As civilizações de Arnold J. Toynbee

Em 17 de março de 1947, a Time Magazine colocou na capa um historiador inglês de cinquenta e oito anos, com olheiras profundas e um terno desalinhado. A manchete era ambiciosa. Tratava-se do trabalho mais provocativo de teoria histórica escrito na Inglaterra desde O Capital, de Karl Marx. Nos Estados Unidos, uma versão resumida de sua obra-prima já havia vendido mais de trezentos mil exemplares. Sete mil conjuntos da edição completa ocupavam estantes de universidades e bibliotecas públicas. Arnold J. Toynbee era, naquele momento, provavelmente o intelectual mais lido do planeta.

Trinta anos depois, quase ninguém o lia. O historiador Richard J. Evans resumiria seu legado com uma sentença de morte: “uma breve moda antes de desaparecer na obscuridade”. O homem que tentara escrever a história de todas as civilizações havia se tornado, ele próprio, um fragmento de uma civilização esquecida, a do público leitor de história universal.

Como se chega do topo ao esquecimento? E o que significa construir uma catedral do pensamento que, décadas depois, serve apenas como curiosidade arqueológica? A resposta está nos livros que Toynbee escreveu, nos mundos que ele viu desabar e naquele que ele não conseguiu salvar.

O classicista e a guerra

Toynbee nasceu em Londres em 1889, em uma família familiar com a erudição. Seu pai, Harry Valpy Toynbee, era secretário da Charity Organization Society; sua mãe, Sarah Edith Marshall, havia feito estudos equivalentes a uma graduação em história inglesa em Cambridge numa época em que mulheres eram vistas com desconfiança nas universidades. Sua irmã, Jocelyn, tornar-se-ia arqueóloga e historiadora da arte. Seu tio, o economista Arnold Toynbee, homônimo que confundiria gerações de estudantes, já era uma figura pública. O sobrenome era, por si só, uma instituição.

Com bolsa de estudos, Toynbee passou pelo Winchester College e ingressou no Balliol College, Oxford, onde cursou literae humaniores, o programa de clássicos que formava a elite intelectual britânica. Formou-se com distinção em 1911. Entre 1911 e 1912, frequentou a British School at Athens e viajou pela Itália e pela Grécia. Foi nessas ruínas, entre colunas dóricas e estradas romanas, que nasceu a obsessão que definiria sua vida: a ascensão e a queda das civilizações vistas como padrões repetíveis, quase biológicos.

Em 1912, foi eleito fellow e tutor de história antiga no Balliol. Diferentemente de muitos colegas, Toynbee abrangia desde a Grécia da Idade do Bronze até o Império Bizantino, combinando a erudição literária tradicional com a arqueologia clássica, então em plena expansão. Era um jovem prodígio construindo uma ponte entre duas formas de conhecer o passado.

A Primeira Guerra Mundial interrompeu tudo. Considerado inapto para o serviço militar por uma crise de disenteria, Toynbee foi para a propaganda. Em maio de 1915, ingressou na Wellington House, a agência britânica de guerra psicológica, onde trabalhou com James Bryce investigando atrocidades otomanas contra os armênios. Contribuiu para o Blue Book parlamentar que documentaria o genocídio. Em 1916, seu trabalho foi absorvido pelo Ministério das Relações Exteriores. Em 1918, já atuava no Political Intelligence Department como especialista no Império Otomano, preparando memorandos e mapas para os delegados britânicos que se dirigiam à Conferência de Paz de Paris.

Foi em Paris que Toynbee ajudou a redigir o Tratado de Sèvres, o documento que desmembraria o Império Otomano. Também estava presente no Hôtel Majestic quando Lionel Curtis propôs a criação de um instituto internacional de assuntos exteriores. Daquela conversa nasceriam duas instituições: a Chatham House, em Londres, e o Council on Foreign Relations, em Nova York. Toynbee, aos trinta anos, estava no centro do mundo.

Havia, contudo, uma tensão que Paris não resolveria. Em suas análises, Toynbee insistia que o mundo muçulmano aspirava à autodeterminação nacional. Defendia a independência da Turquia e o estatuto de mandato para Mesopotâmia e Palestina. Argumentava que o reconhecimento das reivindicações políticas islâmicas constituía a única forma de evitar um perigoso “choque de civilizações”, expressão que ele empregou décadas antes de Samuel Huntington torná-la famosa. Na prática, a lógica política prevaleceu sobre as análises especializadas. As fronteiras foram traçadas com régua e interesse. Toynbee viu, em primeira mão, como o conhecimento histórico era subordinado ao poder.

