Écloga IV de Virgílio: A écloga messiânica

A écloga V de Virgílio conta o nascimento de um menino, um salvador, que – sendo divino – um dia governará o mundo.

Sibila de Cumas de Michelângelo, capela sistina

Sibila de Cumas de Michelângelo, Capela Sistina

Públio Virgílio Maro (70 a.C. – 19 a.C.), o grande poeta romano, teria composto as bucólicas ou as églogas por volta do ano 40 a.C. Na época, Roma tinha passado por um período turbulento no final da República, mas antevia o prenúncio de uma fase gloriosa na era de Augusto  –  o apogeu da civilização romana.

A écloga ou égloga é um gênero lírico pastoral. Na Antiguidade os poetas Teócrito e Virgílio o consagraram, mas possui antecessores como a poesia idílica de Hesíodo e os salmos de Davi. No Renascimento o gênero foi recuperado, tendo se destacado em língua portuguesa Luís de Camões, os árcades, António Ferreira e Sá de Miranda. O gênero é caracterizado com um eu-lírico pastor declamando o poema em versos em hexâmetro em um solilóquio ou um diálogo. Temas existenciais universais, como a moralidade de uma existência moderada e o louvor de uma vida simples e idílica predominam nesse gênero.

O que é peculiar desse poema de Virgílio é sua recepção por leitores cristãos. Não por acaso, pois há abundante paralelismo temático do poema com o nascimento de Jesus de Nazaré conforme relatado nos quatro evangelhos canônicos.

Embora desconsiderado como um caso de eisegese – atribuição posterior de sentidos a um texto que escapa de seu próprio escopo – a história da recepção do poema por autores cristãos indica como ocorre a construção de sentidos com blocos e materiais pré-existentes.

Quando o cristianismo passou de religião das catacumbas para religião de Roma, a poesia pública de Virgílio veio a calhar como ideologia de Estado. De perseguidores, os romanos passaram a ter uma função profética na vinda de um messias universal. Não por menos, o imperador Constantino o recitou em discurso a líderes cristãos por volta de 312.[1]

Acostumado a ver sinais nas coisas, Constantino viu parâmetros em um poema da profetisa Sibila de Cumas com o acróstico “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador, Cruz “. Constantino argumenta que Virgílio referia-se à Sibila esse oráculo. A teologia do imperador é clara. Em sua recepção do poema, vê a vinda de um Deus para reinar na terra, estabelecendo a justiça. A virgem seria Maria e o rei, Jesus Cristo, a serpente Satanás e a era dourada cabe bem na era augustana, mas porque não seu próprio reinado?

A leitura de Constantino providenciava uma síntese das expectativas cristãs. No grego do Novo Testamento há distinção para a palavra tempo em chronos, a sucessão temporal, e kairos, a ocasião, o momento oportuno. Nisso, funde-se a interpretação do apóstolo Paulo:

Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo; mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.[2]

A interpretação de Constantino era compartilhada por outros pensadores da época. Lactâncio, por exemplo acreditava que Virgílio estivesse falando de Jesus Cristo, não de sua encarnação, mas de sua segunda vinda[3]. Agostinho de Hipona em sua grande interpretação teológica da história, A cidade de Deus, enxerga vestígios de culpa que somente seriam apagados pelo Salvador descrito no poema.[4] No entanto, essa cristianização de Virgílio não foi unânime. Jerônimo a criticou como eisegética e pueril.[5]

Ironicamente, conceito de kairos permitiria uma recepção do poema sem caracterizar uma apropriação indevida ou superinterpretação. Como mencionado, kairos significa tempo, mas sem o caráter específico e dimensional de chronos. Kairos denota um momento oportuno e crítico para uma ação. Uma vez lançado, um texto não fica preso mais à intenção do autor. A cristianização dessa écloga nos momentos da virada constantiniana reflete como a comunidade interpretativa seleciona elementos que sejam dotados de sentidos. Um repertório previamente disponível torna-se atual e significativo a cada leitura.

