A incômoda descoberta dos livros de Numa Pompílio

Descoberta da sepultura de Numa Pompílio Polidoro - Caravaggio

Descoberta da sepultura de Numa Pompílio. Caravaggio (c.1499–c.1543)

Os eventos dos livros aconteceram no consulado de Públio Cornélio Cetego e de Marco Baebio Tamfilo[1], quinhentos e trinta e cinco anos após da morte[2] de Numa Pompílio, o pacífico e pio rei de Roma. Naquele ano, marcado por guerras na Hispânia, por ataques de piratas da Ligúria e Ilíria, por uma severa estiagem na qual nenhuma chuva caiu durante seis meses, além de uma epidemia, a República não podia sofrer mais um abalo.

Tentando aumentar sua produtividade meio à seca, certo escriba proprietário de um campo ao pé do Janículo, uma das colinas de Roma, decidiu expandir o cultivo. O escriba, as fontes[3]  divergem se Cneio Terêncio ou Lúcio Petílio, mandou que seus empregados arassem uma área nova perto do monte.

Quando aravam ou cavavam, deram-se com dois cofres ou caixões de pedra. Os dois baús de pedra mediam cerca de 2,5 metros de comprimento por 1,20 de largura, com as tampas fechadas com chumbo.

Cada uma delas trazia uma inscrição em latim e grego. Uma dizia que Numa Pompílio, filho de Pompo e rei dos romanos, estava enterrado lá, e outra dizia que continha seus livros.

O sábio Numa Pompílio deixou uma boa memória entre os romanos. Nutria uma amizade com os deuses e com os homens. Pacífico, ensinou os beligerantes romanos a cultivar valores mais elevados, como honrar a religião, cumprir a lei e tratar os inimigos com humanidade. Evitando a idolatria, proibiu os romanos de cultuar as estátuas dos deuses.

Foi este rei quem fez os romanos considerassem os marcos de limite das propriedades como sagrados. Cada um deveria se contentar com suas próprias posses, sem se apropriar as dos outros, quer pela violência, quer pela fraude.[4]

Quando o proprietário, por sugestão de seus amigos, os abriu encontrou a real tumba vazia. Nenhum vestígio de restos humanos.

No outro caixão de pedra – quase no meio do cofre – havia uma pedra quadrada, amarrada em todos os lados com cordas envolvidas em cera. Nela havia dois maços de folhas atados com cordas enceradas, cada um contendo sete ou seis livros, não apenas intactos, mas aparentemente novos. Os maços também estavam cuidadosamente recobertos com folhas cítricas. Esses livros eram feitos de papiro e, mais notável ainda, duraram tantos anos enterrados no solo.

Metade dos livros estavam em latim e versava sobre direito pontifício, com os decretos que Numa fez para instruir o bom andamento da religião romana. Outra metade deles, em grego, tratava sobre filosofia. Especulou-se de que seriam certas doutrinas relativas à filosofia pitagórica; mas mais tarde Cícero provou que tal hipótese seria anacrônica. Numa Pompílio teria vivido ao menos uns 150 anos antes de Pitágoras[5].

A descoberta foi excitante. Numa Pompílio talvez quisesse que a religião fosse praticada de coração e transmitida publicamente e por isso teria sido sepultado junto delas. Essa sábia decisão evitava que seus livros virassem instrumentos de legalismos sem qualquer deferência aos propósitos de seus conteúdos. Mas agora, os sentidos originais de sua doutrina seriam conhecidos.

Os livros foram primeiro examinados pelos amigos. Depois, os papiros começaram a circular. À medida que aumentava o número dos leitores e os livros se tornavam amplamente conhecidos, Quinto Petílio, o pretor da cidade, ficou ansioso para lê-los e os tomou do escriba.

Na época os dois estavam em bons termos. Quando Quinto Petílio fora questor, ele teria dado a Lúcio Petílio um lugar no decúrio. Era bom fazer negócios com gente como a gente, no caso a gens Petilii, especialmente porque nesse ano a Lex Baebia dificultou cada vez mais a corrupção eleitoral.

