Tem o autor controle sobre um texto depois de lançá-lo ao mundo, como uma pedra atirada? Até quando sua autoridade o acompanha? A questão parece simples, mas dividiu a hermenêutica e a teoria literária do século XX. A disputa continua aberta.
Na hermenêutica romântica, sobretudo em Schleiermacher e Dilthey, o autor ocupava posição decisiva. Interpretar envolvia reconstruir, por meio da linguagem, do contexto histórico e do processo criador, a individualidade expressiva objetivada no texto. Daí a fórmula de Schleiermacher: o intérprete pode compreender um autor “tão bem e, depois, melhor do que ele se compreendeu”.
Uma reação veio da crítica literária anglo-americana. Em “The Intentional Fallacy” (1946), William K. Wimsatt e Monroe Beardsley argumentaram que a intenção do autor não está disponível nem é desejável como padrão para julgar uma obra literária. O poema, uma vez publicado, pertence ao público e deve ser lido como objeto verbal, pelo que realiza em sua linguagem, e não pelo que o poeta declara ter pretendido. O New Criticism fez desse princípio um método: o texto como objeto autônomo.
Outro desafio veio da hermenêutica filosófica. Em Verdade e método (1960), Hans-Georg Gadamer criticou a redução da compreensão à recuperação da intenção subjetiva do autor. O sentido de um texto excede seu horizonte originário porque toda leitura ocorre historicamente, no encontro entre o mundo do texto, a tradição que o transmite e as perguntas do intérprete. Paul Ricoeur acrescentou que a escrita produz um distanciamento: fixado no papel, o texto adquire relativa autonomia em relação à situação inicial e à intenção de quem o escreveu. Na França, a crítica foi mais radical. Roland Barthes anunciou “A morte do autor” (1967), e Michel Foucault reconcebeu o autor como uma função do discurso, que classifica, regula e delimita sua circulação.
Foi contra esse cenário que E. D. Hirsch Jr. escreveu Validity in Interpretation (1967). Seu argumento distingue sentido (meaning) de significação (significance). O sentido é aquilo que o autor quis comunicar por meio de sinais linguísticos; por isso, é em princípio estável e passível de validação intersubjetiva, embora permaneça sujeito a disputas sobre a melhor evidência disponível. A significação é a relação desse sentido com outra coisa — uma época, um leitor, um problema ou outro texto — e, por isso, pode mudar. Sem o autor como norma, afirma Hirsch, não haveria critério para preferir uma leitura a outra, e a validação por probabilidade se tornaria impossível. Em “Meaning and Significance Reinterpreted” (1984), ele reformulou essa distinção para explicar como um sentido estável pode ter implicações e aplicações que excedem aquilo que o autor previu explicitamente.
O debate recente deslocou a questão. Em “Against Theory” (1982), Steven Knapp e Walter Benn Michaels defenderam que sentido e intenção não são elementos separáveis: onde há linguagem significativa, há intenção. Marcas na areia que formassem um poema por obra das ondas não seriam linguagem, apenas formas que se parecem com palavras. Stanley Fish deslocou a ênfase para as comunidades interpretativas. Não se trata de dizer que elas inventam arbitrariamente o sentido, mas de reconhecer que práticas compartilhadas estruturam as condições pelas quais algo conta como texto, evidência e leitura aceitável.
Umberto Eco, em Os limites da interpretação (1990), propôs uma posição intermediária. Entre a intentio auctoris, a intenção do autor, e a intentio lectoris, a projeção do leitor, estaria a intentio operis: o conjunto de constrangimentos semióticos, estruturais e culturais pelos quais o texto torna algumas leituras mais justificáveis do que outras. Não se trata de atribuir uma vontade literal à obra, nem de fazer dela um árbitro metafísico independente, mas de reconhecer que a coerência textual limita a interpretação.
Na estética analítica, a discussão se tornou mais técnica. Intencionalistas efetivos, como Noël Carroll, sustentam que as intenções reais do autor restringem o sentido, desde que possam ser realizadas no meio artístico e reconhecidas na obra. Intencionalistas hipotéticos, como Jerrold Levinson, defendem que o sentido corresponde à intenção que um leitor adequadamente informado atribuiria mais plausivelmente a um autor hipotético, dadas as convenções e circunstâncias de produção. Na hermenêutica teológica, Kevin Vanhoozer recorreu à teoria dos atos de fala para recuperar o autor como agente comunicativo. A intenção relevante não é um estado psicológico privado, mas a ação que o autor realiza publicamente por meio do texto, tais como, afirmar, prometer, ordenar, advertir, narrar ou louvar.
Por fim, a pergunta deixou de ser apenas se a intenção importa, mas como ela importa. Ela pode funcionar como norma que define o sentido, como evidência entre outras ou como hipótese construída a partir do texto, de seus contextos e de suas convenções. Não há consenso de que o autor detenha soberania absoluta sobre a obra depois de publicada. Mas textos humanos ordinariamente se apresentam como atos de comunicação. Por isso, a questão de quem fala, a quem, em que circunstâncias e com que força continua inevitável. Um texto não é apenas um acidente de marcas sobre a areia.
SAIBA MAIS
Barthes, “La mort de l’auteur” (1968 in French; 1967 in English, in Aspen)
Carroll, “Art, Intention, and Conversation”, Iseminger (ed.), Intention and Interpretation (Temple, 1992)
Eco, Umberto. I limiti dell’interpretazione. Milano: Bompiani, 1990.
Fish, Is There a Text in This Class? (Harvard, 1980)
Gadamer, Hans-Georg. Wahrheit und Methode. Tübingen: J. C. B. Mohr, 1960.
Hirsch, E. D., Jr. Validity in Interpretation. New Haven: Yale University Press, 1967.
Hirsch, E. D., Jr. “Meaning and Significance Reinterpreted”. Critical Inquiry, v. 11, n. 2, 1984, p. 202–225.
Knapp, Steven; Michaels, Walter Benn. “Against Theory”. Critical Inquiry, v. 8, n. 4, 1982, p. 723–742.
Levinson, “Intention and Interpretation: A Last Look”, in Iseminger (ed.), Intention and Interpretation (Temple, 1992)
Vanhoozer, Kevin J. Is There a Meaning in This Text? Grand Rapids: Zondervan, 1998.
Wimsatt, W. K.; Beardsley, Monroe C. “The Intentional Fallacy”. The Sewanee Review, v. 54, n. 3, 1946, p. 468–488.
