COUTO E SILVA, Golbery do. Geopolítica do Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967 [original de 1958].
Alguns livros se leem para admirar e livros que se leem para entender o que aconteceu. Geopolítica do Brasil pertence à segunda categoria. Não é uma obra de ciência política no sentido convencional, nem um tratado acadêmico destinado ao debate acadêmico. É um manual estratégico, redigido por um general com experiência de guerra, formação nos Estados Unidos e ambição doutrinária. E que se tornou um mapa para a direção ideológica do regime militar instaurado em 1964. Lê-lo é, em certa medida, ler o projeto que governou o Brasil por vinte e um anos.
Queria dotar o Estado brasileiro de uma doutrina geopolítica capaz de orientar sua ação em um mundo dividido pela Guerra Fria. Para tal, integrou conceitos da geopolítica clássica europeia à Doutrina de Segurança Nacional de origem norte-americana e adaptando ambos à realidade territorial e política do Brasil.
Tese
O Brasil é um país continental com vocação de potência regional e, no horizonte, global. Para realizar esse destino, é preciso superar os vazios demográficos internos, integrar a Amazônia, ocupar as fronteiras e, sobretudo, garantir a coesão nacional contra o principal inimigo do momento: o comunismo, que não combate pelo campo de batalha convencional, mas pela infiltração ideológica, pela agitação social e pela guerra revolucionária travada no interior da própria sociedade. Diante dessa ameaça, a política deve se subordinar à segurança, e as Forças Armadas, como instituição dotada de coesão e hierarquia, têm a missão de conduzir o Estado e preservar a ordem.
Contexto e formação intelectual
Golbery do Couto e Silva (1911–1987) chegou à obra por um percurso que vale reconstituir, porque ele explica tanto quanto o texto. Participou da Força Expedicionária Brasileira na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, fez cursos de aperfeiçoamento em Fort Leavenworth, nos Estados Unidos, e foi um dos fundadores e principais ideólogos da Escola Superior de Guerra nos anos 1950. Depois de publicar Geopolítica do Brasil, saiu da ativa e criou o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), organização civil que atuou de modo sistemático na desestabilização do governo João Goulart. Com o golpe de 1964, tornou-se o organizador e primeiro chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI). A trajetória é indissociável da doutrina: Golbery não formulou uma teoria para depois aplicá-la; construiu uma teoria enquanto já agia.
Teoria e metodologia
A obra promove uma síntese de três tradições. Da geopolítica clássica europeia — Ratzel, Mackinder, Mahan —, Golbery extrai as noções de espaço vital, fronteiras vivas e a importância estratégica do controle territorial. Da doutrina da guerra revolucionária, elaborada por militares franceses e ingleses a partir das experiências coloniais na Argélia e na Indochina, retira a ideia de que a guerra moderna é total e permanente, travada prioritariamente no terreno político e psicológico, não no estritamente militar. Do pensamento estratégico norte-americano absorvido em Fort Leavenworth, incorpora a visão bipolar do mundo e a noção de “mundo livre” sob liderança dos Estados Unidos.
O resultado é uma síntese original, mas não neutra. Cada uma dessas tradições foi selecionada e recortada para servir a uma conclusão previamente estabelecida: a de que cabe às Forças Armadas brasileiras o papel de guardiãs da nação contra um inimigo difuso, permanente e interno. O filósofo Homero Santiago, em análise que o outline registra com precisão, lê essa concepção como uma resposta ao “problema hobbesiano do medo e da violência generalizada”: em um mundo intrinsecamente ameaçador, a ordem só pode ser garantida por uma instituição dotada de hierarquia e coesão — e que, portanto, deve estar acima dos conflitos da política ordinária.
Os conceitos centrais
O poder nacional, para Golbery, não se resume à força militar. É a resultante de cinco dimensões integradas, a saber, política, econômica, psicossocial, militar e científico-tecnológica. Todas mobilizadas para a consecução dos chamados objetivos nacionais permanentes. Esses objetivos transcendem governos e conjunturas: integrar o território, ocupar as fronteiras e a Amazônia, desenvolver a economia como instrumento de projeção de poder, e preservar a soberania contra ameaças externas e internas.
O conceito de fronteiras vivas é talvez o mais característico da arquitetura territorial da obra. Golbery distingue as “fronteiras mortas” — linhas no mapa que ninguém ocupa efetivamente — das “fronteiras vivas”, faixas de território habitadas por populações integradas ao projeto nacional, capazes de defendê-lo. A Amazônia é o caso mais urgente: região de fronteira vulnerável e espaço de “cobiça internacional”, deve ser integrada por estradas, colonização e exploração econômica antes que potências estrangeiras ou forças subversivas se instalem no vazio. A Transamazônica, construída nos anos 1970, é o desdobramento mais visível dessa diretriz.
