O gênero épico e as epopeias brasileiras

Canta, ó musa, os esforços do poeta,
em contar métricas perdidas
com tediosa palavra obsoleta
de poesias por ninguém lidas.

A epopeia homérica nasceu gloriosa. Fruto do refinamento produzido por gerações de rapsodos até que o lendário Homero  verteu-as em um texto fixo. Mas esse gênero heroico já parecia exaurido quando os filólogos helenistas ridicularizavam seus imitadores.

Textos longos, perfeição formal e feitos exagerados, tudo para assustar um público cada vez mais acostumados com o teatro, a pantomima, o pão e o circo. Mas ainda o gênero floresceria uma vez mais com Virgílio e sua Eneida.

No Renascimento houve uma reciclagem criativa e tivemos o gênio de Dante e sua Divina Comédia. O florentino pegou a forma, o elencamento de alusões inumeráveis e uma jornada para dar um novos ares ao gênero, mas sem um herói guerreiro ou glórias de um povo. Uma pitada de misticismo serviu para ganhar a aprovação clerical. Porém, alguns pedantes tentaram levar a coisa a sério — a meu ver, sem sucesso na tentativa de comparar-se a Homero ou Virgílio. Presunçosos do reconhecimento público (e dos poderosos mecenas), poetas lá não tão bons fizeram epopeias de heróis nacionais, como a Henríada de Voltaire. Mais graça teve Alexander Pope com seus épicos cômicos.

Seria na ocidental praia lusitana que o gênero ganharia outro folêgo. Camões surpreendeu com Os Lusíadas. Na esteira dele vieram Sucesso do Segundo Cerco de Diu de Jerónimo Corte-Real, Ulisseia ou Lisboa Edificada de Gabriel Pereira de Castro, Malaca conquistada de Francisco de Sá de Meneses, Ulissipo de António de Sousa de Macedo, dentre outros monumentos. Novamente, soaram kitsch. Somente com Fernando Pessoa o subgênero do épico das navegações portuguesas foi reinventado.

De outra margem do Atlântico, uma renca de imitadores camonianos apareceram. Por essas bandas, aquilo que seria tido como alta literatura nasceu como epopeias: De gestis Mendi de Saa do pe. José de Anchieta, a Prosopopeia de Bento Teixeira, O Uraguai de Basílio da Gama, Caramuru de Santa Rita Durão e I-Juca Pirama de Gonçalves Dias.

Entretanto, o gênero não pertence ao passado. Tivemos vários pretendentes tupiniquins aos louros de Camões. Mesmo meio a tantos reveses que esse país sofre, esses autores encontram glórias nacionais grandes o suficiente para proclamarem em versos.

A epopeia heroica segue um esquema estrutural. Inicia-se com uma proposição ou exórdio que apresenta o herói e o tema. Segue-se uma invocação, apelando apoio divino. Como fazer um épico toma tempo, o poeta geralmente inclui alguns versos de dedicatória ao seu benefator. Daí o corpo do poema segue com a narração, a maior parte da obra. Encerra o poema com epílogo. Há variações de números de sílabas por versos. Os versos alexandrinos (doze sílabas) é chamado de heróico pelos franceses, mas em língua portuguesa são heróicos os decassílabos, como Os Lusíadas.

Um dos componentes do gênero épico são as listas. Há as listas dos barcos e de coisas no escudo de Aquiles na Ilíada. Consoante a esses catálogos, segue uma lista de epopeias brasileiras. É mais um catálogo de livros desaparecidos, não lidos ou difíceis de se encontrar.

Epopeias brasileiras

Dos primeiros versos a retratar um épico nacional, nada nos restaram.

Um tal Gonçalo Gonçalves da França ou João Gonçalves da França teria escrito Brasileia ou Brasília, na década de 1720. O poema permance perdido.

Na década seguinte, o professor de retórica pe. Francisco de Almeida, publicou Orpheus Brasilicus (1737) em latim. Ainda escreveria o Parnaso americano e a Brasileida, ou descoberta do Brasil.