Uma maneira de atualização da leitura é por meio de recombinação. Entre os romanos, esse gênero era o cento. Essa combinação de versos de autores célebres servia para dizer algo novo em outro momento. A poetisa Faltônia Beticia Proba, uma das madres da Igreja, combinou 694 versos de Virgílio para narrar uma história cósmica desde a criação até a ressurreição de Cristo em seu Cento Vergilianus de laudibus Christi.[6] Infelizmente o Cento de Proba está um pouco esquecido. Essa contemporânea de Agostinho em seus outros poemas denunciava líderes cuja sede de poder violava a verdade. Se em outros poemas (hoje perdidos) convivia com a usurpação de poder e misturas profanas de religião e política, seu poema religioso ressacraliza o profano com as palavras de um de seus poetas máximos, pois Virgílio fora comissionado por Augusto para fazer o épico nacional romano. Assim, Proba sacraliza os enunciados do civismo romano, conjungado a Antiguidade Clássica com um futuro cristão. em 1472, esse poema de Proba a fez a primeira poetisa a ser impressa na Europa.

A recriação de Proba não só legitimiza a síntese entre Roma e cristianismo, mas sumariza a recepção religiosa de outros artefatos. Foi assim a recepção das profecias de Isaias realizada em Jesus de Nazaré. Foi assim com as obras literárias do Antigo Oriente Médio recepcionadas nas escrituras hebraicas. Análogo a uma teologia da encarnação, o divino se torna atual através da matéria pré-existente.

Uma recepção popular ocorreu na Canção da Sibila. Na Catalunha e Provença, El Cant de la Sibilla é um recital cantando na véspera de Natal em várias igrejas, sendo listado como Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2010.

Outra recepção hino medieval Dies irae, os dias da ira, prenuncia o juízo final como:

Dies irae, dies illa, Solvet saeclum in favilla: Teste David cum Sibylla.// Dia da ira, aquele dia, quando o mundo se dissolve em cinzas, testemunhado por Davi e pela Sibila.

O batismo póstumo de Virgílio valeu-lhe o papel de guia de Dante em O Inferno em sua Divina Commedia. Os poetas compartilham o gênero épico e o florentino retrata seu interlocutor romano entre os justos que morreram antes do nascimento de Cristo. Outro poeta épico, Alexander Pope, escreveu Messiah-A Sacred Eclogue in Imitation of Vergil’s Pollio. Teria ainda representações visuais[7]. Em tempos recentes e em prosa, a romancista sueca  Selma Lagerlöf em Os Milagres do Anticristo (1897) abre sua narrativa com uma cena que dá calafrios. Augusto encontra a Sibila, velhíssima, no centro de Roma e ela prevê a queda do império romano e a vinda de um novo Senhor.

Segue o poema, em sua versão original, do site Perseus, e uma tradução da Écloga em português de Zélia de Almeida Cardoso.

ÉCLOGA IV

Sicelides Musae, paulo maiora canamus!

Non omnis arbusta iuvant humilesque myricae;

si canimus silvas, silvae sint consule dignae.

Ultima Cumaei venit iam carminis aetas;

magnus ab integro saeclorum nascitur ordo:

iam redit et Virgo, redeunt Saturnia regna;

iam nova progenies caelo demittitur alto.

Tu modo nascenti puero, quo ferrea primum

desinet ac toto surget gens aurea mundo,

casta fave Lucina: tuus iam regnat Apollo.

Teque adeo decus hoc aevi te consule inibit,

Pollio, et incipient magni procedere menses.

te duce, si qua manent sceleris vestigia nostri,

inrita perpetua solvent formidine terras.

ille deum vitam accipiet, divisque videbit

permixtos heroas, et ipse videbitur illis,

pacatumque reget patriis virtutibus orbem.

At tibi prima, puer, nullo munuscula cultu

errantis hederas passim cum baccare tellus

mixtaque ridenti colocasia fundet acantho.

Ipsae lacte domum referent distenta capellae

ubera, nec magnos metuent armenta leones;

ipsa tibi blandos fundent cunabula flores,

occidet et serpens, et fallax herba veneni

occidet, Assyrium volgo nascetur amomum.

at simul heroum laudes et facta parentis

iam legere et quae sit poteris cognoscere virtus,

molli paulatim flavescet campus arista,

incultisque rubens pendebit sentibus uva,

et durae quercus sudabunt roscida mella

Pauca tamen suberunt priscae vestigia fraudis,

quae temptare Thetim ratibus, quae cingere muris

oppida, quae iubeant telluri infindere sulcos:

alter erit tum Tiphys, et altera quae vehat Argo

delectos Heroas; erunt etiam altera bella,

atque iterum ad Troiam magnus mittetur Achilles.

