O Cento de Proba e a magnitude dos significados

Numa época em que memorizar e recitar poemas era algo admirado, mais espanto ainda causava quem compunha os centos.

Uma das madres da Igreja foi Faltonia Betitia Proba (c.322-.c370). Supondo que sua data estimada para nascimento esteja certa, este ano faria 1700 anos. Números grandes são sua especialidade.

Proba era da aristocracia do decadente império romano. Seu marido, o prefeito imperial Adelphius de Anicii, andava em ovos com problemas de um império dividido. Talvez esperasse que sua poesia converteria o esposo.

O cento é um gênero literário que consiste em pegar versos e reconfigurá-lo de forma coerente. Essa colcha de retalhos (é o que a etimologia grega kéntron sugere) implica em manter uma métrica ou rima ou qualquer outro critério poético sem alterar o verso. O salmo 86 (salmo 85 nas bíblias Septuaginta, Vulgata e nas edições católicas em português) é um exemplo de cento na Bíblia. 

O objetivo era criar algo novo, emergente, de matéria já existente. Embora copiado no nível atomístico dos versos, havia sim criatividade e originalidade na obra total. 

Proba pegou, quiçá de memória, versos de vários livros de Virgílio. Foram 694 linhas no total. E ela rearranjou-os para contar uma história cósmica e teológica. É uma história da salvação desde o gênesis até o ápice na vida de Jesus Cristo. Seria também uma das antecessoras de Dante: é, talvez, a primeira alusão poética do inferno na literatura cristã.

Agora, imagine que o Cento de Proba fosse perdido. Sabemos o tamanho da sua obra final e temos o quebra-cabeça dos 694 versos.

Seria possível reconstruí-lo? Claro, basta tentar combiná-los e terá um único número correto entre as 3,4 × 10^999 combinações possíveis.

Caso considere o trabalho dela uma mera bricolagem, preste atenção nesse número: só há uma chance em um número de 1000 dígitos (segue abaixo esse número, tente ao menos lê-lo).

Qual a probalilidade de arranjar 694 versos de um única forma coerente?

A genialidade de Proba nos faz lembrar de outras coisas. Uma é que nem todas as leituras prováveis são coerentes e dentre essas leituras somente uma corresponderia à da autora. Outra coisa é que qualquer fenômeno atomizado pode ser reconfigurado até a emergência de algo com a aparência de coerência. É o que acontece com outra obra de Virgílio, a Écloga Messiânica, à qual muitos intérpretes enxergam profecias sobre Cristo. E, não seriam as grandes confissões e teologias sistemáticas outros grandes centos?

SAIBA MAIS

Cullhed, Sigrid Schottenius. Proba the Prophet. Mnemosyne Supplements. Vol. 378. Leiden: Brill Publishers, 2015.

Fassina, Alessia. Una Patrizia Romana al Servizio della Fede: Il Centone Cristiano di Faltonia Betitia Proba (tese doutoral). Università Ca’ Foscari, Veneza, 2004.

Kelly, Stuart. The Book of Lost Books: An Incomplete History of All the Great Books You’ll Never Read. Birlinn, 2012. De onde extrai o número das combinações.

Okáčová, Marie. “Centones: Recycled art or the embodiment of absolute intertextuality?.” (2007).

Proba, Faltônia Baetícia. Cento Vergilianus de laudibus Christi sive  Cento Probae. A edição crítica mais recente é a de Fassina, Alessia; Lucarini, Carlo M. (eds.). Faltonia Betitia Proba: Cento Vergilianus. Berlim: De Gruyter, 2015.

Sandnes, Karl Olav. The Gospel’According to Homer and Virgil’: Cento and Canon. Vol. 138. Brill, 2011.

Shanzer, Danuta (1986). “The Anonymous carmen contra paganos and the Date and Identity of the Centonist Proba”. Revue des Études Augustiniennes. 32 (3–4): 232–48. doi:10.1484/J.REA.5.104540.

Tucker, G. Hugo “From Rags to Riches: the Early Modern Cento Form.” Humanistica Lovaniensia: Journal of Neo-Latin Studies 62 (2013): 1–67.

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