
O lêmingue é um pequeno e fofo roedor do Ártico, encontrado nas costas da Escandinávia. Apesar de ser um exímio nadador, ele perece em massa por um comportamento desconcertante ao migrar em bando através do mar, fiordes e lagos. Por mau cálculo de distância, grupos inteiros morrem nessas travessias, dando a impressão de um suicídio coletivo. A imagem é perturbadora pela impotência de uma multidão que perece pela lógica interna dela própria.
A metáfora serve bem ao comportamento humano. Compartilhar crenças e ser levado pela onda, por si só, não são fenômenos ruins. Eles nos permitem caminhar entre multidões, propiciam aceitação social e viabilizam a coexistência com familiares e estranhos. Mas um dos ônus de viver em grupo é ficar sujeito às influências sociais que afetam a cognição e o comportamento do indivíduo de maneira perniciosa. E isso ocorre por vezes sem que o próprio indivíduo perceba. É quando seguir o rebanho se torna fatal.
O pensamento de grupo
Sören Kierkegaard e Friedrich Nietzsche já advertiam, cada um a seu modo, contra a dissolução do indivíduo na massa. Para Kierkegaard, a “multidão” era a própria negação da responsabilidade pessoal. Para Nietzsche, o gregarismo era o sintoma de uma civilização em declínio moral. No final do século XIX, o sociólogo Gabriel Tarde teorizou que a imitação é o mecanismo fundamental da vida social. Os indivíduos copiam uns aos outros em ondas, propagando comportamentos e crenças como se fossem contágios.
No campo experimental, o psicólogo Solomon Asch demonstrou, nos anos 1950, que indivíduos normais e saudáveis são capazes de negar a própria percepção sensorial quando confrontados com a unanimidade do grupo. Em seus experimentos clássicos, participantes respondiam incorretamente a questões visuais elementares apenas para não contrariarem a opinião coletiva. A conformidade não era resultado de burrice, mas de pressão social. O medo de ser o único a discordar levava a ser contraintuitivo.
Foi o psicólogo Irving Janis quem sistematizou o conceito de groupthink (pensamento de grupo) ao analisar decisões políticas desastrosas como a Baía dos Porcos. Janis identificou o paradoxo central do fenômeno. Quanto maior a coesão e o espírito de corpo de um grupo de tomadores de decisão, maior o perigo de que o pensamento crítico independente seja substituído pelo conformismo coletivo. Isso tende a gerar ações irracionais e desumanizantes, especialmente em relação a grupos externos. A lealdade ao grupo passa a valer mais do que a fidelidade à realidade.
Janis descreveu sintomas inequívocos do pensamento de grupo: a ilusão de invulnerabilidade, a racionalização coletiva para descartar alertas, a crença na superioridade moral do grupo, a pressão sobre os dissidentes, a autocensura preventiva, a ilusão de unanimidade e a emergência de “guardas da mente” que protegem o grupo de informações inconvenientes. Identificou também as condições que favorecem o fenômeno: alta coesão interna, isolamento do grupo, liderança parcial, ausência de procedimentos críticos e homogeneidade ideológica dos membros — especialmente quando associadas a ameaças externas intensas, fracassos recentes ou dilemas morais agudos.
O comportamento de manada
Se o pensamento de grupo opera no interior de pequenos círculos fechados, o comportamento de manada age em escala mais ampla. É o fenômeno da Maria vai com as outras. Essa adesão automática à tendência dominante, sem deliberação consciente é perniciosa, conforme já alertara Hannah Arendt. O indivíduo não adere porque avaliou as evidências; adere porque os outros estão aderindo. E isso, por si só, parece evidência suficiente.
O escritor e professor secundarista Ron Jones conduziu, em 1967, um experimento social um tanto perturbador com seus alunos do ensino médio. Para ilustrar como o nazismo pôde se enraizar em uma sociedade culta, Jones criou um movimento fictício chamado “A Onda”. Em poucos dias, os estudantes adotaram saudações, uniformes, regras de conduta e um fervor coletivo que os próprios participantes não conseguiam explicar racionalmente. O experimento precisou ser interrompido antes que fugisse ao controle. O caso tornou-se livro e filme Die Welle. É um alerta contra a velocidade com que a identidade individual se dissolve na identidade do grupo.
Consequências
As consequências do pensamento de grupo e do comportamento de manada atravessam domínios tão distintos quanto a política, a economia e a saúde pública.