Parece ter ficado no plano das ideias a Brasileida ou Petreida do Pe. Domingos da Silva Teles. Seu autor a idealizou em carta enviada à Academia Brasílica dos Renascidos nos meados do século XVIII. Na época, não se sabia ao certo quem era o “descobridor” do Brasil, mas já Silva Teles propunha ao diretor da academia carta José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Melho cantar os feitos de Pedro Álvares Cabral (a carta de Caminha só seria descoberta em 1773 e publicada em 1817). Não sabemos se o poema foi realizado.

Com a vinda da Corte ao Rio, surgiu a necessidade de glorificar novo império que se vislumbrava no Novo Mundo. Meio para justificar a fuga real (e para puxar saco), Tomás Antônio dos Santos e Silva compôs A Brasilíada ou Portugal imune e salvo: Poema épico em doze cantos; composto debaixo dos auspícios do Excelentíssimo Senhor D. Francisco de Almeida Mello e Castro, enfermeiro-mor do Hospital Real de S. José (1815), escrito em doze cantos de versos brancos e publicado pela Imprensa Régia em Lisboa. Nessa linha, a Alfonsiada: Poema heroico da fundação da monarquia portugueza pelo Senhor Rey D. Alfonso Henriques (1818) e Antônio José Osório de Pina Leitão equipara Afonso Henriques com João VI como fundadores nacionais.

Não exatamente um poema épico homérico, mas um marco de transições, o Brasilianas de Manuel José de Araújo Porto Alegre é a certidão de nascimento do nacionalismo romântico brasileiro. O criador do termo “brasiliana”, publicou sua coleção de poemas sentimentais em Viena, 1863. Deixando de lado a mitologia europeia, Porto Alegre enfoca no sertanejo.

Um início de visão crítica das condições nacionais aparecem com Joaquim Manuel de Sousândrade, o autor de O Guesa Errante, escrito entre 1858 e 1888, com treze cantos, 176 estrofes. Como o autor viajante, o poema relata uma peregrinação do protagonista pelas Américas até ser sacrificado em Nova Iorque. Antecede o Canto Geral de Pablo Neruda nessa temática de denúncias contra as explorações.

O erudito Carlos Alberto da Costa Nunes como fez sua obra máxima “Os Brasileidas“. O médico-legista maranhense tinha prática de compor epopeias históricas, tendo escrito sobre Moema, Estácio de Sá, Beckmann, o naufrágio de Sepúlveda, além de traduzir do espanhol A Amazônia: tragiepopeia em 4 jornadas, do uruguaio Edgardo Ubaldo Genta, além de produzir umas das poucas traduções da Eneida em versos hexamétricos. Os Brasileidas teria três edições durante sua vida (1931, São Paulo Editora; 1938, Editora Elvino Pocai; 1962, Edições Melhoramentos). O épico conta a expansão do Brasil mediante as expedições do bandeirante Antônio Raposo Tavares. Reúne povos indígenas, a Atlântida, os titãs, dentre outros. Relata a queda de império ficcional indígenas icamiabas e menciona as amazonas brasileiras. Escrito em decassílabos brancos, esse poema modernista nacionalista, o épico começa:

Musa, canta-me a régia poranduba
das bandeiras, os feitos sublimados
dos heróis que o Brasil plasmar souberam
través do Pindorama, demarcando
nos sertões a conquista e as esperanças.

Dá que em versos eu fixe os fundamentos
históricos e míticos da pátria
brasileira, deixando-os perpetuados
na memória de todos os teus filhos:
a luta dos Titãs, os novos deuses,
as Amazonas varonis e a raça
que o Gigante de pedra fêz do solo
surgir, robusta e bela, idéias novas
de grandeza forçando à eternidade.

Em tons pós-modernistas, oníricos e surrealistas a Invenção de Orfeu (1952), de Jorge de Lima, contém várias alusões e múltiplas leituras possíveis. Foi redescoberto e publicado pela Cia. das Letras.

Dois escritores de Paranaguá escreveram brasilíadas. O primeiro, Leôncio Correia, foi um literato conhecido em sua época, mas hoje no olvido. Sua Brasilíada foi publicada pelo governo do Estado do Paraná (1954). Seu conterrâneo Manuel Viana publicaria Os brasilíadas: poema épico brasileiro (1984) pela prefeitura de Paranaguá.

