A interpretação anda em círculos? Desde Schleiermacher, a hermenêutica reconhece que as partes de um texto só se entendem à luz do todo, e o todo só se entende a partir das partes. Esse é o círculo hermenêutico. Para uns, ele é a condição inevitável da compreensão; para outros, traz um risco: o leitor poderia encontrar no texto apenas aquilo que já levou a ele.
O teólogo norte-americano Grant R. Osborne (1942–2018), professor de Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School, propôs outra imagem. Em The Hermeneutical Spiral, publicado em 1991 e revisto e ampliado em 2006, Osborne apresenta a interpretação bíblica como uma espiral que vai do texto ao contexto, do sentido original à sua significação contemporânea. A obra foi traduzida no Brasil como A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica (Vida Nova, 2009).
A diferença entre círculo e espiral ultrapassa as picuinhas retóricas. O círculo pode sugerir um percurso fechado, no qual o intérprete retorna sempre ao ponto de partida. A espiral preserva o vaivém entre partes e todo, texto e leitor, mas introduz a possibilidade de avanço. Cada nova leitura põe à prova, corrige ou confirma a leitura anterior. A pré-compreensão, cuja inevitabilidade foi enfatizada por Bultmann e Gadamer, não é eliminada. Antes, ela deve ser exposta ao texto e corrigida por ele.
O vocabulário dos horizontes vem de Gadamer e alcançou a hermenêutica bíblica anglófona sobretudo por meio de Anthony Thiselton, em The Two Horizons (1980). Osborne, porém, recusa que a fusão de horizontes implique a dissolução do sentido histórico do texto em suas recepções posteriores. Para ele, o horizonte do leitor é inevitável, mas não é soberano; deve ser continuamente revisto à luz do texto em seu contexto linguístico, literário, histórico e canônico.
O livro organiza a espiral em três grandes partes. A primeira trata da hermenêutica geral: contexto histórico e literário, gramática, semântica, sintaxe e antecedentes histórico-culturais. A segunda trata da análise de gêneros, incluindo narrativa, poesia, literatura sapiencial, profecia, apocalíptica, parábola e epístola. A terceira aborda a hermenêutica aplicada: teologia bíblica, teologia sistemática, contextualização e pregação.
A sequência, contudo, não é linear. O intérprete não conclui a exegese para só então passar à teologia e, finalmente, à aplicação. Uma descoberta sobre o gênero de uma passagem pode obrigar à revisão de uma decisão sintática; um problema de contextualização pode exigir novo exame do contexto histórico; uma síntese teológica pode devolver perguntas à exegese. A espiral descreve precisamente esse movimento reiterado de revisão entre níveis distintos da interpretação.
Osborne define a hermenêutica sob três aspectos. Ela é uma ciência, porque organiza de modo lógico e ordenado princípios de interpretação; é uma arte, porque requer discernimento na aplicação desses princípios a textos concretos; e é um ato espiritual, porque pressupõe a dependência do Espírito Santo. O último aspecto mostra o caráter confessional da obra, destinada sobretudo a estudantes de teologia, pastores e pregadores. Os dois primeiros, porém, inserem o livro em diálogo com questões mais amplas da teoria da interpretação.
É nesse ponto que Osborne se aproxima de E. D. Hirsch Jr. A interpretação envolve o percurso entre o que o texto significava em seu contexto originário e o que ele significa para leitores posteriores. Osborne chama o primeiro momento de exegese e o segundo de contextualização. A leitura devocional pergunta o que o texto significa para o intérprete; a pregação pergunta como comunicar sua significação à comunidade. Para Osborne, porém, aplicações legítimas não são independentes do sentido textual. Antes, devem derivar dele e permanecer controladas por ele.
Nos apêndices da edição revista, Osborne enfrenta questões associados ao pós-estruturalismo, à hermenêutica filosófica e às teorias contemporâneas da leitura. Sua posição pode ser descrita, com cautela, como uma forma de realismo crítico: o sentido pretendido pelo autor existe e pode ser buscado, embora nenhum intérprete o possua de forma exaustiva, definitiva ou sem mediações. A interpretação, portanto, não produz certeza absoluta, mas juízos progressivamente mais bem justificados.
A proposta não escapa de objeções. Para a hermenêutica filosófica de inspiração gadameriana, a imagem de uma espiral que se aproxima do sentido original pode pressupor justamente o que está em disputa: que esse sentido seja estável e recuperável como norma para leituras posteriores. Para correntes de resposta do leitor, a prioridade concedida à intenção e ao contexto original pode minimizar o papel constitutivo das comunidades interpretativas. No extremo oposto, intérpretes mais racionalistas podem desconfiar da admissão de que toda interpretação humana permanece provisória.
Há também uma questão de gênero intelectual. The Hermeneutical Spiral é menos uma teoria inteiramente original da interpretação do que uma síntese pedagógica ampla. Seu mérito está em reunir, ordenar e tornar operacionais recursos da linguística, dos estudos históricos, da crítica literária, da análise de gêneros, da teologia bíblica e da homilética. Sem intencionar resolver todas as disputas da hermenêutica contemporânea, Osborne traçou um itinerário disciplinado para passar da exegese à pregação.
O mérito da espiral está em manter unidas duas exigências que a hermenêutica moderna frequentemente separa. A primeira é reconhecer que todo intérprete lê a partir de um horizonte, de perguntas e de pressupostos. A segunda é sustentar que o texto pode confrontar, limitar e corrigir esse horizonte. A espiral não promete que o intérprete chegue a um centro incontestável. Promete que cada retorno ao texto pode produzir uma compreensão mais responsável, mais informada e mais adequada.
SAIBA MAIS
Gadamer, Hans-Georg. Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 2015.
Hirsch, E. D., Jr. Validity in Interpretation. New Haven: Yale University Press, 1967.
Osborne, Grant R. The Hermeneutical Spiral: A Comprehensive Introduction to Biblical Interpretation. Ed. rev. e ampl. Downers Grove: IVP Academic, 2006.
Osborne, Grant R. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
Thiselton, Anthony C. The Two Horizons: New Testament Hermeneutics and Philosophical Description. Grand Rapids: Eerdmans, 1980.
Vanhoozer, Kevin J. Is There a Meaning in This Text? Grand Rapids: Zondervan, 1998.

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