Hinc, ubi iam firmata virum te fecerit aetas,

cedet et ipse mari vector, nec nautica pinus

mutabit merces: omnis feret omnia tellus:

non rastros patietur humus, non vinea falcem;

robustus quoque iam tauris iuga solvet arator;

nec varios discet mentiri lana colores:

ipse sed in pratis aries iam suave rubenti

murice, iam croceo mutabit vellera luto;

sponte sua sandyx pascentis vestiet agnos.

Talia saecla, suis dixerunt, currite, fusis

concordes stabili fatorum numine Parcae.

Adgredere o magnos—aderit iam tempus—honores,

cara deum suboles, magnum Iovis incrementum!

Aspice convexo nutantem pondere mundum,

terrasque tractusque maris caelumque profundum!

Aspice, venturo laetentur ut omnia saeclo!

O mihi tam longae maneat pars ultima vitae,

spiritus et quantum sat erit tua dicere facta!

Non me carminibus vincet nec Thracius Orpheus,

nec Linus, huic mater quamvis atque huic pater adsit,

Orphei Calliopea, Lino formosus Apollo,

Pan etiam, Arcadia mecum si iudice certet,

Pan etiam Arcadia dicat se iudice victum.

Incipe, parve puer, risu cognoscere matrem,

matri longa decem tulerunt fastidia menses.

Incipe, parve puer, cui non risere parentes,

nec deus hunc mensa, dea nec dignata cubili est.

Os arbustos e humildes tamarindos não agradam a todos.

Se cantamos florestas, que sejam as florestas dignas do cônsul.

Já chegou a última época da profecia de Cumas:

surge novamente a grande ordem da totalidade dos séculos.

A Virgem já está de volta, voltam os reinos de Saturno,

uma nova geração é enviada do alto do céu.

Tu, casta Lucina, favorece o menino que nasceu há pouco;

por causa dele, a época de ferro desaparecerá

e a geração de ouro surgirá no mundo. Apolo é quem reina agora.

Sendo tu, ó Polião, sendo tu o cônsul, a glória desta idade avançará,

e os grandes meses começarão a correr, sendo tu o chefe.

Se permanecem alguns vestígios de nossos crimes,

serão apagados e libertarão a terra de um pavor eterno.

Ele receberá a vida dos deuses e verá os heróis

misturados às divindades; ele próprio será visto entre elas

e regerá com as virtudes paternas o universo pacificado.

E para ti, criança, a terra produzirá, sem cultura alguma,

pequenos presentes: heras que vicejam aqui e ali como nardos,

colocásias misturadas ao alegre acanto.

As próprias cabrinhas trarão de volta ao lar os úberes retesados

de leite, e os rebanhos não temerão os grandes leões.

Os próprios berços produzirão para ti mimosas flores.

A serpente morrerá, e morrerá a erva enganadora do veneno;

O amomo assírio nascerá em toda parte.

E assim que puderes ler os louvores dos heróis

e os feitos de teus ancestrais, e saber o que é o valor,

aos poucos, o campo amarelará com espigas maduras,

as uvas vermelhas penderão dos espinhais incultos

e os rudes carvalhos destilarão úmidos méis.

Sobrarão, entretanto, alguns vestígios da maldade antiga,

capazes de ordenar que se afronte Tétis, com navios,

que se circundem as cidades com muros, que se abram sulcos na terra.

Haverá então outros Tífis e outra Argo que transportará

heróis escolhidos; e haverá também outras guerras

e mais uma vez um grande Aquiles será enviado a Tróia.

E então, quando a juventude já te tiver tornado um homem,

não só o comandante deixará o mar como também o pinho náutico

não mercadejará; a terra toda produzirá de tudo.

O solo não precisará suportar arados, nem as vinhas, foices;

e o labrador robusto desprenderá os jugos do touro;

a lã não aprenderá a imitar cores diversas:

o próprio carneiro, no prado, transformará seu velo

em púrpura vermelha ou em dourado açafrão;

o escarlate, espontaneamente, vestirá os cordeiros que pastam.

“Correi, séculos tais”, disseram a seus fusos

as Parcas concordes com imutável desejo dos fados.

Ergue-te para as grandes honrarias – pois o tempo chegará -,

rebento querido dos Deuses, prole grandiosa de Júpiter.

Observa o universo oscilante em sua massa convexa,

as terras, as extensões do mar e o céu profundo.