A cadeira e a traição

Em 1919, Toynbee assumiu a cadeira Koraes de História, Língua e Literatura Grega Moderna e Bizantina no King’s College London. Era um cargo prestigioso, financiado pelo governo grego, e colocava Toynbee no coração do filo-helenismo britânico. Esperava-se dele a defesa da Grécia. O resultado foi o oposto.

Em 1921 e 1922, como correspondente de guerra do Manchester Guardian no conflito greco-turco, Toynbee testemunhou atrocidades que nenhum livro de clássicos poderia prepará-lo para ver. O que viu transformou-o. Abandonou sua posição filo-helênica e, em 1922, publicou The Western Question in Greece and Turkey, obra que desconstruía a narrativa ocidental de intervenção civilizatória. A crítica era implacável: o nacionalismo, a violência, o cinismo das potências. O problema era que a cadeira Koraes era paga por Atenas. Em 1924, Toynbee foi forçado a renunciar.

Foi um momento de ruptura existencial. O jovem classicista que acreditava na continuidade entre a Grécia antiga e a moderna descobriu, na poeira da Anatólia, que a história constitui um campo de batalha. Essa experiência moldaria para sempre sua compreensão do nacionalismo e da intervenção ocidental em sociedades não ocidentais. Também alimentaria uma pergunta que o acompanharia até a morte: por que algumas civilizações resistem ao colapso, enquanto outras se dissolvem?

A máquina de pensar

Em 1925, Toynbee tornou-se professor de história internacional na London School of Economics. Quatro anos depois, assumiu a direção de estudos da Chatham House, cargo que ocuparia até 1956. Foi nesse período que supervisionou a produção dos trinta e quatro volumes do Survey of International Affairs, obra frequentemente descrita como uma “bíblia” dos especialistas britânicos em política internacional. A experiência da Primeira Guerra Mundial, seguida pela Segunda, funcionou como laboratório vivo para sua filosofia da história.

A resposta que Toynbee elaborou, e que ocuparia doze volumes publicados entre 1934 e 1961, chamou-se A Study of History. Tratava-se de uma teoria totalizante.

Toynbee argumentava que a história universal deveria ser compreendida como história das civilizações em lugar de uma narrativa centrada nos Estados nacionais. Examinou vinte e seis civilizações, da egípcia à minoica, da helênica à ocidental, da hindu à islâmica, da maia à iucatã, e identificou um mecanismo que julgava universal: o “desafio e resposta”. As civilizações surgiam em reação a pressões, ambientes hostis, novos territórios e choques com outras culturas. O desafio precisava ser adequado. Excessivo, destruía. Insuficiente, provocava estagnação. O crescimento dependia de uma sucessão contínua de desafios superados.

Quem os superava? As “minorias criativas”, elites capazes de formular soluções inovadoras. O restante da sociedade seguia por “mimese”, imitando os modelos oferecidos por essas minorias. Toynbee acreditava que as massas seguiam exemplos espirituais e culturais mais do que impulsos econômicos. Nesse ponto, rompia radicalmente com Marx.

O colapso, por sua vez, surgia a partir da deterioração interna das próprias civilizações. As minorias criativas deixavam de inovar e se transformavam em “minorias dominantes”, elites que veneravam o próprio passado, tornavam-se orgulhosas e incapazes de enfrentar novos desafios. O sinal definitivo de decomposição era a formação de um “Estado Universal”, estrutura política que sufocava a criatividade social. O exemplo clássico era o Império Romano.

Havia, contudo, uma esperança. Durante os períodos de declínio, o “proletariado interno”, as massas excluídas da elite dominante, podia formar uma “Igreja Universal”. Essa instituição sobreviveria à queda da civilização, preservando estruturas úteis, como leis matrimoniais, e criando novos padrões filosóficos e religiosos para a etapa seguinte da história. Toynbee usava a palavra “igreja” em sentido amplo, referindo-se a qualquer vínculo espiritual coletivo capaz de transcender a ruína política.

A obsessão por padrões amplos, por continuidades invisíveis, encontrava sua expressão mais íntima num episódio que Toynbee relatava com frequência. Durante suas viagens, observara camponeses búlgaros usando gorros de pele de raposa idênticos aos descritos por Heródoto como parte do vestuário das tropas de Xerxes I. Dois milênios e meio separam Heródoto da Bulgária rural. A pele de raposa permanece. Para Toynbee, isso constituía uma prova de que a história humana opera em ciclos profundos, invisíveis ao olhar que só enxerga nações e fronteiras.