No plano político e jurídico, os antigos pensadores greco-romanos já notavam o caráter pervertedor do poder conduzido pelas massas. Tucídides retratou as consequências desastrosas para a democracia ateniense durante o período dos demagogos — especialmente Alcibíades, após a morte de Péricles. Aristóteles ponderou os males de um governo popular desvirtuado. E Políbio cunhou o termo oclocracia para designar o governo das multidões. Este um regime que difere da democracia pelo seu caráter impulsivo e pela ausência de mediação racional. Da oclocracia vieram linchamentos que impedem o devido processo legal, regimes de terror e o populismo em suas variantes modernas. Sem a negociação e o diálogo que a democracia exige, a oclocracia apela exclusivamente à combinação de instinto gregário com paixões que obliteram o bom senso. Algo que legitima, em nome do povo, a usurpação do poder, a violência, o descaso pelas minorias e a ameaça aos direitos individuais sob o pretexto de um “bem maior”.
No plano econômico, as bolhas especulativas são talvez o exemplo mais documentado do efeito lêmingue em ação. Da tulipa holandesa do século XVII às bolhas tecnológicas contemporâneas, o padrão se repete. Os investidores racionais, individualmente capazes de calcular riscos, abandonam o juízo crítico ao perceberem que “todo mundo está comprando”. O comportamento coletivo gera uma realidade temporária que parece confirmar a crença. Assim, os preços sobem porque todos compram, e todos compram porque os preços sobem. Até que a realidade econômica subjacente cobra seu preço.
No plano da saúde pública e social, as histerias coletivas revelam como o corpo e a mente humanos são permeáveis à sugestão social. Há registros, em diferentes culturas e séculos, de sintomas físicos se propagando entre grupos sem qualquer causa orgânica identificável, do riso epidêmico à síndrome de castração. Em todos os casos, o mecanismo consiste na crença coletiva modifica a percepção e o comportamento individual de maneira concreta e mensurável.
No plano digital, as redes sociais virtuais ampliaram a velocidade e o alcance do comportamento de manada a proporções sem precedentes históricos. O bullying e o cyberlynching — o linchamento virtual — são manifestações contemporâneas do mesmo impulso oclocrático de sempre, agora dotadas de escala global e anonimato. Uma multidão que jamais se encontraria fisicamente pode, em horas, destruir reputações, encerrar carreiras e incitar violência real. A lógica é idêntica à da manada. Poucos iniciam, muitos seguem, e a velocidade do contágio impede a reflexão individual.
Prevenções
O diagnóstico não implica pessimismo inevitável. Janis, ao identificar as condições que favorecem o pensamento de grupo, também prescreveu antídotos. O mais fundamental é a institucionalização da discordância. Em grupos de decisão saudáveis precisam de membros que sejam explicitamente designados para questionar. Também são necessárias lideranças que não imponham suas preferências de antemão. Adicionalmente, procedimentos que exijam a avaliação sistemática de alternativas e de exposição regular a perspectivas externas ao grupo garantem uma revisão equilibrada.
No plano individual, o antídoto começa pelo reconhecimento da própria vulnerabilidade. Ninguém é imune ao contágio social, nem os mais inteligentes, nem os mais críticos. A consciência de que o impulso de conformidade é um traço evolutivo profundo, e não um defeito de caráter, é o primeiro passo para administrá-lo. A pergunta que Kierkegaard colocava ao indivíduo ainda é válida: você está agindo assim porque acredita, ou porque todos ao redor estão agindo assim?
Apesar da lenda, os lêmingues não escolhem afogar-se. Eles seguem a lógica do grupo até o fim. Nós, ao contrário, somos capazes de parar na beira do penhasco. Todavia, ainda nos lembremos, a tempo, de olhar para baixo.
SAIBA MAIS
Aristóteles. Política. Tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora UnB, 1985.
Asch, Solomon E. “Opinions and Social Pressure.” Scientific American 193, no. 5 (1955): 31–35.
Janis, Irving L. Groupthink: Psychological Studies of Policy Decisions and Fiascoes. 2ª ed. Boston: Houghton Mifflin, 1982.
Kierkegaard, Søren. Two Ages: The Age of Revolution and the Present Age — A Literary Review. Tradução de Howard V. Hong e Edna H. Hong. Princeton: Princeton University Press, 1978.
Mackay, Charles. Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds. Londres: Richard Bentley, 1841.
Nietzsche, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
Políbio. Histórias. Tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora UnB, 1996.
Strasser, Todd [Morton Rhue, pseud.]. The Wave. Nova York: Laurel-Leaf, 1981.
Tarde, Gabriel. Les Lois de l’Imitation. Paris: Félix Alcan, 1890.
Tucídides. História da Guerra do Peloponeso. Tradução de Mário da Gama Kury. 4ª ed. Brasília: Editora UnB, 2001.

Muito interessante conhecer o conceito de oclocracia, algo que parece ser incentivado nesses tempos de redes sociais. E nunca imaginei que o filme “A Onda” era inspirado em um experimento social.
A ignorância violenta das multidões me assusta. Sinceramente espero que a empatia, individual e coletiva, seja valorizada junto do raciocínio crítico.
Obrigado pela observação.