Quando se aproximavam os 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, houve um renascimento poético. O poeta cearense Gerardo Mello Mourão Invenção do Mar (Record, 1998) relata a descoberta e colonização do Brasil. A obra teria uma boa recepção crítica e ganharia o Prêmio Jabuti de 1999. O jornalista Renato Pompeu publicou para marcar os 500 anos do país As/Os Brasilíadas (São Paulo, Botequim de Idéias, 2001).

O mato-grossense Nicolas Behr inova em ter como protagonista uma cidade em sua Brasilíada (2010), na qual homenageia a capital federal em uma saga poética que viaja por antigas civilizações até a fundação de Brasília.

Sob o título de Brasiliadas apareceram as obras do jornalista Luiz Adolfo Pinheiro (1985) do jurista Gorgônio José de Araújo Neto (2015).

Um poema recente, Os Brasilíadas: Poema épico em decassílabo heróico da história do Brasil (2009) de Jefferson José Bui, demonstra que o gênero continua vivo e encontrou novas mídias para sua publicação: um blog.

Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, o protagonista do Romance da Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta (1971), de Ariano Suassuna, pretende escrever a obra máxima da humanidade, uma Brasileida, o qual seria um romance heróico-brasileiro, ibero-aventuresco, criminológico-dialético e tapuio-enigmático de galhofa e safadeza, de amor legendário e de cavalaria épico-sertaneja. Tal como a esperança messiânica de Dom Pedro Quaderna, quem sabe podemos esperar por que a aparição de uma epopeia brasileira esteja próxima.

As teses de Scudeller (2014) e Olívia de Barros Freitas (2016) apresentam análises atualizadas sobre o gênero no Brasil. Freitas possui em apêndice várias tabelas muito úteis, como listas épicos de autores luso-brasileiros ou brasileiros, a recepção por críticos como Ronald de Carvalho, Manuel Bandeira e Mário de Andrade.

SAIBA MAIS

ALVES, Gisele. Para um glossário neológico da obra ‘O Guesa’, de Sousândrade: uma proposta. Mestrado em Linguística na Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2006.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994.

CAMPOS, Maximiano. “A Pedra do Reino” posfácio. In: SUASSUNA, Ariano. Romance da Pedra do Reino e o Principe do Sangue do Vai e Volta. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1972.

CÂNDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira: Crítica e interpretação. São Paulo: Comissão Estadual de Literatura, 1959.

FREITAS, Olívia Barros de. Dialética e Historicidade do Gênero Épico no Processo de Formação da Literatura Brasileira. Doutorado em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016. http://hdl.handle.net/10183/157044

LIMA, Jorge de. A invenção de Orfeu. São Paulo: Cosac & Naify, 2013.

NEIVA, Saulo. Avatares da epopeia na poesia brasileira do final do século XX.
Recife: Editora Massangana, 2009.

OLIVEIRA, Rita de Cássia. O poema O Guesa, de Sousândrade, à luz da hermenêutica de Paul Ricoeur Doutorado em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. 01/04/2009.

RAMALHO, Christina. Elas escrevem o épico. Santa Cruz do Sul: Mulheres, 2005.

SCUDELLER, Gustavo. O épico em Invenção do mar, de Gerardo Mello Mourão, e Galáxias, de Haroldo de Campos. Doutorado em Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, Campinas, SP. 2014. http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/269902

SILVA, Anazildo Vasconcelos. Formação épica da literatura brasileira. Rio de
Janeiro: Elo, 1987.

SILVA, Anazildo Vasconcelos. RAMALHO, Christina. História da epopeia brasileira – Teoria, Crítica e Percurso. vol. 1. Rio de Janeiro: Garamond, 2007.

VENTURA, Denise Freire; CARVALHO, Rafael Barrozo; SIGNORELI, João Antônio Marra. Presença do Estilo Épico na Poesia Brasileira Moderna e Contemporânea. Visão Acadêmica, Universidade Estadual de Goiás. ed. 10/2010.

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