O Pretor sabia que as coisas ultimamente estavam ficando cada vez mais complicadas. Dez anos antes, o grande líder militar Mânio Acílio Glábrio teve o demérito de ter de convencer o Senado a dar-lhe as honras de uma entrada triunfal em Roma após vencer Antíoco, o Grande na Batalha das Termópilas. O tão piedoso Glábrio fazia de tudo pela República e até outorgou aos pontífices o poder de alterar o calendário conforme fosse conveniente. Depois, o pobre Glábrio ainda enfrentou a ingratidão quando um de seus comandados teve a insolência de denunciar que o militar tinha apropriado indevidamente dos tesouros de Antíoco. O heroico Glábrio teve de retirar sua candidatura ao cargo de censor.

Depois de ler as passagens mais importantes, os livros perturbaram ao Pretor. A maioria das passagens ameaçava levar à dissolução da religião nacional, pois explicavam as motivações das instituições sagradas. Os ritos da religião não tinham mais a aura de mistério. Cerca de cinco anos antes, um culto secretivo, as bacanais, ameaçaram Roma com seus ritos reservados somente para os iniciados e realizado nas sombras da noite. O Senado, sem saber ao certo do que se tratava, preferiu proibir as bacanálias e executar muita gente[6]. Agora o desafio se repetia.

Apesar de a descoberta das escrituras sagradas ser algo a ser louvado e de interesse público, Lúcio prometeu que jogaria os livros no fogo. Mas antes, disse que gostaria de saber, se poderia reivindicá-los pelo direito de posse ou pela autoridade dos tribunos da plebe. Claro, isso sem perturbar suas relações amistosas com o Pretor. O escriba abordou os tribunos e eles deixaram o assunto para o Senado.

No Senado, o Pretor afirmou que os livros não deveriam ser preservados. Os ritos sagrados conforme as disposições que os livros de Numa revelavam de modo algum podia ser tolerados. Eram indignos.

Alguns dos principais senadores leram algumas das motivações dos ritos. As causas das coisas sagradas nunca deveriam vir ao conhecimento do povo ou do Senado, ou mesmo dos próprios sacerdotes.

O Senado encarava o dilema: condenar a religião conforme entendia seu venerado instituidor ou aceitar suas explicações e minar todos os pináculos da piedade pública.

O Senado, mesmo sem conhecer o conteúdo, considerou os argumentos do Pretor suficientes. Enterrá-los novamente seria um risco para a República, então ordenou a queima dos livros o mais rápido possível no Comício. Qualquer quantia que o pretor e os tribunos considerassem um preço justo pelos livros deveria ser pago ao proprietário. Um tanto suspeito livros antigos tão bem preservados aparecerem exatamente na propriedade de um escriba. O escriba recusou-se a aceitar dinheiro.

As explicações ou as leis originais de seu grande profeta do passado deveriam ter sido decompostas pelo tempo pelo bem da República. Agora, faziam o sacrilégio de emergirem em um momento delicado para a sociedade.

Os livros foram queimados no comício à vista do povo, sacrificados pelos victimarii[7].

Viver a religião aliada do Estado na ignorância seria mais benéfico que a verdade.

Graças aos fogos expiatórios dos sacerdotes que deram cabo às sagradas e perniciosas escrituras, Roma poderia dormir sossegada.

Naquele mesmo ano, o Estado consagrou os templos de Vênus Ericina – dedicado ao prazer e à prosperidade – e da Pietas  – esse dedicado à devoção pública. Ainda como prova da importância do culto público, este seria o ano em que uma estátua recoberta de ouro – deferência devida aos deuses – foi inaugurada pela primeira vez em homenagem a um mortal: a Mânio Acílio Glábrio.


[1] No ano 181 a.C.

[2] Numa Pompílio teria vivido em 715 e 672 a.C.

[3] Plínio História Natural 13.27; Agostinho de Hipona Cidade Deus 7.34; Plutarco Vidas Paralelas 22.2-5; Títo Lívio Ab Urbe Condita Libri 11.29. Entre as fontes perdidas ou fragmentárias estão Valerius Antias, Lúcio Cássio Hemina e Marcos Terêncio Varro.

[4] Dionísio de Halicarnasso. Antiguidades Romanas 2.74.4.

[5] Cícero. De republica 2.28.

[6] Senatus consultum de Bacchanalibus; Tito Lívio Ab Urbe Condita Libri 39.17.

[7] Os victimarii eram os responsáveis pelos sacrifício. Tal sagrada atividade, vital para o Estado, era desprezada pela aristocracia, dado seu sanguinolento caráter e redolência incômoda.

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