A alvorada dos ídolos

Dois ídolos, Mendácio (a mentira) e Moloque (a mortandade dos vulneráveis) se encarnaram recentemente. Não foram em rituais macabros na calada da noite, mas via cotidiano de pessoas que se autodefinem como “gente de bem”. Mas, os impactos causados por essas crenças personificadas são devastadores.

Com métodos e fontes oriundos da teologia, da literatura e da história das ideias, este ensaio é uma compreensão como atuam e são construídos esses ídolos e seus adoradores.

Não é a forma, semelhança ou contato com um falso deus que faz de um artefato um ídolo. Antes, pela arbitrariedade dos significados, o fabricante de ídolos atribui caráter, papel, afeto, confiança ou culto a qualquer artefato. Não é a coisa-em-si, mas seu uso que torna algo em ídolo. Desse modo, é feito seu deus, é moldado seu ídolo.

A fabricação dos ídolos

Como observado, é ato voluntário e intencional que faz a idolatria. Em 2 Reis 5:17-19, depois de ser curado miraculosamente, o oficial da corte síria Naamã pediu a anuência do profeta Eliseu para que pudesse cumprir suas obrigações cívicas e profissionais quando tivesse que acompanhar o rei em seu culto. Naamã entraria no templo de outro deus junto de seu rei e se curvaria, praticando o gesto ritual. Entrentanto, sua intenção e lealdade seriam reservadas ao Deus dos hebreus. Não há na permissão de Eliseu traço de hipocrisia ou leniência. O monoteismo ético, então em emergência entre os israelitas, pressupunha que somente um Deus vivente existiria, sendo outras divindades frutos do artifício humanos. Seriam, portanto, objetos inócuos para culto. Desse modo, a atitude respeitosa de Naamã às crenças alheias não constituiria idolatria, mas um mero gesto de respeito ao outro.

Vale salientar que não seria idolatria tratar com respeito objeto, pessoas ou conceitos. A deferência resultante de apreciação estética, histórica ou mera curiosidade depositada a pedra esculpida que no passado foi objeto de culto e hoje é peça de museu não possui ímpeto de culto a um visitante. Apesar disso, fanáticos como os talibãs regozijam-se em destruir estátuas como as dos Budas de Bamiã em 2001[1]. Destruíram artefatos sob alegação que seriam ídolos, mas foram eles próprios idólatras de um deus violento de sua própria concepção. A iconoclastia destrói imagens, não a idolatria.

A construção de ídolos ultrapassa a manipulação de objetos tangíveis. O autor anônimo chamado de pseudo-Dionísio Aeropagita desenvolveu uma teologia apofática, ou seja, falava de Deus com atributos negativos do tipo “Deus não mente”. A razão era o temor piedoso de que com uma teologia baseada em proposições positiva se moldasse um falso deus. Qualquer caricatura do ente Divino da revelação seria tão ídolo quanto algo esculpido em pedra.

Em uma caricatura da doutrina da encarnação, a existência pessoal do Diabo se concretiza mediante a idolatria.

Jesus alertou contra esse tipo de fabricação do ídolo. Demonstrou como são feitos ídos quando condenou a ganância, personificando-a como Mammon (Lucas 16:13, Mateus 6:19-24). Em aramaico tal termo significava riqueza. Não há implicações nesses trechos de que havia na época um culto organizado ou a realidade ontológica de um demônio chamado de Riqueza. Contudo, a prosopopeia utilizada por Jesus retrata como a confiança nas riquezas transformava um objeto ou conceito em ídolos. Paulo de Tarso em suas cartas (Efésios 5:5, Colossenses 3:5) corrobora com a associação do amor cúltico às riquezas à idolatria.

Os Novos Deuses da Modernidade Tardia

Os novos ídolos…

Como nos ensinos de Jesus e de Paulo, o autor britânico Neil Gaiman emprega as mesmas técnicas de personificação dos ídolos em seu romance American Gods (2001). Os personagens da ficção de Gaiman são tão reais aos seus adoradores. Ironicamente, o poder dos deuses depende da adoração de seus crentes. Assim, os “velhos deuses” dos povos nativos e migrantes foram aos poucos esquecidos e se comportam como pessoas ordinárias, desprovidos de poder. Perdem lugar para os novos deuses do mundo conectado, capitalista e midiático.

