Sob que condições uma interpretação pode ser considerada válida? Pode o leitor interpretar um texto ao seu bel-prazer? Esse problema pertence ao núcleo da hermenêutica: distinguir aquilo que um texto pode significar daquilo que ele provavelmente significa.
O crítico literário Eric Donald Hirsch Jr. tratou dessa questão em Validity in Interpretation (1967). Nessa obra, além de defender a intenção autoral como norma do sentido (tema para outro dia), propõe uma lógica da validação. Nela, o intérprete avança de uma leitura linguisticamente possível para uma leitura mais provável do que as alternativas.
A distinção entre interpretações certas e interpretações apenas prováveis não era nova. A hermenêutica do Iluminismo alemão, em autores como Christian Thomasius (1655-1728) e Johann Martin Chladenius (1710-1759), já reconhecia que muitas passagens admitem mais de uma leitura e que a escolha entre elas depende do grau de apoio que o contexto oferece. Hirsch retoma esse problema com instrumentos da teoria da probabilidade.
No capítulo dedicado aos princípios de validação, Hirsch propõe quatro critérios. O primeiro é a legitimidade: a leitura precisa ser permitida pelas normas públicas da língua em que o texto foi composto. O segundo é a correspondência: a leitura deve dar conta de cada componente linguístico do texto, sem ignorar passagens incômodas. O terceiro é a adequação genérica: a leitura deve respeitar as convenções do gênero a que o texto pertence. O quarto é a plausibilidade, ou coerência: a leitura deve formar um todo que faça sentido.
Esses critérios, porém, frequentemente não bastam para decidir entre leituras concorrentes, pois mais de uma pode satisfazê-los. Nesse ponto, a validação se torna um juízo de probabilidade: o intérprete reúne as evidências disponíveis, sobre o autor, a época, o gênero e o uso da língua, e pergunta qual hipótese elas sustentam melhor.
Por isso, a validação não produz certeza. Ela estabelece qual interpretação é a mais provável entre as alternativas disponíveis, e esse juízo permanece aberto à revisão diante de novas evidências. A confiança na validade parte daquilo que a língua permite e chega ao que é mais ou menos provável diante do contexto e das hipóteses concorrentes.
SAIBA MAIS
Caputo, John D. Hermeneutics: Facts and Interpretation in the Age of Information. London: Pelican, 2018.
Hirsch, E. D., Jr. Validity in Interpretation. New Haven: Yale University Press, 1967. Ver esp. cap. 5, “Problems and Principles of Validation”.
Zimmermann, Jens. Hermeneutics: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2015.

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