Saudade de onde ainda não estive

— To C.

Há uma fotografia, talvez da sua infância, em que você não aparece. Mostra uma janela empenada, o vidro embaçaado por dentro e, lá fora, a silhueta impossível de canais de uma vila aquática que nunca existiram na sua geografia familiar. Você a guarda não por carinho à cena, mas por uma estranha certeza. Ali era para eu estar. Não como desejo, mas como constatação de um erro cartográfico do destino. Essa é a primeira punção do Fernweh e da anemoia.

Teria sido o príncipe Hermann von Pückler-Muskau quem usou a palavra Fernweh em 1835 para narrar suas viagens. Não é a vontade de viajar, que ainda pulsa de curiosidade, mas a dor de estar onde se está. Fernweh é saudade ativa, um magnetismo reverso. O sujeito não quer conhecer terras distantes. Precisa regressar a elas, embora jamais tenha pisado em seus solos. É o reconhecimento de uma pátria ausente, uma nacionalidade do espírito que não encontra correspondência nos mapas.

Mas há uma irmã mais traiçoeira dessa melancolia. Se Fernweh desloca o sujeito no espaço, a anemoia desloca no tempo. É o sentimento de nostalgia por uma época que você nunca viveu, ou, de forma mais radical, a experiência do presente como se já fosse passado.

O termo anemoia foi criado por John Koenig, um artista multidisciplinar que lançou o projeto The Dictionary of Obscure Sorrows em 2009. Koenig define anemoia de forma poética como a “nostalgia de um tempo que nunca conhecemos”. A origem da palavra reflete essa sensibilidade singular: ela é composta pelas raízes gregas ánemos (vento) e nóos (mente), uma alusão ao conceito botânico de anemose. O termo indica a inclinação constante de uma árvore provocada pela força do vento, que a faz parecer voltada para o passado. Assim, a anemoia captura a sensação de sermos moldados por um passado que nunca vivemos, um desejo melancólico por uma época que sopra suavemente na nossa imaginação.

Experimente. Você está numa tarde de domingo, luz baixa, o som de páginas virando em outro cômodo. De repente, surge uma tristeza doce, um incômodo suportável. Não pelo que acontece, mas pela certeza de que isto, exatamente isto, um dia acabará, e você já sente falta. A anemoia é a prolepse afetiva.

Vivemos numa presentificação excessiva, tudo disponível, nada durando. A anemoia resiste a isso. Insiste na finitude, na aura do efêmero. Quando você fotografa não para guardar, mas porque sente que aquele instante já é história, exerce essa memória invertida. O celular na mão torna-se um ritual de despedida antecipada.

Ambos os estados, o desejo de ir para onde nunca se foi e a dor de que o agora já é então, compartilham uma estrutura imersa. A não coincidência consigo mesmo. O sujeito moderno é sempre um ser atirado. Fernweh e anemoia sugerem outra formulação. Somos seres deslocados, permanentemente em defasagem com a própria existência.

Isso explica o fascínio contemporâneo pela estética dos espaços liminares. São corredores vazios ao amanhecer, estações de trem ao crepúsculo, locais de transição suspensos. Nessas imagens, que circulam como memes belamente tristes, reconhecemos o que sentimos internamente. Estamos sempre no limiar, nunca na habitação plena. O Fernweh nos faz estrangeiros no presente. A anemoia, arqueólogos do instante.

Há, contudo, uma redenção nesse desassossego. A beleza pode ser entendida como o início do terror que ainda se pode suportar. Da mesma forma, essas nostalgias impossíveis indicam uma amplitude interior. Só sente Fernweh quem pode abrigar geografias imaginárias. Só experimenta anemoia quem arrisca sonhar.

A capacidade de estar ausente mesmo presente, de amar o que não se tem, de sentir saudade do futuro. O ser humano que nunca experimentou o aperto no peito ao ver uma estrada que não seguirá, ou o aperto no tempo ao reconhecer que este momento, agora, entre uma respiração e outra, já é passado, viveu apenas a metade estreita da existência.

Sem saber para onde vamos, Fernweh e anemoia são compassos de navegação para uma ética do desenraizamento. Não ensinam a fugir, mas a habitar a fuga como condição. A vida, então, pode ser vivida sem ser o território conquistado nem a duração acumulada. Antecipa o lugar que habitaremos sem nos ter e o tempo que abandonamos para tocar o futuro.

P.S.: Por sugestão da Carla, coleto o poema de Robert Frost para expressar as possibilidades desses dois sentimentos.

The Road Not Taken

By Robert Frost

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

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