O conceito mais consequente, porém, é o de inimigo interno. A originalidade e a radicalidade do pensamento de Golbery residem aqui. Diferentemente da guerra convencional entre nações, a Guerra Fria se trava no interior da sociedade, pela infiltração ideológica e pela agitação social. Isso justifica o papel das Forças Armadas como polícia política e a necessidade de vigilância permanente sobre a sociedade civil. A partir daí, a lógica se fecha sobre si mesma: qualquer oposição pode ser lida como subversão; qualquer conflito social, como ameaça à coesão nacional. A democracia liberal, com seu pressuposto de debate e dissenso, torna-se incompatível com a segurança assim concebida.
Implicações políticas
A consequência mais grave da doutrina não é circunstancial; é estrutural. Ao subordinar a política aos imperativos da segurança, Golbery fornece uma justificativa teórica para a supressão do debate democrático, para o controle da imprensa, para a perseguição de opositores e, no limite, para a tortura. Homero Santiago é direto nesse ponto: a figura de Golbery. o “feiticeiro teórico”. e a de agentes da repressão como Sérgio Fleury.o “torto prático”. são duas faces da mesma moeda. A doutrina não apenas permitiu a violência; exigiu-a para sua própria coerência. Isso torna indefensável qualquer tentativa de caracterizar o regime como uma “ditabranda”.
O SNI, criado por Golbery, foi a arquitetura institucional dessa vigilância: um órgão central de coleta e análise de informações, capaz de orientar a ação do Estado e coordenar o combate à “subversão” em todos os níveis da sociedade. A modernização que Golbery propunha era autoritária por projeto, não por acidente. A todo custo, insistia noa desenvolvimento econômico e industrialização promovidos de cima para baixo, pelo Estado e pelas Forças Armadas.
Recepção e crítica
Geopolítica do Brasil tornou-se leitura obrigatória nas escolas militares e moldou gerações de oficiais. Seus conceitos orientaram políticas de Estado de longa duração — a ocupação da Amazônia, a construção de rodovias, a criação de órgãos de planejamento estratégico — muito além do período em que Golbery exerceu influência direta. Lido na prateleira da brasiliana, o livro dialoga de modo perturbador com os clássicos do pensamento social: onde Faoro vê um estamento burocrático que captura o Estado, Golbery oferece a doutrina que justifica essa captura em nome da nação; onde Leal descreve a ficção das eleições na República Velha, Golbery propõe simplesmente dispensá-las.
As críticas vieram de vários ângulos. Historiadores apontam o caráter derivativo da obra — uma adaptação de doutrinas estrangeiras mais do que uma teoria original do Brasil. Cientistas políticos questionam a concepção paranoica do inimigo interno, que transforma qualquer conflito social legítimo em ameaça à segurança. Filósofos, como Santiago, exploram as contradições internas de uma doutrina que precisa da violência para se sustentar. Todas essas críticas têm pertinência, mas nenhuma delas diminui a necessidade de ler o livro: ignorar Golbery não faz desaparecer o que ele produziu.
O fim da ditadura não significou o fim das ideias. A noção de que as Forças Armadas têm um papel de “poder moderador” ou de “guardiãs da ordem constitucional” e a desconfiança estrutural em relação à política partidária e à participação popular são legados que permanecem ativos no imaginário político e militar brasileiro, reavivados com força em momentos de crise institucional. Compreender sua origem intelectual é condição para enfrentá-los com clareza.
O autor
Golbery do Couto e Silva nasceu em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, em 1911. Filho de família militar, seguiu a carreira das armas com disciplina e ambição intelectual incomuns para o meio. Depois do exílio voluntário nos anos do governo Goulart e da participação decisiva no golpe de 1964, exerceu enorme influência nos bastidores do regime. Inicialmente, foi chefe do SNI, depoisministro-chefe do Gabinete Civil nos governos Geisel e Figueiredo, onde foi um dos arquitetos da abertura política “lenta, gradual e segura”. Essa trajetória final gerou uma das paradoxos mais comentados da história política brasileira: o mesmo homem que havia construído a arquitetura repressiva do regime foi também quem iniciou seu desmantelamento controlado. Isso não o redime, mas confirma sua concepção instrumental da política. Acima da democracia e da dignidade humana, queria a ordem acima de tudo, inclusive acima da ditadura quando ela se tornou disfuncional. Morreu em 1987, dois anos antes da promulgação da Constituição que encerrou formalmente o ciclo que ele mais do que ninguém havia ajudado a inaugurar.
Saiba mais
ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil (1964–1984). Petrópolis: Vozes, 1984.
COUTO E SILVA, Golbery do. Geopolítica do Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967.
FICO, Carlos. Como eles agiam: os subterrâneos da ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2001.
SANTIAGO, Homero. Golbery e a filosofia do medo. São Paulo: Hedra, 2020.

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