Além da escrita entretenedora, fluida e criativa dessa obra Gaiman que ganhou uma série de TV, há uma mensagem profética nessas personificações que devem ser considerada.

Nesse panteão há o Technical Boy, o ídolo da tecnologia moderna e do mundo conectado pela internet, personificado como um adolescente eterno que quer desbancar os velhos deuses. Relacionada também com a tecnologia está a Media, o ídolo que domina as comunicações de massa, a indústria cultural e a cultura pop. Como o consumismo é íntimo do capitalismo, os americanos adorariam o Intangible, o deus-mercado, senhor de Wall Street. Por fim, o alcance global é papel do Mister World, que possui tentáculos secretos pelo mundo todo, personificando a idolatria pelas teorias de conspiração e espionagens.

Em um cenário de crise de confiança e banalização da vida meio a pandemia e genocídios contra a população pobre, migrante, de etnias marginais, ou meramente gente diferente dos grupos majoritários ao redor do mundo revelam que dois tipos de ídolos ganharam mais adeptos.

Um deles é Mendácio, o ídolo da mentira. Feito pela cegueira seletiva e vontade maligna de enganar (faz jus ao seu equivalente grego, Dolo), sacrifica a honestidade e verdade em altares da falácia. Propagado em redes sociais e pelos telefones inteligentes, a enxurrada de conteúdo passa a valer mais que a veracidade deles. Alimenta a desconfiança sob um verniz de pensamento independente. Perfis fakes e bots são seus anjos. Seus valores são a obscuridade e a ignorância.

Os adoradores de Mendácio dizem “analisar todos os lados de uma questão”, mas buscam somente conclusões que reafirmam suas convições. Justificam suas ações e meios em nome de uma causa. Seus cultuadores propagandam os boatos, as pseudociências, as teorias da conspiração e os ataques chulos a quem pense de forma contrária.

E fazem isso deturpando o nome de Deus. Muitas pseudociências se dizem versões “bíblicas” alternativas ao conhecimento científico normal. Entretanto, colhem e analizam as evidências não conforme à revelação, mas de acordo com seus gostos e agendas pessoais. Em nome de Deus, cometem atrocidades, distorcem fatos e diminuem a dignidade alheia. Em nome de Deus, fazem ajuntamentos meio a epidemias desafiando instruções sanitárias e propagam a mortandade. Em nome de Deus, rejeitam cinicamente o conhecimento científico e tecnológico acusando seus adversários de “cientismo” ou culto à ciência. Contudo, não hesitarão a citar um artigo científico que corrobore com suas mentiras. E propagam seus venenos mediante tecnologias que a própria ciência desenvolveu. Ocultam o caráter zetético da ciência para impor seus dogmas. Em nome de Deus, forçam violentamente a outrem uma visão de mundo e moralidade de si mesmos. Não só usam o nome de Deus em vão, mas usam para profaná-lo.

Alienados em um sentimento de anomia, a falta de confiança criada por Mendácio deixa a fé em ruínas. Nesse ambiente, outros ídolos como os falsos messias abundam.

Outro ídolo é Moloque, que demanda a morte de vulneráveis. E é moldado com outros ídolos. Junto com Mendácio, já atuava com campanhas de minar a confiança em vacinas e outros protocolos médicos aceitos em benefício de terapias alternativas danosas. Junto de Mendácio, já demonizava os alimentos que pela providência divina foram desenvolvidos para o consumo humano. Consequentemente, a Bulimia e a Anorexia são suas filhas.

Com a união da Media, Technological Boy, Mendácio e Mister World pode Moloque se embebedar de sangue. Não se farta do sangue de migrantes nas fronteiras no deserto e no mar; das crianças em escolas meio a tiroteios; de multidões sucubindo à pestilência; e da violência silenciosas especialmente contra as mulheres e crianças nas privacidades dos lares. Dessa aliança maligna resultam nos massacres das minorias étnicas desde o Myanmar, nos subúrbios americanos, nas favelas brasileiras e até as populações indígenas ao redor do mundo.

