1750: década mirabilis

A década de 1750 foi um salto na história mundial. Nela convergiram a aceleração do Iluminismo, o início da Revolução Industrial e a eclosão dos primeiros conflitos de dimensão verdadeiramente global. Transformações intelectuais, científicas, políticas, econômicas e militares alteraram as bases da civilização europeia e de seus impérios ultramarinos. O período marcou uma mudança na maneira de compreender a natureza, interpretar a religião, organizar o conhecimento e exercer o poder político.

Entre os marcos científicos e intelectuais da década, destacam-se avanços que redefiniram campos inteiros do saber. Em 1752, Benjamin Franklin realizou seu célebre experimento com a pipa, demonstrando que os raios constituem uma forma de eletricidade. A experiência levou diretamente à invenção do para-raios naquele mesmo ano, fornecendo a primeira proteção elétrica prática para edifícios. Em 1753, Carl Linnaeus publicou Species Plantarum, obra fundamental para a nomenclatura botânica moderna e para a classificação sistemática do mundo natural. Também em 1752, a Grã-Bretanha e suas colônias adotaram oficialmente o calendário gregoriano para alinhar-se ao restante da Europa.

A década foi marcada por choques ambientais e filosóficos de enorme impacto. O terremoto de Lisboa, ocorrido em 1º de novembro de 1755, seguido por um tsunami, devastou a cidade. Estima-se que sua magnitude tenha variado entre 8,5 e 9,0. Dezenas de milhares de pessoas morreram. O desastre influenciou profundamente a filosofia iluminista e desencadeou debates intensos entre autores como Voltaire e Rousseau sobre o problema do mal e a providência divina. O episódio também é associado ao nascimento da sismologia moderna e ao primeiro grande esforço estatal de assistência em massa diante de uma catástrofe.

No plano geopolítico, a década assistiu à ascensão do Reino Unido como império global e ao surgimento da primeira guerra de alcance efetivamente mundial. Em 1754, a Guerra Franco-Indígena começou na América do Norte, colocando Grã-Bretanha e França em conflito, juntamente com diversos aliados indígenas. O confronto serviu de prelúdio para a luta europeia mais ampla. Em 1756, iniciou-se a Guerra dos Sete Anos, envolvendo as principais potências europeias e seus impérios coloniais. Em 1757, a Batalha de Plassey marcou o início da dominação britânica na Índia, após a Companhia Britânica das Índias Orientais, liderada por Robert Clive, derrotar o Nawab de Bengala. Entre 1758 e 1759, forças britânicas capturaram Quebec após a Batalha das Planícies de Abraão. Em 1759, consolidaram o controle da região, embora o general James Wolfe tenha morrido em combate. No Caribe, várias ilhas e áreas costeiras mudaram de domínio durante os conflitos.

A economia e a organização social também passaram por mudanças decisivas. As fontes identificam aproximadamente o ano de 1750 como o início da Revolução Industrial, período definido pela transição da força muscular humana e animal para a energia das máquinas. Entre 1750 e 1760, diversas colônias britânicas na América criaram bancos fundiários por ações para emitir papel-moeda garantido por hipotecas, embora o Parlamento britânico frequentemente reprimisse essas iniciativas. Em 1759, em meio ao crescimento de teorias conspiratórias e tensões políticas, a ordem jesuíta foi expulsa de Portugal. O episódio antecipou sua supressão total pelo papa na década de 1770.

A década também foi atravessada por ansiedades coletivas e pânicos sociais. Em 1750, uma falsa previsão de um terremoto apocalíptico provocou fuga em massa de Londres. A Guerra dos Sete Anos desencadeou temor generalizado tanto nas colônias americanas quanto na Grã-Bretanha. Em 1756, assentamentos coloniais viveram sob medo constante de ataques franceses e indígenas. Em 1759, após derrotas navais francesas, a população britânica enfrentou um grande pânico de invasão alimentado por relatos falsos de desembarques franceses. Entre 1745 e 1750, julgamentos sensacionalistas de figuras como “Jenny Diver” alimentaram em Londres um pânico moral relacionado a carteiristas organizados e gangues urbanas.

A cultura e o misticismo também tiveram espaço na década. Em 1759, Emanuel Swedenborg afirmou ter “visto” um grande incêndio em Estocolmo enquanto participava de um jantar em Gotemburgo, descrevendo com precisão o avanço do fogo a quase 500 quilômetros de distância. No mesmo ano, morreu em Londres o influente compositor barroco George Frideric Handel.

A década de 1750 foi igualmente decisiva para a história das ideias, sobretudo para o surgimento dos estudos bíblicos histórico-críticos modernos e para a maturação da filosofia iluminista. Em 1750, Johann David Michaelis publicou sua Introdução ao Novo Testamento, obra que inaugurou efetivamente o gênero moderno das introduções aos livros bíblicos. Michaelis sustentava que a apostolicidade era o principal critério de autoridade, posição que o levou inicialmente a rejeitar o estatuto canônico de livros não escritos por apóstolos, como Marcos, Lucas e Atos.

Entre 1751 e 1752, J. Jakob Wettstein publicou em Amsterdã os dois volumes do Novum Testamentum Graecum. A obra reuniu vasta coleção de paralelos oriundos da literatura clássica e rabínica para ilustrar o texto do Novo Testamento. Em 1753, Jean Astruc publicou Conjectures sur les Mémoires Originaux dont il paroit que Moyse s’est servi pour composer le Livre de la Genèse. O trabalho tornou-se fundamental para a Hipótese Documentária, pois Astruc identificou duas fontes ou tradições principais no Gênesis, chamadas posteriormente de javista e eloísta, com base nos diferentes nomes usados para Deus.