Observa como tudo se alegra com o século que está por vir.

Que para mim se estenda a última parte de uma longa vida

e que o alento me seja suficiente para cantar teus feitos.

O trácio Orfeu não me venceria com suas canções

e Lino também não, embora a mãe assista àquele e o pai a este:

Calíope, a Orfeu; o formoso Apolo, a Lino.

Até mesmo Pã, se disputasse comigo, sendo a Arcádia o juiz,

até mesmo Pã, sendo a Arcádia o juiz, se declararia vencido.

Começa, pequena criança, a reconhecer tua mãe pelo sorriso

(os dez meses trouxeram longos incômodos a tua mãe);

começa, pequena criança: aquele a quem os pais não sorriram,

os Deuses não o consideram digno de sua mesa nem as Deusas de seu leito.

NOTAS

[1] Eusébio de Cesareria.  Vita Constantini, IV 32.

[2] Paulo de Tarso. Gálatas 4:3-5

[3] Lucio Célio Firmiano Lactâncio. Divinae institutiones, VII, 24.

[4] Agostinho de Hippona. De civitate Dei, X, 27.  Veja também de Agostinho, Epístola 137, III, 12: Epístola 104, III, II.

[5] Eusébio Sofrônio Jerônimo. Epístola 53, ad Paulinum [De studio Scripturarum]. VII.

[6] Sobre Proba, vide Schottenius Cullhed (2015), Sandnes (2011), Ventura (2013) e Clark e Hatch (1981).

[7] Para as representações renascentistas, veja Houghton (2015).

SAIBA MAIS

Bernardes, José August.  O Bucolismo Português: A Égloga do Renascimento ao Maneirismo. Coimbra: Almedina, 1988.

Bourne, Ella. “The messianic prophecy in Vergil’s fourth Eclogue.” The Classical Journal 11, no. 7 (1916): 390-400.

Cardoso, Zélia de Almeida. Écloga IV. Em  Novak, Maria da Gloria; Neri, Maria Luiza (org.)Poesia Lírica Latina. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Clark, Elizabeth A., Diane F. Hatch. “Jesus as hero in the vergilian “cento” of Faltonia Betitia Proba.” Vergilius (1959-) (1981): 31-39.

Clark, Elizabeth A.; Hatch, Diane F., The Golden Bough, The Oaken Cross: The Virgilian Cento of Faltonia Betitia Proba. Chico, California: Scholars Press, 1981.

Guzzo, María Luisa La Fico; Carmignani, Marcos. Proba Cento Vergilianus de Laudibus Christi – Ausonio Cento Nuptialis. Edição bilíngue. Buenos Aires, Edi UNS, 2018.

Houghton, Luke BT. “Virgil’s fourth Eclogue and the visual arts.” Papers of the British School at Rome 83 (2015): 175-220. https://doi.org/10.1017/S0068246215000082

Pelikan, Jaroslav. Jesus through the centuries: His place in the history of culture. New Haven: Yale University Press, 1999.

Sandnes, Karl Olav. The Gospel’According to Homer and Virgil’: Cento and Canon. Series: Supplements to Novum Testamentum volume 138. Leiden, Brill, 2011.

Schottenius Cullhed, Sigrid. Proba the Prophet: The Christian Virgilian Cento of Faltonia Betitia Proba. Leiden, Brill, 2015.

Ventura, Mariana S.. Proba, Cento Vergilianus de laudibus Christi; Ausonio, Cento nuptialis. Argos,  Ciudad Autónoma de Buenos Aires ,  v. 36, n. 2, p. 211-216,  2013.

2 respostas para ‘Écloga IV de Virgílio: A écloga messiânica

  1. Leio pela primeira vez esse poema espantoso, do qual até ouvi um catequista famoso falar. Me fez lembrar o belo e erudito soneto de Manuel Bandeira que dá uma eisegese para a morte de Pã como marco do advento do cristianismo e a derrocada dos deuses.

    Curtido por 1 pessoa

    1. É a estética da recepção. Uma obra ganha contornos e valia literária pelos seus leitores. A eisegese estaria se focássemos no intento autoral e na audiência original, mas grandes obras ganham ressignificações.

      O tema do crespúsculo dos deuses das sagas germânicas já cristianizadas repetem o mesmo feito do Bandeira.

      Obrigado pela visita ao blog. 😀

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