Outra tática favorita é estigmatizar quem tem fome e sede de justiça. Quem trabalha para um mundo melhor, mais informado, mais sadio e justo é satirizados, etiquetados maliciosamente, atacados nas mídias, listados como inimigos, desacreditados e perseguidos. Constrangem as pessoas sinceras a não participarem em ações para o bem comum. Desse modo, solto corre o sangue da violência.

Com a pandemia do vírus COVID-19, Moloque se armou de políticas e discursos populistas, desprezo pela saúde coletiva, ridicularização dos que trabalham pela saúde. O sorriso desprezível que nega a gravidade do surto epidemológico transparece esse ídolo. Semelhantemente, os remédios “alternativos” que criam falsas esperanças e abandono dos meios já comprovados de tratamento. Pode-se matar sem pesar a consciência, escondido por trás das telas tangíveis dos celulares ou teclados de computadores.

Os que se ajoelham diante de Moloque e a Mendácio têm a língua bifurcada. Dizem querer mais segurança, mas anseiam em se armarem. Dizem ser pró-vida e contra o aborto, mas são favoráveis à pena de morte. Dizem querer a paz, mas buscam a aniquilação do outro. Dizem adorar a Deus, mas adoram a ídolos.

O incenso principal desses ídolos é o medo.

Vitória sobre os ídolos

A aparente hegemonia dos ídolos e seus seguidores pode assustar. Mas há esperança.

O teólogo sueco Gustaf Aulén (1879 – 1977) notou que historicamente no cristianismo a doutrina mais predominante do significado da obra expiatória de Jesus é a teoria do Christus Victor. Uma vez tendo ensinado que o verdadeiro culto constituiria a amar a Deus e ao semelhante, a morte de Cristo seria o ato de graça que permitiria à humanidade a cumprir esses ensinos. Para Aulén, com a morte de Jesus Cristo foi derrotado os poderes do mal (como o pecado, a morte e o diabo) a fim de libertar a humanidade. É a derrota dos ídolos pelo fim do medo.

Da mesma forma que um ídolo é um objeto ordinário que recebe a atribuição errônea, os idólatras são pessoas comuns e, como quaisquer outras, sujeitas aos mesmos riscos e erros. Portanto, é necessário tirá-las de contextos, atributos e relações de afetos e significados que conduzem ao erro.

Em razão disso, é importante desenvolver canais e criar espaços para quem queira abandonar as idolatrias. Nos quadrinhos Peanuts de Charles M. Schulz há um tema recorrente, o da Grande Abóbora. Somente o personagem Linus van Pelt acredita e vê tal ente. Ridicularizado, Linus diz que “há três coisas que aprendi a nunca discutir com as pessoas: religião, política e a Grande Abóbora.” A desconstrução dos ídolos é conceitual e relacional. É realizada pela oferta de uma visão compreensiva de mundo e pautadas por valores de empatia, compaixão e solidariedade. Portanto, criar meios para que pessoas possam discutir suas questões existenciais sem censura, sem ridicularização ou sem riscos é uma forma de, respeitosamente, amar o próximo e aproximá-la do Deus que encarna a Verdade.

A destruição da idolatria e libertar-se dos ídolos passam ser a missão na busca pela paz, pela verdade e pela justiça.

NOTAS

[1] Seria perda de tempo a tentativa de explicar àqueles fanáticos de que o budismo é agnóstico ou que as representações de budas não possuem propósito de ídolos. Igualmente, uma atitude respeitosa a outras religiões não monoteístas é intrinsecamente um corpo estranho na moral do fanático.

SAIBA MAIS

AULÉN, Gustaf. Christus victor: An historical study of the three main types of the idea of atonement [Den kristna försoningstanken, 1930]. Eugene, OR: Wipf and Stock, 2003.

GAIMAN, Neil. American gods. Londres: William Morrow, 2001.

BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Transformadora. São Paulo: Mundo Cristão, 2016.

Dois textos bíblicos aprofundam os temas dos ídolos e dos idólatras:

Isaías 44:9-20

  • Salmos 115

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