Também em 1753, Benjamin Kennicott publicou um ensaio influente comparando 1 Crônicas 11 com 2 Samuel 5 e 23. O autor identificou numerosas discrepâncias textuais e inconsistências derivadas de séculos de erros de transmissão manuscrita, questionando assim o dogma protestante contemporâneo da uniformidade do texto massorético. No mesmo ano, Robert Lowth publicou De sacra poesi Hebraeorum. A obra revolucionou o estudo literário da Bíblia ao identificar o princípio do paralelismo na poesia hebraica.

Charles François Houbigant, sacerdote do Oratório, publicou em Paris a Biblia Hebraica cum notis criticis em 1753. Tratou-se da primeira edição católica da Bíblia Hebraica a considerar o texto como criticamente modificável, recorrendo ao Pentateuco Samaritano e à Septuaginta para corrigir o que o autor entendia como corrupções presentes no texto massorético.

Robert Lowth (1710–1787), futuro bispo anglicano de Londres, nomeado em 1777, publicou em 1753 a obra De sacra poesi Hebraeorum, traduzida para o inglês em 1787 como Lectures on Hebrew Poetry. O livro transformou os estudos bíblicos ao identificar o paralelismo como princípio estrutural fundamental da poesia hebraica, permitindo compreender os textos bíblicos segundo critérios literários e filológicos. Em 13 de junho de 1757, o papa Bento XIV autorizou a impressão e a disseminação da Bíblia em língua vernácula nos países católicos, medida que ampliou o acesso direto às Escrituras e fortaleceu a circulação de métodos críticos de leitura. Nesse mesmo contexto intelectual, Hermann Samuel Reimarus, professor de línguas orientais em Hamburgo entre 1694 e 1768, sustentou que os quatro evangelistas não poderiam ser harmonizados. As divergências entre seus relatos demonstrariam, segundo ele, que os Evangelhos não se baseavam em fatos históricos. Em Reimarus aparece pela primeira vez, de maneira explícita e sistemática, a perda completa de confiança na historicidade dos Evangelhos.

Em 1752, David Hume escreveu Dialogues on Natural Religion, obra que argumenta que os raciocínios baseados em desígnio e causalidade são insuficientes para provar a existência e os atributos de Deus. Cristãos ortodoxos, segundo essa perspectiva, precisariam apoiar-se no deísmo ou suspender suas dúvidas e crenças. Nos anos de 1753 e 1754, duas obras teológicas importantes de Isaac Newton foram publicadas postumamente. Observations upon the Prophecies of Daniel, de 1753, explorava a interpretação histórica das profecias bíblicas. Já An Historical Account of Two Notable Corruptions of Scripture, de 1754, defendia que a doutrina da Trindade e o Comma Johanneum de 1 João 5:7 não existiam nos manuscritos gregos originais.

Samuel Chandler e Edward Harwood publicaram em 1753 trabalhos críticos sobre o Livro de Jó. Chandler produziu nova tradução acompanhada de exposição voltada para temas teológicos, enquanto Harwood escreveu uma dissertação sobre o contexto histórico e a posição canônica do livro. Matthew Poole e Thomas Scott publicaram comentários abrangentes, versículo por versículo, centrados no contexto histórico e na aplicação prática do texto bíblico.

Em 1755, John Wesley publicou Explanatory Notes upon the New Testament, obra que serviu como instrumento pedagógico fundamental para o Avivamento Evangélico ao combinar notas filológicas e piedade prática. Em 1757, Nathaniel Lardner concluiu os catorze volumes de The Credibility of the Gospel History, estudo minucioso dos Evangelhos e de Atos à luz de fontes clássicas e judaicas.

O Iluminismo atingiu maturidade institucional e filosófica na década. Em 1751, Diderot e d’Alembert lançaram o primeiro volume da Encyclopédie. O projeto monumental buscava sistematizar todo o conhecimento humano segundo princípios racionais iluministas. A obra enfrentou forte oposição política e foi condenada em 1759. Em 1752, Luís Antônio Verney publicou Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, análise filosófica e moral que interpretava a vaidade humana como motor do progresso social. Baumgarten, falecido em 1757, formulou durante essa década uma distinção decisiva entre a compreensão natural da Bíblia, sujeita à investigação filológica e histórica, e a compreensão sobrenatural, reservada ao crente.

Em 1759, o Iluminismo português alcançou expressão política concreta com a expulsão dos jesuítas de Portugal. O episódio representou deslocamento significativo em direção à autoridade secular do Estado, às reformas pombalinas e à reconstrução de Lisboa e de suas instituições segundo princípios racionais.

Os marcos científicos e geográficos também contribuíram para transformar a história das ideias. Em 1751, Benjamin Franklin publicou Experiments and Observations on Electricity, convertendo o estudo da eletricidade de espetáculo curioso em ciência rigorosa. Em 1753, Carl Linnaeus publicou Species Plantarum, estabelecendo a nomenclatura binomial e o sistema taxonômico ainda utilizados na classificação biológica contemporânea. Em 1755, Lewis Evans publicou seu mapa e seus ensaios sobre as colônias britânicas centrais da América, oferecendo a primeira descrição sistemática do interior do continente norte-americano.

A década de 1750 condensou mudanças intelectuais, científicas, militares e políticas que moldariam os dois séculos seguintes. O período inaugurou formas modernas de investigação científica, crítica textual, administração estatal e guerra global. O Iluminismo ganhou instituições, a Revolução Industrial começou a alterar as bases materiais da sociedade, e os impérios europeus passaram a disputar domínio planetário em escala inédita. A década marcou a passagem para um novo regime de conhecimento, poder e tecnologia.

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