaros do Levante, ouviu falar desses grandes crimes do Velho e resolveu acabar com ele. Então, pegou e enviou um de seus comandades com um grande exército para aquele castelo. Eles o cercaram por três anos, mas não puderam tomá-lo, tão forte era o lugar. Mas depois de três anos, os defensores, com falta de comida, foram obrigados a se render. O Velho foi morto com todos os seus homens, e o castelo com seu jardim do paraíso foi nivelado com o chão. E desde então não teve sucessor. Assim, houve um fim para todas as suas vilanias.

SAIBA MAIS

Assassin’s Creed. Ubisoft, 2007-

POLO, Marco. O Milhão ou Livro das maravilhas do mundo ou as viagens de Marco Polo. 1.23-25 [1298]. Em inglês.

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