No coração de Hallstatt, nos idílicos alpes austríacos, entre as minas de sal mais antigas da humanidade e montanhas que retêm neve mesmo nos meses quentes, aguarda o arquivo do futuro. Surgiu quando o ceramista Martin Kunze colocou-se diante de uma interrogação que costuma escapar às urgências do presente: o que restará de nós para aqueles que virão muito depois de termos desaparecido?

Em 2012, Kunze modelou de forma concreta a essa inquietação ao lançar o projeto Memory of Mankind (MOM). Longe de uma cápsula do tempo típica, dessas que enterramos no jardim para ser desenterrada em algumas décadas, Kunze propôs algo mais extremo. Idealizou criar um arquivo destinado a atravessar o tempo imemorável. É algo para durar possivelmente um milhão de anos. Quem sabe, superar a existência humana. O arquivo é gravado em pastilhas de cerâmica concebidas para resistir ao esquecimento geológico e outros trancos.
A ideia é ao mesmo tempo simples e quando ambiciosa. Textos, imagens, notícias, estudos científicos, trechos literários e memórias pessoais são inscritos a laser em discos cerâmicos. Diários íntimos, cartas de amor, blogs quase esquecidos, artigos obscuros. Isso tudo converge num retrato coletivo, construído de baixo para cima, sem a mediação de curadores oficiais. O arquivo não pretende ser uma enciclopédia. Antes, é um mosaico fragmentário da nossa era. Está mais próximo de uma escavação futura do que de um museu planejado.
A escolha do material não é arbitrária. Poucas tecnologias humanas demonstraram tanta longevidade quanto a cerâmica. Enquanto os suportes digitais sucumbem à obsolescência em poucas décadas e o papel se desfaz em condições adversas, a argila queimada resiste a pressão, umidade, variações térmicas e até ao fogo. A história já nos ofereceu o precedente: as tabuletas cuneiformes da Mesopotâmia, que ainda hoje nos falam de leis, comércio, astronomia e mitos depois de cinco milênios enterradas em ruínas ou esquecidas em depósitos palacianos. Kunze retoma, com consciência, a mesma aposta dos escribas sumérios e babilônicos. Ainda que impérios desabam e línguas se extinguem, a cerâmica permanece.
Esse gesto de preservação dialoga, entretanto, com um temor difuso e crescente. Vivemos imersos na “nuvem”, celebrada como depósito infinito de memória, mas sabidamente frágil diante de colapsos econômicos, catástrofes ecológicas ou simples falhas sistêmicas. O excesso digital pode, paradoxalmente, acelerar o apagamento coletivo. Contra essa vulnerabilidade, as pastilhas cerâmicas oferecem uma resposta material, quase arcaica em sua solidez. Algumas delas empregam o que Kunze chama de “microfilme cerâmico”. Essa tecnologia possui a capacidade de condensar milhares de páginas, como até cinco livros extensos, em poucos centímetros quadrados.
A mina de sal de Hallstatt funciona como o guardião perfeito desse arquivo. Sua estabilidade geológica, o ambiente seco e a lenta ascensão natural do depósito ao longo dos milênios criam condições quase ideais.
Cada participante recebe uma ficha cerâmica com mapas que indicam a localização do arquivo. A lógica é deliberadamente seletiva. Apenas sociedades com certo grau de conhecimento técnico conseguirão decifrar o caminho e penetrar no interior da mina. Um “fio de Ariadne” complementar, composto por pastilhas com indicações matemáticas, deve guiar os futuros descobridores. Prevê-se ainda uma revisão em 2070, momento em que se decidirá se o acervo deve ser ampliado ou se já cumpriu seu papel.
No entanto, a ambição do Memory of Mankind levanta questões que ultrapassam a engenharia material. Que linguagem é capaz de atravessar eras sem perder seu sentido? Como transmitir emoções, valores e o próprio sabor de uma existência humana a um futuro radicalmente outro? Para enfrentar esses dilemas, Kunze dialoga com linguistas, antropólogos, especialistas em resíduos nucleares e pesquisadores de missões espaciais. Todos parecem convergir para uma mesma intuição de que deixar rastros é menos uma vaidade e mais uma condição essencial do que significa existir.

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