O extremo-oriente e o olhar invertido

Toynbee era um europeu que aprendera a olhar para si mesmo pelo espelho do outro. Entre 1929 e 1967, visitou a China em diferentes ocasiões e desenvolveu uma admiração que poucos de seus contemporâneos compartilhavam. Em sua classificação, a civilização extremo-oriental possuía um núcleo chinês principal e um ramo japonês-coreano. Essa valorização das sociedades não ocidentais, junto da insistência em que o Ocidente deixara de ocupar sozinho o centro do protagonismo global, distinguiu-o de uma geração de historiadores que ainda viajavam com o mapa cor-de-rosa do Império Britânico na cabeça.

As viagens foram registradas em East to West: A Journey Round the World, de 1958, livro que mistura crônica de viagem e meditação histórica. Toynbee defendia o diálogo intercultural como meio de compartilhar valores e modelos sociopolíticos capazes de permitir participação pacífica em uma sociedade mais ampla. Suas categorias eram menos rígidas do que as teorias posteriores sobre choque de civilizações. Ele acreditava, ou quis acreditar, que o contato entre culturas diferentes podia assumir a forma de uma conversa.

Essa crença coexistia com contradições. Suas propostas para o Oriente Médio permaneciam eurocêntricas e imperiais, voltadas à preservação da hegemonia britânica. Toynbee era, ao mesmo tempo, crítico do imperialismo e produto dele. Como Mommsen, como tantos liberais do século XIX, carregava a ferida que tentava curar.

O auge e a queda

A Segunda Guerra Mundial consolidou a posição de Toynbee como conselheiro do Estado. Chefiou a pesquisa estrangeira do Royal Institute of International Affairs e, entre 1943 e 1946, dirigiu o departamento de pesquisa do Ministério das Relações Exteriores britânico. Articulava estudos geopolíticos e teoria histórica com uma fluidez que impressionava diplomatas e assustava acadêmicos. A guerra, para ele, representava uma encarnação do mecanismo de “desafio e resposta” em escala global.

Em 1947, a capa da Time consagrou-o. A revista comparou A Study of History a O Capital, comparação que hoje soa quase irônica, dado o antagonismo intelectual entre Toynbee e Marx. Naquele momento, porém, fazia sentido: ambos haviam tentado escrever leis gerais da história humana. Toynbee tornou-se comentarista frequente da BBC, discutindo a rivalidade entre Oriente e Ocidente, as percepções não ocidentais do mundo ocidental e o futuro das civilizações.

Sua vida pessoal, entretanto, seguia trajetórias menos públicas. Em 1913, casara-se com Rosalind Murray, filha do classicista Gilbert Murray. Tiveram três filhos: Antony, morto na Segunda Guerra Mundial; Philip, que se tornaria escritor; e Lawrence, pintor. O casamento terminou em divórcio em 1946. No mesmo ano, Toynbee casou-se com Veronica M. Boulter, sua assistente de pesquisa. Sua nora, Jean Constance Asquith, era neta do ex-primeiro-ministro H. H. Asquith. Sua neta Polly Toynbee se tornaria uma das jornalistas mais proeminentes da Inglaterra e uma ativista ateísta, herdeira intelectual de uma família que, curiosamente, nunca deixou de debater as grandes questões em voz alta.

A obscuridade

O declínio veio rápido. A partir dos anos 1960, a reputação de Toynbee desabou com a mesma velocidade com que subira. Críticos apontavam que ele preferia mitos, alegorias e interpretações religiosas em detrimento de evidências factuais rigorosas. Muitos consideravam suas conclusões próximas das reflexões de um moralista cristão e distantes da historiografia acadêmica. Sua abordagem espiritual, marcada pela insistência nas “Igrejas Universais” e no papel das religiões como protagonistas históricos, perdeu espaço entre estudiosos e junto ao público.

A academia voltou-se para o estruturalismo, para a história social e para a micro-história. O projeto de escrever a história de vinte e seis civilizações em doze volumes parecia, de repente, um monumento ao excesso. Os historiadores queriam arquivos em vez de metafísica. Queriam classes operárias em lugar de “minorias criativas”. Queriam o particular acima do universal.

Toynbee morreu em York, North Yorkshire, em 1975. No ano seguinte, Mankind and Mother Earth: A Narrative History of the World foi publicado postumamente, última tentativa de síntese que poucos notaram. Os arquivos do Royal Albert Hall registram que, devido à enorme quantidade de artigos, palestras, livros e conferências traduzidos para diversas línguas, Toynbee talvez tenha sido o intelectual mais lido e debatido do mundo nas décadas de 1940 e 1950. Os mesmos arquivos acrescentam, com a frieza de quem fecha um inventário, que sua obra é hoje considerada controversa e raramente lida ou citada.

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